UNIVERSIDADE PARA QUÊ!?

“...o fato foi considerado grave e vergonhoso pelos diretores dos departamentos de jornalismo de instituições de ensino, públicas e privadas,  nas quais estão matriculadas os estudantes inscritos no processo de seleção. ... Os professores entrevistados são unânimes ao afirmar que os alunos deveriam chegar à universidade com esses conhecimentos...”

“Para evitarmos essa catástrofe, seria inevitável mais dedicação ao estudo. Mais tempo, provavelmente. - Sônia Moretsohn - chefe do departamento (de Jornalismo) da UFF”

“O gerente de treinamento da redação do GLOBO, jornalista Luiz Paulo Horta, defende a criação de uma disciplina de formação geral. (...) - ... é inadmissível que estudantes de jornalismo não saibam quem foram quatro pessoas que fizeram a história do nosso século (- afirma).”

“É um fato tão grave um futuro jornalista ser desinformado. - Paulo Vaz, vice-diretor da Escola de Comunicação da UFRJ”

“...um dos nossos esforços para compensar as falhas na formação dos alunos têm sido o de incentivar a leitura entre eles, mas é difícil. Muitos resistem. - Israel Belo, vice-reitor acadêmico da Universidade Gama Filho”

“...Há entre alunos desses cursos a cultura do 'ser criativo'. diferentemente dos estudantes de economia, por exemplo, alunos de comunicação e de artes, diz ele, não prezam tanto o estudo. - César Romero - Coordenador da graduação do Departamento (sic)da PUC”

“Também professor de jornalismo da PUC, Fernando Ferreira classificou de inconseqüente a atitude das universidades, que não admitem o despreparo dos alunos. As deficiências, segundo ele, precisam ser compensadas.”

“O coordenador do curso na FACHA (Faculdade de Comunicação Hélio Alonso) José Guilherme de Azevedo Leite, defende a mesma idéia e prega a reformulação dos currículos. - O resultado é vergonhoso. Precisamos fazer alguma coisa.”

Jornal O Globo - 18/04/99


Mais preocupante que o problema em si é a incapacidade, por parte de jornalistas e professores, em descrevê-lo e de apontar soluções. A velha discussão sobre a importância dos cursos de jornalismo retorna à baila de uma forma bastante interessante e complexa. Na mais recente prova para estagiários do Jornal O GLOBO foram elaboradas questões de conhecimento geral e, para ‘espanto’ de todos, o conhecimento demonstrado pelo alunos foi baixíssimo, com respostas até mesmo excêntricas.

O que isso prova? Que os cursos não formam profissionais bem informados? Que os futuros profissionais de jornalismo não têm capacidade para entrar numa redação? Ou, por fim, que os cursos de comunicação, em especial, os de jornalismo são uma falácia, quando na verdade o ofício do jornalista se aprende efetivamente na prática?

É grave, vergonhoso ... é inadmissível, inconseqüente! É preciso uma nova disciplina de conhecimentos gerais! Reformular os currículos, até! É preciso mais tempo para os alunos lerem! Nossos alunos não prezam tanto o estudo ... um sem número de afirmações dessa envergadura poderiam ser lidas, se mais declarações fossem dadas ao jornal. Quem se oporia!?

Mas quem realmente se importa? Quem realmente pensa em soluções!? Quem pensa nos problemas? É bastante possível que o resultado não tenha sido surpreendente para quem participou da elaboração desta prova: surpreender sim alunos e professores, fazer com que tomem providências no sentido de incentivar mais a leitura e preparar profissionais mais informados ... para no ano seguinte fazer uma prova repleta de perguntas técnicas sobre jornalismo e mostrar que os formandos não acompanham as evoluções do mercado.

Realmente é vergonhoso não saber quem foram quatro pessoas que fizeram a história do nosso século, mas muitos mais existiram e a lista é tão extensa quanto nosso domínio sobre os assuntos abordados. E quem contribuiu para sua elaboração? Qual o seu limite? Quem a afirmou ao longo da história senão os que nela tem interesse? Em última análise, qual o efetivo interesse destes personagens para os alunos!?

É preciso afirmar - se queremos realmente compreender o problema - que a relação dos estudantes de hoje com o conhecimento se dá de forma diferenciada. Até mesmo com bases nas mais recentes teorias de educação, como o construtivismo, o conhecimento é construído a partir do desenvolvimento do próprio aluno, de sua capacidade de interagir com o mundo. A ele não lhe é mais apresentada uma lista de livros ou filmes imprescindíveis, um sem número de personalidades, heróis, mártires de nossa história para que ele possa apresentar sua erudição aos seus pares e à sociedade.

A partir do convívio com estudantes de comunicação e de compartilhar suas apreensões e necessidades, podemos dizer que esse conhecimento é transversal e pragmático: transversal no sentido de que ele está apontado para seu interesse pessoal. Isto equivale a dizer que a lista de personagens históricos passa a ser formada a partir de suas próprias afinidades, não mais de uma Paidéia universal a ser assimilada.

Por exemplo, uma boa parte dos alunos soube responder quem foi Gandhi, mas poucos (até mesmo entre nós) saberiam dizer quem foi Sri Aurobindo. Pois bem, ele, contemporâneo de Gandhi, recusou-se a praticar a desobediência civil por acreditar que isso seria uma submissão à Inglaterra. Foi preso e na prisão concebeu o que hoje é a cidade de Auroville, sul da Índia, patrimônio universal da Humanidade, reconhecida pela UNESCO.

Porque Sri Aurobindo não está nos filmes e livros históricos? Quem saberia dizer quem foi Sri Aurobindo? Sabem sobre ele aqueles ligados à filosofia do Yoga Integral, o Purna Yoga, desenvolvida por ele também a partir da prisão e seguida por adeptos em todo o mundo. Muitos jovens, provavelmente, talvez até estudantes de comunicação. O mesmo pode se dizer dos outros personagens citados.

Em função disso, podemos afirmar também que a relação dos alunos com o conhecimento é pragmática. Introduzir uma disciplina ‘conhecimentos gerais’ faria com que os alunos lessem mais jornais, revistas, etc ... apenas durante um semestre, com o definido propósito de passar e seguir aprendendo as técnicas do jornalismo para inseri-los no mercado de trabalho, que é o que efetivamente lhes interessa.

É preciso afirmar, porém, que as pessoas estão lendo cada vez menos - independente de que tipo de leitura seja - e de maneira cada vez mais fragmentada, mas que isso é uma decorrência do próprio jornalismo de manchetes chamativas e textos concisos, da sedução da televisão, da velocidade da Internet. Tendência também do volume de informação produzido e disponibilizado e do problema que é gerenciar toda essa informação, principalmente em tempos de altos índices de desemprego em escala mundial.

Fazer mostrar a necessidade de se informar e de formar uma cultura geral com a aplicação efetiva desta formação no mercado de trabalho é um desafio que se coloca para todos nós: jornalistas e professores. Tornar evidente que a formação geral e a necessidade de constante leitura e educação, no estrito sentido da aprendizagem, é um componente básico do profissional do próximo milênio e é uma tarefa que cabe tanto à universidade quanto ao próprio mercado estabelecer. Mas para isso é preciso aliar a consciência da autonomia de conhecimento por parte dos estudantes, com uma especial qualidade na produção de informação por parte dos veículos de comunicação, antenada a esses admiráveis novos tempos.

Adilson Cabral é professor universitário

 
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