A INTERNET E A LUTA DE CLASSES “Não
é válido formular o problema nesses termos: Umberto Eco Pela primeira vez promove-se uma revolução paradigmática na comunicação a partir de um avanço tecnológico. Não obstante o fato de ser essa mudança tão radical que reconfigura nossa maneira de pensar e fazer comunicação, vale sempre lembrar que ela se constituiu não a partir da apresentação de um novo postulado teórico ou manifestação social, mas sim das características de seu suporte. Esta afirmação aparece propositadamente aqui em tom provocativo, com o intuito de instigar o meio acadêmico a refletir seu papel diante de um cenário de constantes transformações no campo da comunicação, tendo a Internet como ambiente deste novo e irreversível processo. No meio acadêmico, um dos maiores entusiastas das possibilidades da Internet é o filósofo Pierre Levy. Ele ressalta que “a cibercultura expressa o surgimento de um novo universal, diferente das formas culturais que vieram antes dele no sentido de que ele se constrói sobre a indeterminação de um sentido cultural qualquer”(1). Não se afirma a partir de uma proposta unificadora dentro de um campo distinto de atuação, mas trata-se de um universal não totalizante. Esta revolução pode ser percebida de forma mais acentuada em relação à comunicação. Estamos assistindo ao desenvolvimento de um meio que oferece uma possibilidade ativa de participação, a partir de características tão catalisadoras de articulações como a efetiva interatividade de públicos e de suportes: áudio, imagem, texto e animação, além da convergência de sinais de radiodifusão e de telefonia. Um meio que, pela primeira vez na história de todos os meios de comunicação já existentes, concebe uma relação de via dupla entre quem produz e recebe informação, suprimindo a barreira entre esses dois atores, possibilitando uma sociedade de produtores-receptores de comunicação. Ao compartilhar um mesmo suporte para receber e produzir informação, a massa se torna potencialmente produtiva, passando a interagir e se reconfigurar como rede. A mensagem, portanto, não se apresenta mais como um bloco monolítico com um destino determinado, mas como um elemento complexo e moldável em relação aos movimentos promovidos nessa rede. Toda crítica dos teóricos da comunicação ao longo dessas últimas décadas esteve construída em pressupostos contemplados pela Internet, motivadas em especial pelo legado crítico da Escola de Frankfurt, tão esplendidamente simplificado numa frase do jornalista alemão Dieter Prokop: “o caráter emancipatório da práxis está (...) na supressão da contraposição entre produtores e receptores”(2). A formação da consciência crítica, portanto, sempre esteve ligada à idéia de participação ativa na produção de comunicação. E, nesse contexto, os meios de comunicação de massa sempre contribuíram para estabelecer limites e afirmar o distanciamento entre quem produzia e quem recebia comunicação, afirmando a autoridade de uma classe dominante e sustentando assim seu poder. Sendo assim, faz-se necessária a seguinte questão: se o pensamento latino-americano na área da comunicação sempre reivindicou espaços para um público cujo papel era ser mero destinatário de mensagens comunicacionais, porque diante da Internet a crítica permanece portadora de tensionamentos que não se levavam em conta anteriormente? AS
CRÍTICAS
Diante de um sem número de críticas de vários tons e cores, nos concentraremos apenas em três norteadoras de grandes áreas de toda estrutura social: no campo político, a afirmação de que a Internet acentua o enquadramento de seus usuários dentro de um modo de produção capitalista; a questão do acesso ao hardware e software disponibilizado pela indústria da informática, colocando-nos diante de um impasse econômico e a afirmação do inglês como língua universal, traduzindo-se numa nova face do imperialismo cultural norte-americano. DA
ELITE E DO POVO
Uma
das mais contundentes críticas à Internet define sua expansão mundial
como fruto de um “período histórico da reestruturação global do capitalismo”(3).
É bem verdade que seria simplista apresentar seu surgimento a partir de
uma série de acontecimentos inusitados. A rede originária da Internet,
a ARPANET, foi desenvolvida por militares e concebida num ambiente de
trocas de informação descentralizado, visando despistar ataques inimigos.
Mais tarde, foi assimilada e dimensionada por jovens especialistas de
informática no início dos anos 70, principalmente na Califórnia, e posteriormente,
com o surgimento da indústria de hardware e software, despertou, enfim,
a atenção para seu aproveitamento comercial em larga escala.
Se a Internet tal qual a conhecemos vingou em todo mundo a partir deste modelo, não foi exatamente por acaso, nem por benesses dos militares, mas sim por conta de uma notória visibilidade de uma comunicação sem fronteiras, sem censuras, interativa e imediata, que já se fazia pressentir na evolução dos meios existentes. Pela necessidade de se comunicar sem intermediários, tais como sistemas de comunicação cujas regulamentações são provenientes de gestões bem sucedidas do setor privado sobre o setor estatal, ou mesmo do conluio entre eles. Também não podemos concluir diante disto que o controle da comunicação não desaparece, mas podemos afirmar, em função dos produtos e serviços disponibilizados hoje na Internet, que este efetivamente migra da produção para a infra-estrutura, abrindo brechas interessantes de atuação. Pelo seu próprio ambiente, a INTERNET possibilita uma verdadeira transformação quanto à democratização da posse, do controle, do acesso e da produção da comunicação. Se, diante dos meios de comunicação de massa tradicionais, a sociedade civil reivindicava espaços a partir da aprovação de leis democráticas, visando a sustentação legal de seu acesso e de suas experiências de comunicação, o surgimento da INTERNET vem possibilitar uma ampla gama de recursos para a manifestação de pessoas, grupos e comunidades das mais diversas. Várias articulações surgem a partir de homepages, listas de discussão, salas de chat e mesmo troca de emails. Pensar essa articulação nos meios de comunicação tradicionais, por assim dizer, seria impossível como ainda o é. Negar a existência dessas possibilidades de articulação é negar nossa própria história. Então, como se motiva a crítica nesse sentido? A Internet como espaço de articulação afirma o modo de produção capitalista como irreversivelmente dominante. Ter computadores e programas mais capazes e atuais para acionar seus recursos, desfrutar do melhor acesso e da melhor linha telefônica para obter uma conexão mais rápida, ter uma homepage mais atrativa e mais bem visitada. A performance impera como perspectiva, mas a Internet não é determinante desta relação, ao contrário, as possibilidades de uso público e gratuito de suas ferramentas - hardware e software - são concebidas e compartilhadas entre seus usuários. Outra forma mais perversa de utilização da Internet é promovida por várias empresas e grupos empresariais que atuam como provedores de conteúdo e softwares especializados. Trata-se exatamente de conceber a Internet como um meio massivo, ou melhor, passível de massificação. Um exemplo é o tratamento dado à informação contida em mega portais de informação, destinados apenas àqueles que assinam determinado serviço ou produto, ou ainda, programas que interferem nas configurações dos micros dos usuários, para criar fidelidade ou mesmo afinidade com o produtor, quando na verdade escravizam o micro do usuário. Aos que desenvolvem afirmativamente suas críticas a partir do ambiente da Internet, cabe disseminar a denúncia sobre tais práticas. Tanto pela atitude de tornar vendáveis determinados conteúdos de homepages, indo de encontro a seu espírito gratuito e democrático, como no que diz respeito à invasão de privacidade promovida pelas empresas a partir de seus produtos (softwares e chips), este então um crime evidente, mesmo diante de relações que não envolvam o espaço virtual. Surpreendentemente, assistimos a manifestações no sentido oposto, mostrando como este vem a ser o caminho natural da exploração da Internet nos próximos anos, ou mesmo que a Internet foi concebida no intuito de se apropriar de informações alheias, para dimensionar o mercado e muni-lo de informações qualitativas sobre seus consumidores, promovendo e impulsionando o database marketing, que promete um tratamento personalizado ao consumidor. Fogos de artifício devem ter recebido a declaração de Jonathan Zittrain, diretor-executivo do Centro Berkman para a Internet e da Sociedade da Escola de Direito da Universidade Harvard (EUA). Ele afirmou, durante a realização do 30º encontro anual do ‘Fórum Econômico Mundial’, em Davos, Suíça, que a ‘relativa gratuidade’ da Internet está com seus dias contados. Segundo ele, dentro de 18 meses, os novos computadores portáteis sairão de fábrica equipados com um chip semelhante ao dos taxímetros convencionais. “Por mais que tentem, os usuários não vão conseguir baixar um documento ou copiá-lo sem primeiro pagar por isso”. Apesar das boas referências de seu autor e da eficiência na escolha de um lugar apropriado para lançar sua afirmação, podemos ter total clareza de que a empresa de informática que vier a se submeter a tal empreitada estará sujeita a falir e ser execrada por consumidores, sendo desmascarada por especialistas em informática, que produzem e disponibilizam sites informativos sobre o desempenho de produtos e muitas vezes possuem contatos estreitos com a imprensa especialiada, quando não são articulistas, colunistas, ou mesmo repórteres. Exemplos significativos não faltam: a própria Microsoft teve que remodelar a arquitetura de sua Microsoft Network (MSN) em função de um rastreamento promovido a partir do código de sua programação. A mesma medida foi tomada pela Intel, que lançou no mercado seus primeiros chips Pentium III com números de fábrica no chassi que possibilitava identificar o micro do usuário junto à empresa, disponibilizando também o acesso a seus dados, bem como sua movimentação na rede. As recentes suspeitas de que as novas atualizações da dupla Windows/Internet Explorer contam com um gatilho na programação que inviabiliza seu rival mais ameaçador, o Netscape, esbarram na própria falta de reação desse browser diante do poderio da Microsoft. Mesmo diante da afinidade com as idéias de Pierre Levy, devemos chamar atenção para uma postura de equivalente comodidade tomada pelo autor, que é a de desmascarar os discursos críticos à Internet ao preço da desqualificação de seus autores. Essa que é a maior preocupação deste artigo, reivindica uma reflexão que possa trazer contribuições para o que verdadeiramente precisa ser criticado. Assim como da mesma forma, não podemos também nos afinar com a idéia de que os meios de comunicação tradicional e a publicidade boicotem a Internet, visto que são os primeiros a se interessar – vide Time Warner e os mega conglomerados mundiais de comunicação – na exploração da tão aguardada mídia digital, em seus vários formatos: WebTV, mídia interativa, etc. Se a Internet efetivamente incentiva um modo de produção capitalista por estarmos num ambiente que favorece as relações de mercado e produtividade, devemos afirmar e ter a clareza de que também a Internet é um ambiente para a profusão de idéias outrora inexistentes, um palco para a difusão das mais diversas utopias ideológicas. Quem sabe portanto, o que esteja faltando não seria exatamente a consistência de tais idéias!? DE
TODOS OS ACESSOS
Umberto
Eco é um autor interessante: ao mesmo tempo em que assinou a frase que
dá início a este artigo, noutra oportunidade mencionou que a Internet
seria palco de uma nova tensão, não mais entre a burguesia e o proletariado,
mas sim entre quem possui ou não acesso à Internet. Enquanto os primeiros
seriam uma espécie de reféns do avanço tecnológico, aqueles desfrutariam
dos privilégios que a tecnologia pode oferecer, na medida da aquisição
e da utilização de cada um.
Ora, nem o poder econômico tem poder sobre a Internet, nem os pobres são desprovidos de acessá-la. Como vimos anteriormente, reivindicar a democratização do acesso e da produção da comunicação (não a da posse e do controle) nesse novo contexto torna-se quase uma espécie de bandeira anacrônica. A Internet possibilita o acesso irrestrito a todo seu conteúdo, desde que de posse do aparato técnico necessário. Quanto aos vários serviços de radiodifusão, as várias regulamentações na América Latina impuseram limites à sua veiculação (retransmissão mista de tvs educativas, canais de tv a cabo, radiodifusão comunitária, etc), não se tratando apenas de ter ou não aparelhos televisivos, mas sim do acesso aos veículos disponíveis. Do ponto de vista da produção, a revolução consegue ser ainda mais radical. Veicular uma determinada produção na Internet depende mais da capacidade do produtor em se fazer visto, do que propriamente da existência de um intermediário que determine ou não sua veiculação, em função de uma grade de programação cujo controle é decidido por ele. Aliás, a crescente tendência é fazer com que este conceito de grade de programação caia por terra, visto que a apresentação dos conteúdos na Internet, e mesmo na TV interativa, se daria por meio de pacotes de comunicação ou mesmo sites a partir de conexões mais rápidas. Deriva desse aspecto que ter uma rádio na Internet hoje é algo extremamente simples, barato e acessível do ponto de vista de sua legitimação. Um site transmitindo áudio ao vivo e 24 horas por dia não pode ser comparado a uma rádio convencional, que ocupa um determinado espaço no dial e no éter, além de, segundo campanhas difamatórias promovidas por associações de empresas de comunicação, interferir na estabilidade dos aviões e na comunicação das ambulâncias. Embora não exista uma legislação que impeça sua existência e continuidade, o impasse está, obviamente, na recepção. Nesse sentido, receber a informação depende de uma infra-estrutura que não é facilmente disponível, e, além disso, em função da interface do computador com o usuário, a influência de uma rádio digital não é a mesma de uma rádio transmitida pelo ar. Entretanto, podemos afirmar seguramente que o controle na produção e na distribuição dessa informação se estabelece dentro das mesmas possibilidades na Internet. A própria constituição desse ambiente oferece a mesma capacidade de utilização de recursos para desenvolver sites eficientes, de gerenciar essa informação e colocar à disposição de seu público e de, a partir daí, desenvolver comunidades virtuais e espaços democráticos comuns de articulação e atuação. O que não nos faz acreditar diante disso, que a indústria da informática e da produção de bens culturais não esteja abrindo mão do controle social de que dispunham a partir do formato da comunicação massiva. Ao contrário, outras formas de controle social e de bens da produção estão sendo estabelecidas de forma mais contundente. Mais e mais conglomerados de comunicação e cultura estão se desenvolvendo em escala mundial, originando fusões e desenhando um cenário para a exploração de serviços e produtos para mídias digitais. O controle social das grandes corporações está se estabelecendo, do ponto de vista da produção, a partir de grandes portais (sites) de conteúdo na Internet, que oferecem vantagens de utilização, além de programas e serviços para a otimização de seu uso. Além disso, grandes provedores de informação e acesso, que se associam a empreendimentos menores, também começam a se expandir, oferecendo de um lado as facilidades do acesso gratuito, de outro a conveniência da Internet de alta velocidade. Ou seja, podemos dizer que a manutenção do controle social está diretamente relacionada com a grandiloqüência da presença empresarial na Internet, associada também à inexistência de empreendimentos sociais de grande mobilização. Embora o crescimento da Internet esteja na capacidade de implementação de novos equipamentos e recursos por parte do mercado de informática, seu desenvolvimento é determinado pela medida da demanda de seu público. A implicação dessas transformações para o mercado gera um impasse e cria uma expectativa em relação à continuidade dos investimentos. De um lado, a necessidade de acompanhar as inovações tecnológicas, lançar novos serviços e produtos e criar ambientes mais amigáveis. Por outro, o risco de não ter retorno comercial nos caminhos escolhidos e desenvolvidos. Como se não bastasse, o avanço tecnológico cresce mais rapidamente do que a capacidade de assimilação de um determinado produto pelo mercado, diante disso, os produtos que chegam ao consumidor estão aquém do que a produção implementada e avaliada nos laboratórios das empresas desse setor. A aceleração do consumo e do aparecimento de novos e mais capazes produtos de hardware e software faz com que as empresas percam o momento certo de investir, ou mesmo desenvolvam uma estratégia equivocada de atuação ou de crescimento. Programas eficientes deixam de ser lançados ou atualizados, peças que aumentariam o desempenho dos micros não são mais fabricadas e vemos que a expansão da Internet, bem como da própria informática, depende em muito deste tensionamento que envolve marketing e (bons) negócios. A atuação da indústria da informática como um bloco monolítico é efetivamente fruto de ficção, mas a adoção de padrões comuns na maioria de micros e programas está relacionada com a capacidade de articulação em momentos específicos, tais como o DVD, um formato de vídeo digital que substituirá em breve as unidades de CD-ROM dos micros. Inicialmente implementada por um consórcio de empresas, sua estratégia de atuação foi planejada em todo o mundo, a partir de áreas previamente definidas. Outra que está sendo concebida através de consórcio é a chamada WAP - Wireless Access Protocol, que servirá para o desenvolvimento de aplicativos comuns para celulares, notebooks e outros dispositivos sem fio. Saber se essa articulação remota, interativa e instantânea de computadores em alcance mundial será possível a partir de desktops em casas e escritórios ou de pequenos aparelhos portáteis que acumulam a função de celulares, pagers e palmtops resultam em fundamentais diferenças no sentido das potencialidades de utilização. Toda essa movimentação empresarial, mas também de definição tecnológica, tem uma importância definitiva na maneira de nos relacionarmos com a Internet, em função das aplicações que o mercado assimila e implementa, do comportamento de seu público, das prioridades de investimento e de uma ação eficiente de marketing que o valorize. Em relação às iniciativas de programadores e pequenas empresas, influem também o seu poder de disseminação, a capacidade em dar continuidade ao investimento ou mesmo de ser assimilado por uma empresa de maior porte, como o caso do conhecido programa de comunicação instantânea ICQ, cuja firma Mirabillis foi adquirida pela AOL. Não parece também pertinente a afirmação de que a Internet está sendo desenvolvida para a assimilação de uma casta de privilegiados, embora seu potencial de expansão venha a ser limitado dentro dos padrões atuais. Por outro lado, a distância entre o lançamento de um produto de ponta no mercado (high-level) e sua transformação em produto padrão de consumo (entry-level) é de, no máximo 5 anos, com tendência a cair na medida da aceleração de sua produção. Não podemos considerar, entretanto, que o acesso à Internet passe pela necessidade de se apropriar dos meios de produção, assim como nem todos têm telefone, mas fazem uso de aparelhos públicos. Cada vez mais os terminais de acesso gratuito à Internet estão se tornando comuns e a partir deles um número cada vez maior de pessoas pode ter contato com este novo ambiente, até mesmo desenvolver suas homepages a partir da utilização dos softwares necessários. Para contemplar, no entanto, uma proposta que resulte numa efetiva massificação da Internet, seria preciso mais do que iniciativas pontuais de patrocinadores. Cabe incentivar sua utilização como parte de políticas públicas governamentais e de organismos multilaterais como a UNICEF, além de organizações sem fins lucrativos, no sentido de promover a Internet não como um aparato tecnológico de ponta, mas como um ambiente de comunicação, com várias ferramentas úteis ao desenvolvimento comunitário e à articulação de grupos. A partir de outra perspectiva, que é a do software, vemos a contínua superação de limites e entraves no intuito de expandir seu acesso. A idéia de transformar átomos em bits, expressão popularizada por Nicholas Negroponte, não pode ser tomada nem pela substituição do mundo real pelo virtual, como pode fazer parecer, nem mesmo por uma utilização tecnológica que contribua com a expansão do capitalismo. Ao contrário, tal atribuição é característica de uma otimização de tarefas que realizamos em nosso cotidiano (escrever/digitar uma carta, por exemplo), mas que podem e irão se aplicar em inúmeras outras áreas com o passar do tempo. Alguns fatores serão determinantes para uma maior assimilação da interface da informática e da Internet por parte dos usuários: o desenvolvimento de uma interface mais acessível, que suprima bastante a distância entre a inicialização do sistema e a apresentação de seu sistema operacional, reduzindo o número de comandos necessários à sua utilização em favor da adoção de comandos de voz e possibilitando o acionamento remoto de seu controle; a capacidade de tornar os equipamentos mais fáceis de transportar, respeitando a relação do usuário com seu ambiente, seja da casa, do trabalho ou do lazer. A tecnologia sem fio – ‘wireless’ – não se aplica somente aos controles dos equipamentos mais pesados, como também à simplificação de equipamentos, impulsionando a indústria dos gadgets; a realização de tarefas longas e repetitivas de maneira automática, ou mesmo a instalação e a utilização dos comandos de maneira mais fácil. Tais funções são realizadas a partir de programas e/ou rotinas específicas, genericamente conhecidas pelo nome de 'agentes'. Dessa forma, o usuário precisa saber cada vez menos sobre a engrenagem interna de um aparelho, preocupando-se com seu resultado final. A facilidade de utilizar e manipular softwares e arquivos, possibilitada pela natureza de seu suporte digital, também garante a inevitável expansão da Internet. Realizar uma cópia de qualidade, sem perda de informação nunca foi tão concretamente possível como a partir da disseminação da indústria da informática. Somente a introdução desse conceito revoluciona uma série de setores e redefine a estratégia de atuação de outros, trazendo também o perigo de uma má utilização por parte de criminosos das mais diferentes espécies. Também a indústria da segurança e o direito criminal terão que se adaptar aos novos tempos. DE
TODAS AS LÍNGUAS
A
perspectiva da disseminação do inglês a partir de programas e equipamentos
de informática não é originar a supremacia das empresas e produtores de
conteúdo, nem mesmo levar à perda das culturas locais. Mas sim a possibilidade
de frear a inserção das várias culturas no ambiente proporcionado pela
Internet. Nesse sentido, a língua pode ser vista como outro dispositivo
tecnológico que compõe a interface do ambiente Web. E a necessidade de
tornar a linguagem acessível leva ao aparecimento de mecanismos de adaptação
de conteúdos e de produtos.
Não se pode aceitar a idéia de que a expansão do idioma aconteceria da mesma forma se o inglês não fosse uma língua de fácil assimilação. A expansão cultural acompanhou a expansão política e econômica dos Estados Unidos a partir de um conjunto de medidas e de uma eficiente articulação entre Estado e Mercado norte-americanos que a viabilizou. Entretanto, se estivéssemos diante de uma língua mais complexa, como o holandês, ou mesmo o francês, essa expansão cultural não se daria tão amplamente a contento. Mesmo assim é necessário entender que somente uma parcela privilegiada de usuários da Internet administra bem seu conhecimento de inglês. Para a grande maioria que dispõe de um vocabulário razoável, até mesmo por força (e/ou imposição) do hábito, a língua deixa de ser um entrave, na medida em que se percebem as possibilidades de intercâmbio entre os povos, originando novas interfaces que facilitam a comunicação entre pessoas de diferentes países: desde tradutores automáticos disponíveis em diversos sites e programas específicos, programas de utilização genérica com versões nas mais diferentes línguas, sem falar nos inúmeros dicionários técnicos disponíveis na Rede. Se é verdade que, com o desenvolvimento da indústria da informática, podemos ter como quase estabelecida a imposição do inglês como língua universal, também presenciamos na indústria dos computadores o desenvolvimento de uma arquitetura aberta, que possibilita a utilização de interfaces de várias procedências e finalidades, tornando o consumo cada vez mais individualizado. Sendo assim, mais uma vez em relação à produção, afirmamos que o hábito da prática de utilização da Internet é determinado pelas demandas dos usuários. Essa evolução tecnológica, pautada na aproximação com o usuário final, é que nos permite afirmar que o computador será cada vez mais acessível no futuro. Se, por um lado, o desenvolvimento e a massificação das tecnologias se inserem num sistema de produção empresarial, são os usuários e programadores que estabelecem tendências de comportamento e de utilização da rede. A principal delas, o uso compartilhado de seus recursos, nos leva a crer que, ao contrário dos meios de comunicação antecedentes, estar na Internet e fazer uso cada vez mais amplo dela serão cada vez mais atribuições de todos do que de uma casta de privilegiados ou mesmo de profissionais do setor, visto que tanto o público pode ser concebido como consumidor de produtos e serviços, como incentivador e realizador de projetos cooperativos. Cabe, portanto, renovar o espírito crítico, trazendo mais uma vez a perspectiva de Pierre Levy, “apreender a cibercultura do seu interior, de acordo com a originalidade de seus dispositivos de comunicação, a partir de novas formas de laços sociais e longe do clamor monótono das mídias”(4). Uma postura mais afirmativa e produtiva, sem abandonar a necessária crítica, seria a de apreender esse novo ambiente e suas possibilidades, nem que isso valha alguns cursos introdutórios de informática, de Internet, uma vasta troca de emails e participações em listas de discussões e canais de chat (proibidos em muitas escolas de comunicação, com a alegação de incentivar o desvio das atividades acadêmicas). O que possível for para evitar que o pensamento latino-americano de comunicação – que um dia afirmou a capacidade das comunidades em desenvolver seus próprios meios de comunicação, renegando um posicionamento passivo diante de uma articulação excludente em todo o continente – não deixe de afirmar o estímulo aos diversos grupos e comunidades visando uma utilização mais democrática e efetiva dos produtos e serviços que a Internet coloca à disposição. CONCLUSÃO
– DE NOSSA PRÓPRIA ATUAÇÃO
O
desenvolvimento de novas tecnologias para a Internet e a constante movimentação
das grandes empresas de informática, apesar de distantes de nosso cotidiano,
são importantes para a projeção e a determinação do que virá ou não ser
a Internet num futuro de médio e longo prazos.
Uma crítica que redefina vocações faz-se cada vez mais necessária dentro desse novo contexto, onde a Internet desempenhará um papel fundamental, mas não determinante das relações. Precisamos de um posicionamento crítico que conte com a Internet para expandir possibilidades de atuação e reflexão, ao contrário de se cristalizar no tempo ou, o que é pior, afirmar o fatalismo. Nesse ponto, não trata-se mais de uma crítica apocalíptica ou mesmo niilista, mas sim de uma simples cegueira motivada pela incompatibilidade diante de um novo ambiente comunicacional. É muito mais cômodo apontar limites do que propor soluções, principalmente devido ao descomprometimento em se afirmar determinados posicionamentos. Nesse sentido, portanto, pretendemos contribuir para qualificar a crítica em torno deste tema tão polêmico, quanto imprescindível nos dias atuais. Notamos, ao longo desse tempo de afirmação da Internet no âmbito comercial e doméstico, que em muitas vezes a crítica é proporcional à (in)capacidade ou mesmo à incompatibilidade de utilização por parte de seu emissor, ou seja, quanto mais se conhece a Internet, mais se afirmam as qualidades de suas possibilidades de uso. Por outro lado, as críticas são incentivadas pelo reconhecimento das limitações de uso, ou seja, quanto menor o costume em utilizar a Internet, maior o medo de ser dominado pelo próprio ambiente e pelas novas gerações que a partir dele se desenvolvem, contribuindo-se assim para deslegitimar tais posicionamentos. Entre tantas implicações, as mais incômodas se relacionam com a perda do poder e da autoridade de posições de destaque como a do professor e a da própria Universidade como espaço da realização do conhecimento científico, diante de um conhecimento que se produz coletivamente e de forma compartilhada. Nosso intuito, no entanto, é o de caminhar no sentido contrário, reunir vozes que cultivem a Internet como um espaço efetivamente democrático e participativo, promotor da doce utopia que sempre perseguimos em nossa atuação como professores, pesquisadores e, principalmente, como atores políticos. Está aberto o convite! NOTAS BIBLIOGRAFIA Prof.
Adilson Cabral |
||||||||||||
| ESTOU AQUI DE PASSAGEM | ||||||||||||
| UM
NOVO TEMPO, APESAR DOS PERIGOS O IMPÉRIO DA NÃO-AUTORIDADE MOVIMENTOS SOCIAIS, AS ONGs E A MILTÂNCIA QUE PENSA, LOGO EXISTE SOCIEDADE CIVIL, MOVIMENTO SOCIAL E COMUNIDADE: aplicações conceituais e políticas para a Lei de Cabodifusão COMUNICAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO: a perspectiva das agências de cooperação internacional |
DEMOCRATIZAR
A COMUNICAÇÃO PARA A DEMOCRATIZAÇÃO DA SOCIEDADE: um desafio, um mito UM MITO DE CONCRETO: pistas para um movimento pela democratização da comunicação UMA IDÉIA NA CÂMERA, DUAS MÃOS NA CABEÇA: propostas e desafios das experiências de vídeo no movimento popular MUITO ALÉM DA OBJETIVIDADE DA MECÂNICA À DINÂMICA: um passeio pelas teorias da comunicação |
|||||||||||