WEBCOMUNICAÇÃO: a comunicação pensada a partir da Web

RESUMO

Este artigo se pauta numa pesquisa documental e bibliográfica de obras que abordam o processo comunicacional no âmbito do ciberespaço e do ambiente Web, pretendendo mostrar a construção de um conhecimento particular que anuncia a necessidade da afirmação de uma nova disciplina, a Webcomunicação. Esta demanda é afirmada mediante a configuração deste particular processo de comunicação como objeto de estudo, manifestado em obras de autores fundamentais, na maturação de linhas de pesquisa em programas de pós-graduação, de seções e grupos de pesquisa em associações científicas da área e de artigos em revistas científicas na área de comunicação e afins.

Palavras-chave: Ciências da Comunicação; Teorias da Comunicação; Webcomunicação

INTRODUÇÃO

A primeira versão deste trabalho foi feita no 1º semestre de 2001 para a disciplina ‘Colóquios Avançados em Pesquisa de Comunicação I', do Curso de Doutorado em Comunicação Social da Universidade Metodista do Estado de São Paulo, ministrada pela Profª Anamaria Fadul. Naquela época o objetivo era traçar perspectivas de maturação de vertentes da Ciência da Comunicação Social, a partir do desenvolvimento de quatro grandes áreas, a saber: Comunicação de Massa, Segmentada, Organizacional (contemplando a vertente Comunitária), Grupal (contemplando a vertente Interpessoal), tomadas como referência, a partir dos macro-descritores disponibilizados pela UNESCO em seu Thesaurus de Comunicação e Informação, para o ajuste das sub-áreas analisadas na proposta de pesquisa empírica.

O primeiro problema da proposta que pretendia desenvolver na pesquisa que me cabia se evidenciou diante da grade inicialmente apresentada: como encaixar, como dar visibilidade à abordagem da Internet e, em especial, do ambiente Web no fazer comunicacional? A comunicação produzida na Internet e na Web é destinada à massa? A qual segmento seria? Quais organizações, comunidades, grupos e relações interpessoais promovem? A busca por respostas a essas perguntas ou a inviabilidade de suas formulações é que tornou o trabalho mais fascinante, resultando no desenvolvimento deste artigo.

A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR

A Internet proporciona uma nova forma de pensar e fazer a comunicação na sociedade contemporânea. Mais do que isso, trata-se de uma revolução paradigmática na comunicação proporcionada a partir de um avanço tecnológico, não de um novo postulado teórico ou manifestação social, mas sim das características de seu próprio suporte.

Não afirmamos aqui a neutralidade da tecnologia a despeito do ser humano que a conduz, mas a descoberta, a partir de sua crescente disseminação, de usos que transcendem o controle daqueles que a disponibilizaram. Comunidades, grupos, organizações e também pessoas se formam a partir deste ambiente comunicacional, afirmando o sentido da rede na sua formulação, na sua capacidade de formar interações dos mais variados aspectos, abrangências e propósitos.

Os vários exemplos que poderíamos citar apenas afirmam o cenário traçado, evidenciando a simples idéia de que ao esgarçar as possibilidades existenciais (constituição da massa, segmentos, organizações e comunidades), a velha perspectiva de definições esquemáticas se esgarça e o sistema se rompe (v. CABRAL, 1999). Ao analisar a Internet em geral e o ambiente Web em particular devemos ter em mente a idéia de que Massa, Segmentos, Organização e Comunidades, Grupos e Interpessoalidade são permeadas pela produção e circulação de informações no contexto dessa nova tecnologia.

A transversalidade de enfoques diz respeito à redefinição de aspectos relacionados à contemporaneidade no âmbito econômico, político, cultural e social, abordados por autores tais como Pierre Lévy, Wilson Dizard, John B. Thompson, dentre outros, que começam a ser consumidos com voracidade por professores e alunos nos cursos de graduação em Comunicação Social. Relaciona-se também com as alternativas de linguagem, produção de conteúdo e perspectivas de interações que passam a ser incorporadas por usuários de diferentes naturezas. E assume em caráter irreversível um novo modelo de construção do conhecimento científico relacionado à Comunicação, que parte da concepção direcionada à massa para assumir o seu caráter de rede, no qual a World Wide Web tem um papel fundamental.

Diante do desafio de formatar toda uma complexa rede estrutural de áreas e sub-áreas no campo das Ciências da Comunicação, em relação à qual a CAPES nos apresenta uma referência fundamental, uma pergunta que se faz necessária impulsiona a busca que se pretende empreender neste artigo: como podemos definir e incorporar a Webcomunicação diante desse contexto?

DIGA-ME COM QUEM ANDAS ...

Em primeiro lugar é preciso dizer que esta não se trata de uma iniciativa pioneira. No primeiro Encontro acadêmico do qual participei como ouvinte, ainda estudante em 1989, o Prof. Ismar de Oliveira Soares abordava interfaces entre a Comunicação e a Educação, propondo um esboço do que mais tarde passou a ser chamado de Educomunicação, uma disciplina que tem em sua especificidade o pensamento sobre o saber comunicacional com o caráter educacional.

Outras disciplinas específicas e sub-áreas surgem nestas interfaces e caminhos que os vários objetos e as várias linhas de pesquisa e áreas de concentração vão apontando. A Folkcomunicação reaparece nesses últimos anos com novo fôlego, mobilizando professores e pesquisadores em encontros próprios, tal como também acontece com a Comunicação para a Saúde; a Comunicação Comunitária ressurge em disciplinas e laboratórios de pesquisa e produção em várias universidades do país e, na área da tecnologia e da informática em geral e da Internet em particular se desenvolvem variadas experiências e pesquisas destituídas de uma definição conceitual e disciplinar mais organizada.

Devemos reconhecer que o nome e o trajeto da disciplina Webcomunicação não é tão popular quanto os anteriormente citados. O próprio termo é mais utilizado no âmbito comercial do que propriamente apresentado no contexto acadêmico de interseção de uma disciplina com um objeto de estudo. No contexto que buscamos apresentar rata-se mais de uma proposta de visibilidade comum às particularidades que vêm sendo analisadas atualmente, buscando-se a afirmação do termo Webcomunicação.

Web quer dizer teia em inglês. O recurso da Internet disponibilizado em 1989 por Tim Berners-Lee é denominado World Wide Web, que significa, em português, teia do tamanho do mundo, o que está mais do que popularizado nas revistas segmentadas e artigos. O resgate dessas definições se faz necessário para evidenciar que o nome de batismo proposto para esta disciplina não se refere a nada mais nada menos do que aquilo que ela representa: a comunicação no ambiente da Web, um ambiente diferente, dos tradicionais meios de comunicação de massa ou comunitários de natureza analógica, que em geral são formados por suportes palpáveis (impresso) ou efêmeros (ondas eletromagnéticas).

Diferente também da comunicação possibilitada pelo advento da Informática ou da Internet de um modo geral. Recortamos aqui essa ‘grande área' com o intuito de nos restringirmos ao que realmente nos dizia respeito e ao que ressalta evidências de real diferenciação em relação aos outros processos comunicacionais pelos aspectos inerentes ao seu suporte. Daí se descartam nomes mais em evidência como CMC – Comunicação Mediada por Computadores ou TICs – Tecnologias de Informação e Comunicação e busca-se diferenciar de termos tais como Cibercomunicação ou Comunicação Digital, por não se tratar da Informática em geral nem mesmo de estar subsumida a ela.

Além disso, devemos salientar também que a World Wide Web não é exatamente do tamanho do mundo e justamente por não ser e apresentar evidentes e preocupantes disparidades em seu acesso é que se abrem aspectos político-econômicos e sócio-culturais relacionados à necessidade da inclusão digital, que se entende pela oferta de possibilidades de acesso à Internet a um número cada vez maior de pessoas por um custo cada vez menor.

A relevância e a emergência da visibilidade do saber produzido em torno de uma disciplina é, portanto, mais do que válida, em virtude do surgimento de articulações de pessoas, grupos e organizações das mais variadas que produzem, na perspectiva da rede, uma comunicação de diferente natureza, ressaltando a necessidade de uma sistematização mais precisa.

Nesse sentido, definimos a Webcomunicação como a comunicação produzida no ambiente da World Wide Web, que possibilita o inter-relacionamento de pessoas, grupos e organizações a partir dos mais variados recursos, serviços e suportes oferecidos através da rede.

... E COM QUEM ANDOU.

Apesar da recente aplicação aos estudos dos processos comunicacionais, a idéia de hipertexto é datada de 1945, enunciada no artigo “As we may think”, do físico e matemático norte-americano Vannevar Bush e cunhada posteriormente por Ted Nelson, em 1965, a partir da afirmação do caráter associativo do pensamento humano, formado, segundo Bush, por “trilhas transversais e pessoais no imenso e emaranhado continente do saber”.

Sua associação com a Internet e, em especial, com a World Wide Web, que impulsionou sua dimensão comercial por oferecer um ambiente gráfico agradável e interativo com os usuários, vislumbrou novas possibilidades de investigação teórica, resultando na elaboração de paradigmas contemporâneos no campo da comunicação, que viam no enredamento integrador de várias pessoas e grupos, um ambiente para a formação de comunidades e a afirmação de identidades.

A concepção de rede já estava contemplada nos primórdios do seu desenvolvimento militar, ainda na ARPANET, como uma integração entre computadores que possibilitasse a circulação de informações em longa distância, sem o conhecimento ou a intromissão de inimigos existentes ou potenciais, concebida num ambiente de trocas de informação descentralizado.

Mais tarde, foi assimilada e dimensionada por jovens especialistas de informática no início dos anos 70, principalmente na Califórnia, caindo nas graças de alguns setores acadêmicos, que a incorporaram como teia para a circulação de informações, o desenvolvimento de pesquisas e a maior articulação de pesquisadores, cujo maior e mais recente trunfo foi o Programa Genoma Humano, um consórcio mundial de pesquisadores que, a partir de articulações via Internet, vem se empenhando no mapeamento do código genético de várias espécies, dentre as quais, o próprio homem.

Sua ampliação começou a ser ensaiada no começo dos anos 90 e despontou no final da mesma década. Os principais fatores responsáveis pela motivação e pelo descobrimento do potencial de mercado foram a definição de uma interface gráfica, a expansão e o barateamento de micros e softwares, o desenvolvimento de recursos, serviços e aplicativos dos mais diversos, além da entrada de empresas pontocom e versões virtuais de empresas já existentes.

O incentivo à utilização pessoal da Internet abriu novas frentes no mercado de trabalho, oferecendo novas oportunidades de formação profissional, novas redes interpessoais e interculturais se formaram, estabelecendo tanto o entretenimento na própria Rede, como intensificando o entretenimento online, na versão de jogos, gincanas, quiz (sites de perguntas), chats, entre outros.

A diversificação de ofertas de produtos e serviços por parte das empresas originou uma série de investigações e o amadurecimento de reflexões e pistas nos mais variados campos do conhecimento:

- a forma e a linguagem que proporcionassem uma maior navegabilidade ao usuário orientaram estudos de Design aplicado à Web, ou ainda, o já consolidado webdesign;

- a produção editorial e a de conteúdo também levaram a um campo do conhecimento ligado às experimentações e tendências de construção de textos em associação a outros suportes;

- num primeiro momento, a carência, e atualmente o franco e plural desenvolvimento nas perspectivas dos estudos sobre o marketing na Internet (chamado de webmarketing ou marketing online)

- a ausência de estudos de atendimento e planejamento como áreas de Publicidade, tendo em contrapartida um avanço no estudo sobre a mídia e a averiguação dos usuários, calcanhar de Aquiles para a sustentação e legitimação da Web junto aos investidores em potencial;

- além das mais variadas formas de comércio na e a partir da Rede:

B2B (business-to-business, negócios entre firmas, interesses de mercado e de apoio na infra-estrutura);

B2C (o convencional business-to-consumer, no qual as lojas vendem seu estoque pela Internet)

C2C (os leilões virtuais são um dos principais modelos de empreendimento consumer-to-consumer, além das várias comunidades que se formam pela própria rede, estabelecendo elos de relacionamento diferentes e dispersos.)

C2B – o público que fornece produtos e serviços para as empresas.

P2P – perde-se as noções de intermediário e cliente, estabelecendo relações de troca e mútuo atendimento de necessidades a partir da articulação de usuários que trocam produtos, serviços, informações, estabelecendo uma nova rede de escambo em escala global.

Contexto / conjuntura do conhecimento

A descoberta de novos e diferentes usos por parte dos vários usuários em todo o mundo levou à formação das mais variadas redes formais e informais, de trabalho ou lazer, de afinidades e/ou encurtamento de distâncias entre pessoas e organizações das mais diversas: o meio acadêmico, a sociedade civil organizada, a conseqüente apropriação da Internet por parte das empresas e o empenho dos governos em sua disseminação (ou limitação), os movimentos que surgem a partir da afirmação de liberdade de expressão e outros aspectos próprios da Internet ou mesmo num contexto político mais geral.

Em contraponto, aspectos ligados à segurança vêm à tona: os hackers, o ciberterrorismo e toda a sorte de crimes virtuais, além do distanciamento e da exclusão proporcionados pela indistinção entre o mundo real e o mundo virtual, ou mesmo a substituição de um pelo outro.

Estudos das mais variadas dimensões buscam dar conta destas temáticas: linguagem, psicologia, sociologia, direito, política e a própria comunicação (seja através das concepções de design ou dos próprios processos comunicacionais) apresentam um bom manancial para uma análise mais detida sobre essa variedade de temáticas, oriundas da conexão hipertextual de redes em todo o mundo.

A capacidade e o potencial que a comunicação impõe nesse contexto é vital para o entendimento da complexidade proporcionada pela Internet, pois não se trata de “saber se a comunicação pode corresponder a um saber particular sem se reduzir aos conhecimentos gerados a partir de outros saberes” (cf MARTINO, L. C., 2001) para a afirmação de sua importância, mas sim se a comunicação pode ser efetivamente autônoma a despeito de outros saberes, mas podendo com estes se articular.

Os dados coletados a seguir apontam, a despeito do conhecimento produzido em outros campos, para o surgimento de uma série de micro-áreas em torno do tema da Internet que buscam interfaces com outros saberes, mas sem com estes se articular, afirmando o campo comunicacional numa perspectiva bastante esclarecedora, não diretamente relacionada com os meios de comunicação, mas sim com os processos de construção de identidade e produção de sentido a partir das mais variadas interfaces, dentre elas a Internet.

ATRAVESSE AS RUAS COM CUIDADO

O momento pelo qual a academia atravessa atualmente é tão delicado quanto próspero. A assim chamada crise dos paradigmas proporcionou uma reflexão sobre a contribuição e a prática científica em dimensões nunca vistas na História da Ciência. Obras de referência e esboços de novos paradigmas em várias áreas do conhecimento vieram contribuir para o enriquecimento desse debate.

O que prova que a prova é prova? A performance é mais determinante da verdade do que a razão? Essas e outras questões estão no cerne de um debate que movimentou vários autores – Lyotard, Feyerabend, Thomas Kuhn – e a despeito de definir e afirmar posicionamentos, ainda prossegue demarcando ou expandindo fronteiras sobre nossos espaços de atuação.

Na Comunicação o debate não poderia ser de outra natureza. A começar pela idéia de que esta ciência (ou saber? ou campo do conhecimento? ou objeto de estudo?) é transdisciplinar por excelência. Tal forma de ver, pensar e aplicar a Comunicação nos mais variados contextos originou expressões tais como Teorias da Comunicação, ou Ciências da Comunicação, indicando um território neutro ou a total desterritorialização desta matéria.

No caminho contrário, e em consonância com uma certa linhagem de autores, acreditamos na essência e na determinação da Comunicação como um campo científico próprio, cujo objeto fundamental se constitui a própria natureza do processo comunicacional, ou seja: a circulação de informações entre dois ou mais agentes, visando a produção de sentido e a construção de identidades.

Diante da necessidade manifesta de se aprofundar na definição e na visibilidade desse campo e, por conseqüência, na definição do processo comunicacional, os autores que se arriscavam nessa empreitada se utilizaram de três saídas: o caminho da fuga para um outro ramo do conhecimento, evidentemente sem disputas em virtude de seu caráter original (caso da Midiologia, de Regis Debray), o caminho de afirmação da transdisciplinaridade como componente da identidade do campo, ressaltando seu caráter dinâmico, e por fim um terceiro caminho, buscando afirmar e delimitar seu objeto de estudo, localizando-o no tempo e nos mais variados contextos sócio-culturais, políticos e econômicos.

Há de se distinguir, entretanto, o termo comunicação do termo mídia, no sentido da definição de seu marco reflexivo original. Não podemos conceber uma determinação pela técnica como introdutória dos estudos desta área, pois seria a limitação do rico e amplo processo comunicacional à dimensão da mídia, que seria um aspecto dentro do contexto comunicacional.

Sendo assim, cabe buscar as origens e definições de um objeto que é próprio de uma dada ciência, denominada Comunicação, que estabelece relações de contato com várias outras – Sociologia, Política, Psicologia, Semiologia, Direito, etc – mas nelas não se dilui. A aqui definida Comunicação no ambiente da Web vai incorporar a transdisciplinaridade própria da Comunicação e trabalhar na perspectiva de seus mais variados estudos visando a compreensão de fenômenos específicos das interconexões possibilitadas pela rede.

Devemos ressaltar também que, quando falamos da utilização de imagens, sons e animações nos emails, abordamos um recurso possibilitado pela linguagem HTML, desenvolvida para a WWW e incorporada pelos programas e servidores de email. Entendemos, portanto, que não se trata de outro aspecto que não aquele que cabe ser tratado no âmbito dessa disciplina.

A afirmação da Internet como ambiente comunicacional e sua disseminação em escala mundial, redefine os mais diversos setores sociais: economia, educação, saúde, direito, etc ... trazendo a necessidade da afirmação de uma nova linha de estudos específicos, que viesse a despontar no campo da comunicação, questionando, ao mesmo tempo, as fronteiras que demarcam as definições correspondentes às suas áreas.

Surgem termos como Nova Economia, Webmarketing, Cibercultura dentre outros que procuram, de certa forma, refazer uma história do ponto de vista da incorporação do suporte digital e das tecnologias e dos trabalhos e projetos em rede. Logo surgem os contadores dessa nova era na história da Comunicação, das Mídias e, por que não dizer, da própria humanidade, na medida de sua profunda transformação nos mais variados setores. Ocupam os mais diversos espaços para a disseminação do saber no contexto da comunidade acadêmica e, longe de afirmar um consenso em relação a pressupostos, tendências, olhares sobre os mais diversos objetos, trazem em suas pesquisas, nos espaços em que circulam a produção desse saber, a demanda por novos e mais precisos conceitos, que reflitam especificamente as transformações em curso a partir da disseminação dos suportes digital e virtual.

OLHE COM QUEM ESTÁ FALANDO

Nesse sentido, procuramos aqui relacionar sistematicamente alguns desses espaços no Brasil e no exterior, que buscam afirmar aspectos metodológicos e de caráter epistemológico nas pesquisas que socializam, situando as novas tecnologias no campo de conhecimento da Comunicação, a despeito da busca determinada pela afirmação de uma área do campo de conhecimento comunicacional. Não cabe nesse artigo esgotar as referências possíveis, até porque o tempo se encarrega de expandi-la, mas o propósito aqui é justamente o de evidenciar o processo de maturação desse conhecimento.

Dessa forma, tomando como ponto de partida as ementas de grupos de pesquisa e setores de associações científicas nacionais e internacionais que refletem diretamente essas interfaces, bem como os textos disponíveis em suas bases de dados na própria Web, chegaremos a evidenciar alguns autores e temáticas que se afirmam, construindo o caminho de consolidação deste saber.

Entretanto, na medida em que se trata de uma tecnologia com as mais variadas utilizações e apropriações, percebe-se também uma preocupação de outros grupos, a partir de seus temas geradores, em especial nos GTs e seções relacionadas à teoria, metodologia e epistemologia, no sentido de apreender sua importância para o campo, seja como ferramenta, seja como objeto de estudo. o que demandaria uma pesquisa mais extensa.

INTERCOM – http://www.intercom.org.br/

NÚCLEO DE PESQUISA

TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E DA COMUNICAÇÃO

Ementa: O Núcleo de Pesquisa Tecnologias da Informação e da Comunicação tem como objeto o desenvolvimento da Comunicação Mediada por Computador (CMC) e seus efeitos sobre a Indústria de Comunicação e a Sociedade. Uma primeira seção temática concerne à Internet e analisa a singularidade de seu mecanismo de recepção e emissão, as novas formas de mediação que autoriza e suas características tecnológicas. A segunda seção concerne à Sociabilidade Virtual, que analisa grupos de discussão, salas de bate papo, homepages e privacidade. A terceira seção é a Hipermídia, que está focada no esforço social de construir a linguagem própria deste novo meio, analisando a convergência, o hipertexto e a imersão. A quarta seção concerne às transformações recentes nas Telecomunicações e seus efeitos sobre a Indústria de Comunicação e a audiência.

Coordenador: Prof. Dr. Paulo Vaz (UFRJ-RJ)

E-mail: paulovaz@openlink.com.br

COMPÓS – http://www.compos.org.br/

GRUPO DE TRABALHO

TECNOLOGIAS INFORMACIONAIS DE COMUNICAÇÃO E SOCIEDADE

Ementa: Estudos sobre as formas de comunicação de inserção das tecnologias informacionais da comunicação no mundo contemporâneo, compreendendo, nessa perspectiva, uma discussão sobre (1) a dinâmica sociocultural instaurada   pela disseminação dessas tecnologias (aí compreendidos o seu papel e as       suas conseqüências na vida quotidiana), e sobre (2) o estatuto da       comunicação eletrônica nesse contexto.

Coordenador - André Lemos (UFBA)

E-mail: alemos@ufba.br

http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/tics

IAMCR – http://www.humfak.auc.dk/iamcr/

COMMUNICATION TECHNOLOGY POLICY SECTION (CTP)

Ementa: A Seção de Política de Tecnologia da Comunicação tem seu foco nos aspectos de design, de política, de mercado e de uso das redes de comunicação mediadas tecnologicamente, com atenção especial tanto para a teoria quanto a prática. A pesquisa conduzida pelos membros desta Seção inclui trabalhos sobre interações dentro do espaço virtual ou eletrônico, e o uso das tecnologias de informação e comunicação em configurações virtuais ou aproximadas; aspectos de design, política ou mercado de redes públicas ou privadas; e as implicações do desenvolvimento desigual das redes.

Esta pesquisa é pautada por uma preocupação dual em ressaltar forças politico-econômicas e relações de poder por um lado, e os discursos e debates técnico e político no outro. O trabalho da Seção dimensiona as arenas locais, nacionais, regionais e internacionais e reflete o consenso crescente no círculo político e acadêmico de que as tecnologias de informação-comunicação são crescentemente centrais à economia e à vida cotidiana.

Coordenadores: Hopeton Dunn (Jamaica) e Pascal Verhoest (Holanda)

E-mail: hdunn@cwjamaica.com e p.verhoest@encip.org

Homepage: http://www.komdat.sbg.ac.at/ectp/

ALAIC - http://www.eca.usp.br/associa/alaic/

COMUNICACIÓN, TECNOLOGÍA Y DESARROLLO

As problemáticas do desenvolvimento e da mudança social, vinculadas às transformações técnicas e científicas e o papel instrumental da comunicação, têm seus antecedentes nos clássicos estudos de difusão de informações e processos de modernização.

As críticas ideológicas e epistemológicas a essa corrente e o replanteio constante da teoria para dar conta da dinamicidade desta problemática requerem renovados esforços para que as críticas e propostas de conhecimento sejam significativamente superadoras.

Este GT, não obstante reconheça uma ampla gama de temas e problemas que podem ser incluídos, centrará sua preocupação nas investigações e estudos que permitam a discussão e a renovação do difusionismo clássico. Os enfoques socio-históricos e culturais na análise da difusão, circulação de informações e inovações sociais.

O papel da tecnología e do conhecimento na mudança social e suas conseqüências nas dinâmicas de participação e modificação do ambiente natural e social. As críticas comunicacionais às experiências de intervenção para o desenvolvimento. A comunicação nas práticas extensionistas e de promoção social. As inovações em contextos locais e globalizados. As ideologias e resignificações do velho e do novo. A teoria e a prática de comunicar o novo. A comunicação de inovações e o meio ambiente. Responsabilidades públicas e privadas diante da inovação e da mudança técnica e científica como centro de difusão e adoção de inovações.

Coordenador: Gustavo Cimadevilla (Argentina)

E-mail: gcimadevilla@hum.unrc.edu.ar

http://www.eca.usp.br/associa/alaic/gt1.htm

ICA - http://www.icahdq.org/

COMMUNICATION AND TECHNOLOGY DIVISION

A Divisão de Comunicação e Tecnologia

The Communication and Technology division is cometida à excelência no desenvolvimento teórico e de pesquisas envolvendo as causas, conseqüências, e/ou contextos das velhas, aatuais e novas tecnologias da comunicação. Os estudos podem focar a análise da relação intraindividual ou interindividual em pequenos grupos, organizações, Estados-nação ou relações internacionais.

Não há a necessidade de limitação aos paradigmas clássicos, sendo bem-vindas contribuições que conhecidamente usem paradigmas que incluam, mas não sejam limitadas, a economia, a psicologia, a sociologia, as ciências políticas, a história e a teoria literária. Métodos podem incorporar as abordagens quantitativa, qualitativa, histórica, crítica, marxista, institucional e humanística.

A Divisão de Comunicação e Tecnologia está relacionada com as formas existentes e emergentes de comunicação mediada pela tecnologia entre pessoas e/ou pessoas e recursos de informação interativos. A divisão investiga, desenvolve e compartilha idéias e recursos relacionados a: afirmação e ao desenho de metodologias, implementação de estratégias, às implicações políticas e econômicas das necessidades dos usuários, avaliação de sistemas em curso, efeitos e implicações para negócios, a casa e a sociedade, incluindo a medição da produtividade e a qualidade de vida e a difusão tecnológica. A divisão procura teóricos, investigadores experimentais e de pesquisa, além de práticos.

Coordenador: Joseph Schmitz

E-mail: joseph-schmitz@utulsa.edu

http://www.icahdq.org/divisions/commtech/

AOIR – http://www.aoir.org/

INTERNET RESEARCH 4.0 – BROADENING THE BRAND

Mais recentemente, a associação de pesquisadores da Internet se reunirá em outubro deste ano, em Toronto, Canadá, para realizar sua Conferência Internacional e Interdisciplinar. Debatendo o modo de como as redes de comunicação digital tais como a Internet estão mudando o modo de como as pessoas se interagem, com efeitos profundos nas relações sociais e instituições. Busca-se considerar quem é incluído ou excluído e o que efetivamente se sabe sobre a composição e as atividades das comunidades online. O tema encoraja a participação estreita de diversas disciplinas, comunidades e pontos de vista que são colocadas de forma tópica no site da associação.

Organizador: Knowledge Media Design Institute (U. of Toronto)

Homepage: http://www.kmdi.utoronto.ca/

Partindo do princípio de que as ementas dessas associações funcionem como convites à comunidade acadêmica para encorpar a produção e o debate em torno de temas comuns, que formam identidade de grupo, sistematizam e dão continuidade à produção científica, além do tema central que aglutina todas as contribuições, esses núcleos, grupos, divisões e seções assumem alguns aspectos interessantes.

Em primeiro lugar, uma perspectiva de abordagem histórica (“novas com velhas tecnologias”, “mediadas pelo computador com tradicionais”, etc) que posicionam o advento do suporte digital e do virtual no contexto do desenvolvimento midiático.

Além disso, incorporam uma perspectiva de abordagem multidisciplinar, propondo o suporte de ou a interface com outras ciências, em especial no campo das Ciências Humanas e Sociais, além da Psicologia, e mais recentemente, das Ciências da Cognição e das Neurociências.

Nesse sentido, a afirmação de disciplinas nestes moldes contribui para a criação de desenhos mais precisos no campo de abordagem onde outros enfoques se inserem, realçando a relevância e a pertinência dos debates sobre o ambiente da Web no campo comunicacional.

CONCLUSÃO

Novas identidades surgem de várias formas e a partir de vários contextos. Surgem também da vontade política ou a partir das evidências proporcionadas pelo coletivo. Ao reconhecer a necessidade da afirmação de um campo do conhecimento comunicacional que consolide e sustente as interfaces entre a Comunicação e o suporte digital e virtual materializados pelo ambiente da Web, esta proposta resulta num convite a abordagem de uma série de temáticas e objetos afins que se perdem no meio das nomenclaturas e conceitos atualmente dispostos.

Até porque, outras divisões, recortes, olhares e propostas possíveis surgirão neste campo que, de forma mais abrangente, incorpora a Informática e a Internet em sua relação com a Comunicação, que por sua vez ainda vem sendo consideradas, do ponto de vista da visibilidade da produção do saber acadêmico, no mesmo contexto das tecnologias da Informação e da Comunicação, como se este fosse o locus mais apropriado para o debate.

Nesse sentido, nossa proposta é reivindicar aqui um espaço mais pertinente para a abordagem da Comunicação no ambiente da Web, que possibilita uma nova dimensão de interatividade, de convergência de suportes (texto e imagem, áudio, vídeo) e de efetiva inter-relação entre agentes produtores de conteúdo nunca vistos na história dos mídia.

Tanto assim, que a Internet promove o desgaste da própria idéia de meio de comunicação, posto que se constitui num ambiente comunicacional do qual a pessoa deixa de ser mero espectador (leitor, ouvinte, telespectador) e passa a ser usuário na medida de sua potencialidade de apropriação, um dos temas centrais e de grande valia para o entendimento e a afirmação da Webcomunicação como um possível e necessário encontro de preocupações científicas dispersas.

 

BIBLIOGRAFIA

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por Adilson Cabral
Mestre e doutorando em Comunicação Social
pela Universidade Metodista do Estado de São Paulo.
Professor de Comunicação Social da
Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro.

 
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DA MECÂNICA À DINÂMICA: um passeio pelas teorias da comunicação