DO MASSIVO AO LOCAL: A PERSPECTIVA DOS GRUPOS DE MÍDIA
por Eula Dantas Taveira Cabral (*) e Adilson Vaz Cabral Filho (**)
RESUMO
Neste
trabalho, analisam-se as transformações ocorridas na mídia,
principalmente, nos últimos 11 anos e o fenômeno dos grupos
midiáticos nos contextos global e regional. Leva-se em consideração
as mudanças na economia política que resultaram em quatro
tendências: concentração; diversificação;
globalização e desregulamentação. Além
disso, o avanço das novas tecnologias e a interconexão com
as mídias existentes. Trata-se de um estudo descritivo, levando-se
em conta o levantamento bibliográfico em obras, revistas, jornais
e documentos, resultando nas seguintes conclusões: é possível
detectar e entender a importância e as transformações
que vêm ocorrendo na mídia; a globalização
proporcionou a volta do olhar para o local, revalorizando os grupos regionais;
as estruturas dos grupos regionais na América Latina possibilitaram
que as informações sejam tratadas regionalmente e localmente,
bem como as experiências de convergência no âmbito da
Internet e da TV por assinatura também contribuíram para
uma melhor relação com nichos específicos por parte
dos grupos de mídia.
Palavras-chave:
Políticas de comunicação; comunicação
de massa; grupos de mídia.
Os meios de comunicação, nos últimos anos, sofreram
várias transformações no que tange à produção
e a distribuição de conteúdo, mas principalmente
focando abrangências diferenciadas de público. A limitação
tecnológica, principalmente, não permitia que seu poderio
fosse tão forte quanto hoje. Porém, com o desenvolvimento
das novas tecnologias e com as mudanças na economia e na política,
atualmente, percebe-se que representam muito mais que o quarto poder.
O processo de globalização, sustentado econômica e
politicamente na maioria dos países, quebrou muitas barreiras.
A economia, a cultura, as preferências tomaram um novo rumo em busca
de homogeneização. Mas, ao mesmo tempo em que os limites
se tornam quase inexistentes, surge a necessidade da busca do local. De
acordo com Mario Gutiérrez Olórtegui (1996, p.34), essa
busca é uma necessidade criada pelo global, resultando do mesmo
processo, pois um não se realiza sem o outro.
Creemos finalmente que estas interrelaciones entre lo local-regional-global
permiten entender las formas de un mercado informativo que, fabricando
un imaginario desterritorializado de la realidad global, hace evidente
su necesidad de exportar al mismo tiempo imágenes territorializadas
y reivindicadoras de la realidad local, aunque ambas se presentan descontextualizadas,
desencajadas y estandarizadas para facilitar su integración con
otras imágenes del mundo.
A
busca de novos e diversificados públicos justifica-se numa tendência
que implica em aspectos culturais (o inter-relacionamento entre os povos,
mediados por um sistema de comunicação globalizado), políticos
(a afirmação da convivência entre os povos e o estabelecimento
de trocas dos mais diferentes níveis) e também econômicos
(o acesso mais imediato às tecnologias de comunicação
e a adoção de novos mercados, visando a circulação
de bens de consumo entre os grupos de mídia).
Para o presidente da Associação Brasileira de Fornecedores
da TV por Assinatura (Abraforte), Walter Longo, a globalização
alinha os veículos de comunicação de massa e, ao
mesmo tempo, multiplica os menores, como os comunitários, valorizando
o local.
Quem mora hoje em condomínio fechado está menos preocupado
com o que acontece em Mato Grosso ou no mundo do que no próprio
condomínio, onde existe uma TV comunitária que fala dos
problemas da vizinhança e da olimpíada interna da qual seu
filho participa; há uma simultaneidade de pensar no universal e
na rua. (Walter Longo, Internacionalização da Mídia,
Anuário de Mídia 98/99, p. A28).
De
acordo com Teresa Teixeira (1999, p.29), “uma emissora local possibilita
ao grupo e região em que atua que se intercomuniquem e se auto-identifiquem.
Fornece informações coerentes e adequadas às suas
necessidades e interesses da comunidade. Estimula a formação
de consciências críticas e revaloriza a cultura local”. Ao
mesmo tempo, “há uma tendência também à criação
de redes regionais, vinculadas a poderes políticos locais, que
retransmitem as grandes redes nacionais e valorizam o jornalismo local
como uma forma de fortalecimento dos pólos de poder” (Festa e Santoro,
1991, p.186).
A regionalização passa, então, a ocupar um lugar
de destaque na mídia globalizada. No Brasil, por exemplo, o Anuário
de Mídia 98/99 - Norte/Nordeste/Centro-Oeste (p.11) constatou:
As análises pós-Plano Real vêm mostrando, cada vez
com mais força, que as várias regiões brasileiras
estão se desenvolvendo economicamente, evoluindo no perfil de compras,
investindo na mídia e atraindo diversos setores da produção
com oportunidades de negócio. Em alguns lugares mais timidamente,
em outros com mais entusiasmo, dependendo das injunções
econômicas, há um País gigantesco despertando para
o consumo.
Mas,
o processo de regionalização, de acordo com Regina Festa
e Luiz Santoro (1991, p.180), foi percebido no início dos anos
80 com as transformações ocorridas nos meios de comunicação.
No campo das comunicações, os anos 80 foram marcados pelo
maior avanço da história latino-americana. Assistimos a
um aumento singular do número de emissoras de televisão,
o lançamento de satélites domésticos, o enlace mundial
de satélite, a implantação e inserção
na rede mundial de transmissão de dados, a introdução
de TV a cabo, da TV por assinatura, a abertura de emissoras em UHF, a
formação de redes regionais de televisão (grifo nosso),
a introdução de parabólicas em todos os países,
e a entrada indiscriminada de equipamentos de telecomunicações
e de radiodifusão por intermédio das corporações
internacionais, com o beneplácito da maioria dos governos e apesar
das leis e protecionismos.
Assim,
o processo de regionalização, de acordo com Scarduelli (1996),
não é algo totalmente novo. No México surge com a
inauguração do centro regional de produção
de Oaxaca integrado à Rede de Televisão Cultural do país,
em 72. Na Colômbia com a Tele-Antioquia. Na Alemanha, as redes regionais
de TV e rádio começam a funcionar após a 2ª
Guerra Mundial. Na Inglaterra, a BBC tem uma política de incentivo
à produção local, exibindo todas as noites um noticiário
de meia hora. Na Espanha, existem 16 televisões locais na Catalunha
e as redes regionais TVE 1 e 2 que exibem produções dos
centros regionais. Na Itália, a RAI 3 exibe informações
para cada região. Já no Japão, o processo de concessão
de emissoras comerciais é em caráter regional, sendo que
as regionais têm melhores anunciantes e programas.
Assim, percebe-se nos vários contextos históricos, citados
acima, a valorização dos espaços regional e local
na formação das políticas estatais específicas
para o setor de comunicação e a percepção
de sua importância até mesmo na orientação
das iniciativas empresariais.
As
Transformações na Mídia
Conforme Thompson (1995), o surgimento e o desenvolvimento das indústrias
de mídia é um processo histórico que acompanhou o
aparecimento das sociedades modernas. As origens da comunicação
de massa são ligadas à imprensa de Gutenberg, quando foram
produzidas e distribuídas inúmeras cópias de textos
na Europa. Essa distribuição possibilitou o nascimento da
indústria do jornal que, nos séculos XIX e XX, cresceu e
se consolidou. Além disso, as atividades de coleta das notícias
passaram a ser internacionalizadas, graças ao aparecimento de agências
de notícias.
A difusão do rádio em larga escala aconteceu em 1920 nos
Estados Unidos. O impacto da exploração do meio televisivo
se deu após a 2ª Guerra Mundial, nos anos 40 e 50. Mas, o
crescimento da TV foi tão rápido, proporcionando um alto
lucro de publicidade, que outros meios ficaram um pouco de lado. O cinema
foi um deles.
A televisão passou a ganhar maior evidência em relação
aos outros meios de comunicação de massa (MCM). Porém,
mesmo sendo considerada um grande negócio, hoje tanto ela como
os demais veículos estão sofrendo o impacto das mudanças
que estão ocorrendo na economia, na política e no avanço
das tecnologias. A Internet em especial, cujo crescimento comparativo
é muito maior em relação aos outros meios de comunicação,
tanto em número de usuários, como de iniciativas no setor
da comunicação. As mudanças na economia política
resultaram em quatro tendências, de acordo com Thompson (1995):
a concentração, a diversificação, a globalização
e a desregulamentação.
A primeira delas, concentração, se refere ao fenômeno
em que as indústrias midiáticas passaram a ser concentradas
nas mãos de poucas corporações. Isso tanto no âmbito
regional quanto mundial. Caparelli (1982) analisa a concentração
das indústrias de informação sobre o ponto de vista
horizontal - quando a empresa tem vários empreendimentos dentro
de um mesmo tipo de produção; e diagonal - quando uma empresa
controla outros ramos industriais. Além disso, explica que:
Falamos em concentração horizontal de propriedade dos meios
de comunicação. Mas, à semelhança de outros
países da América Latina, existe também uma concentração
vertical de propriedade, sendo que a um mesmo proprietário pertencem,
além do canal de televisão, emissoras de rádio, jornais
e revistas. E mais ainda: alguns deles poderiam receber a classificação
de Arndt, que fala na concentração diagonal, que se aproximaria
do conglomerado: além dos negócios na comunicação,
participam também de grandes empreendimentos no setor primário,
secundário e terciário (1982, p.100).
Dênis
de Moraes (1998) explica também que a concentração
pode ser de propriedade cruzada, quando os conglomerados possuem diferentes
meios de comunicação e monopólio em cruz, quando
a reprodução das mensagens é emitida pelos diversos
veículos em níveis local e regional. Moraes explica que,
no caso brasileiro, os dispositivos legais não são cumpridos.
Essa observação também foi feita por Anamaria Fadul
que chama a atenção para o grande poder de concentração
dos grupos descumprindo o parágrafo 5º do artigo 220 da atual
Constituição que proíbe o monopólio e oligopólio
e o Código Brasileiro de Telecomunicações (1962)
que determina que o grupo ou pessoa não pode ter participação
em mais de 10 emissoras de TV no país, sendo cinco, no máximo,
em VHF.
Uma das principais características dos grupos brasileiros é
sua dimensão multimídia e o grande poder de concentração.
Esse fato é resultante da não existência na legislação
brasileira de formas que impeçam a concentração e
a propriedade cruzada dos grupos de mídia. A Constituição
de 1988 simplesmente condena os monopólios, mas sem apresentar
instrumentos de uma ação efetiva nessa área (1998b,
p.83).
A
segunda tendência é a diversificação. “Processo
pelo qual as companhias expandem suas atividades para diferentes campos
ou linhas de produção, tanto adquirindo companhias que já
operam nesses campos, como investindo capital em novos desenvolvimentos”
(Thompson, 1995, p.257).
De acordo com Thompson, graças às duas primeiras tendências
foram formados conglomerados de comunicação. “A concentração
e diversificação das indústrias da mídia levou
à formação de conglomerados de comunicação
que possuem grandes interesses numa variedade de indústrias ligadas
à informação e comunicação” (1995,
p.258). Para Gisela Taschner (1992), o conglomerado é um conjunto
de empresas que atua em diversos campos, podendo seu crescimento ser interno
ou externo, ou então, dependendo do caso, nas duas direções.
Com as mudanças ocorridas na mídia, de acordo com Dênis
de Moraes, os conglomerados tomaram como parâmetros a produtividade,
competitividade, lucratividade e racionalidade gerencial.
Para tanto, buscam conferir escala a seus produtos, por intermédio
de alianças e parcerias entre si con os grupos regionais; absorvem
firmas menores ou concorrentes, diversificam investimentos em áreas
conexas. O resultado não poderia ser outro: uma brutal concentração
de atividades nas mãos de poucas companhias (quase todas baseadas
nos Estados Unidos da América) e uma aglomeração
de patrimônios e ativos sem precedentes. Nem a Internet – por concepção,
refratária a comandos e hierarquias – escapa dos tentáculos
lançados pelas superempresas, ávidas por comércio
eletrônico e serviços on line, engenhosas soluções
propiciadas pelo caráter descentralizado e multipontual da rede
(1998, p.11).
Na
visão de Thompson (1995), a terceira tendência é a
globalização com a transnacionalização (facilitada
pelo desenvolvimento das tecnologias), exportação e produção
de bens da mídia para o mercado internacional. Assim, o que parecia
distante tornou-se perto. Isso pode ser percebido na facilidade oferecida,
por exemplo, por uma TV a cabo ou via satélite que transmite programas
nacionais e estrangeiros, seduzindo só no Brasil, conforme o Anuário
de Mídia 98/99, 2,5 milhões de assinantes da TV fechada,
sendo que hoje, verifica-se que está em crise, como é o
caso da Globo Cabo. Além disso, já é possível
ler revistas e jornais estrangeiros em português, graças
ao contrato de vários veículos com as proprietárias
das edições.
Bem que, para Thompson (1998), a globalização da comunicação
tem sua origem no século XIX, quando o fluxo internacional de informação
assumiu uma forma organizada.
Foi somente no século XIX, porém, que as redes de comunicação
foram organizadas sistematicamente em escala global. Foi no século
XIX, portanto, que a globalização se firmou. Isto se deveu
em parte ao desenvolvimento de novas tecnologias destinadas a dissociar
a comunicação do transporte físico das mensagens.
Mas foi também ligado diretamente a considerações
econômicas, políticas e militares (1998, p.137).
Apesar
da globalização da comunicação ter surgido
no século XIX, torna-se, de acordo com Thompson (1998), um fenômeno
típico do século XX, pois os conglomerados passam a atuar
em grande escala, as novas tecnologias desenvolvem-se bruscamente, os
produtos da mídia passam a circular num mercado internacional tendo
diversas reações na captação do material transmitido
pelas redes globais.
A globalização da comunicação no século
XX é um processo dirigido principalmente por atividades de conglomerados
de comunicação em grande escala. (...) Conglomerados de
comunicação expandiram suas operações para
outras regiões fora de seus países originais; e parte dos
interesses financeiros e industriais, dentro de explícitas políticas
globais de expansão e diversificação, foi canalizado
para a aquisição substancial de ações nos
setores de informação e de comunicação. Através
de fusões, compras ou outras formas de crescimento corporativo,
os grandes conglomerados assumiram uma presença sempre maior na
arena global do comércio de informação e comunicação
(1998, p.143 e 144).
Já
a quarta tendência, segundo Thompson (1995), é a desregulamentação,
onde a legislação dos meios de comunicação
foi suspensa em vários países para facilitar o desenvolvimento
da mídia e atender os interesses de seus empresários. De
acordo com Dênis de Moraes (1998), com a desregulamentação,
os países passaram a ser vistos pelos grupos de mídia como
lugares sem fronteiras, possibilitando o crescimento dos conglomerados
na América Latina.
Coincidindo com o início da desregulamentação e da
desestatização, as novas tecnologias impulsionaram o crescimento
das comunicações na América Latina, particularmente
entre 1987 e 1991. Os impactos sucederam-se, em gradações
diversas, de país para país: aumento considerável
do número de emissoras de televisão; lançamentos
de satélites domésticos; disseminação das
antenas parabólicas; funcionamento de emissoras de TV em UHF; implantação
e inserção nas redes mundiais de transmissão de dados;
introdução da televisão por assinatura (a cabo, por
satélite e microondas); formação de redes regionais
de TV; e importação de equipamentos de telecomunicações
e de radiodifusão. O barateamento do uso de satélites e
o aumento de demanda por parte das cadeias de TV alargaram o mercado para
os centros de produção norte-americanos (...). (1998, p.65).
Especificamente
sobre o Brasil, Fadul ressalta:
Como o sistema de rádiodifusão no país é um
sistema basicamente comercial a desregulamentação que surgiu
na década de 90 não vai ter nenhum impacto nessa área,
mas somente na área de informática e de telecomunicações.
Devido ao crescente processo de convergência das áreas de
TV por assinatura, informática e telecomunicações,
esse fato vai ter uma grande repercussão na mídia, pois
os maiores grupos nacionais vão entrar nessas duas áreas
(1998b, p.84).
Com
essas mudanças e tendências, a mídia passou a ocupar
um lugar decisivo na sociedade capitalista mundial. De acordo com Dênis
de Moraes (1997, p.14), “a informação tornou-se fonte alimentadora
das engrenagens indispensáveis à hegemonia do capital, isto
é, o lubrificante dos ciclos de troca e de lucro, nesse sentido
a mercadoria mais importante”. Assim, os empresários da mídia
passaram a dominar diversos setores comerciais.
No ranking mundial, publicado na revista Variety (24-30 de agosto de 98),
50 empresas controlam a mídia mundial, além de possuir outros
negócios. No Brasil, o grupo das Organizações Globo
é a 12ª no ranking. Ben Bagdikian (1993, p.282) chama a atenção
para o poder dos grupos no planeta.
Os impérios mundiais estão aí. Seu controle sobre
a mídia de massa global expande-se quase que semanalmente. Seus
nomes aparecem nas manchetes como se fossem atrizes numa competição
financeira a que, atualmente, apenas gigantescas organizações
corporativas têm acesso, apoiadas que são pelos maiores bancos
multinacionais e por regimes nacionais politicamente convenientes. Sozinhas,
já comandam audiências internacionais maiores que as de qualquer
outro líder político da história. Além disso,
dispõem, geralmente, de sistemas unificados e de diversos meios
para atingir suas audiências, alguns provenientes da imprensa escrita,
alguns da televisão, transmitida via satélite, e alguns,
ainda, por meio de instrumentos portáteis como gravações
e fitas de vídeo.
Dentre
os barões da mídia da América Latina mostrados na
revista América Economia nº135, Roberto Marinho é considerado
o rei da multimídia do Brasil. A Gazeta Mercantil Latino-Americana,
de 3 a 9 de agosto de 1998, registrou a receita da Globo em 5,6 bilhões
de dólares. Lucro: 316 milhões de dólares e o patrimônio
de 1,4 bilhão de dólares.
E, como a Globo tem um lugar de destaque no cenário brasileiro,
suas afiliadas acabam ocupando evidência, principalmente porque
seus proprietários têm outros empreendimentos formando grupos
regionais de comunicação. Só que as redes regionais
não têm tanto poder quanto as nacionais. Uma das diferenças
destacadas por Caparelli é a falta de autonomia.
[...] as Redes Regionais não possuem autonomia em termos de programação.
Isso não quer dizer que não tenham programas produzidos
pela respectiva emissora-líder. Na verdade, o que ocorre é
que tais redes dependem basicamente dos programas gerados pelas redes
nacionais, que transmitem em cadeia ou retransmitem posteriormente (1982,
p.94).
Apesar
do pouco poder detido pelos grupos regionais nacionalmente, seu domínio
alcança as regiões brasileiras tornando-os de vital importância
para as comunidades. Essa realidade foi detectada pela Rede Globo que
percebeu que o público está mais preocupado com os acontecimentos
locais do que com os mundiais.
Em 98, de acordo com a revista Meio e Mensagem nº 829, a Rede Globo
investiu nas afiliadas no interior de São Paulo e Minas Gerais,
aumentando o espaço para a programação local. Houve
investimentos na infra-estrutura dos departamentos de jornalismo e comercial
para que as emissoras ficassem mais locais. Tudo começou em abril
de 1995. As primeiras mudanças puderam ser percebidas no espaço
local do jornal SP Um em Bauru, São José dos Campos, São
José do Rio Preto e Sorocaba que era gerado da capital. Hoje, apenas
o primeiro bloco. Os demais são locais. Neste ano, a Globo mexeu
também em sua programação criando programas que atingissem
as pessoas das mais diversas regiões.
Fizemos o Globo Comunitário, que é um jornalismo voltado
para os assuntos das populações locais; fizemos o Primeira
Edição, espaço novo na programação,
com meia hora de jornalismo local; estendemos o Bom Dia para todas as
praças. Criamos também novos espaços para o jornalismo,
como aconteceu, por exemplo, por ocasião das enchentes em São
Paulo, quando o Boni nos autorizou a suspender alguns programas da linha
normal da Globo para a entrada da cobertura. Então fizemos um Globo
Repórter para o Brasil inteiro e um específico para São
Paulo, sobre as enchentes, isso num prazo de 14 horas. Tiramos do ar a
Escolinha do Professor Raimundo e substituímos aquele espaço
por jornalismo (Alberico Cruz, Imprensa nº92, p.98).
Assim,
os grandes empresários da mídia descobriram que o grande
filão é o grupo regional. Os que já tinham suas redes
criadas e o público definido, investiram em TV por assinatura,
como fez a Rede Brasil Sul (RBS) no dia 15 de maio de 1995 com o lançamento
da TVCOM, em Porto Alegre, considerada por Nelson Hoineff (1996, p.98)
a primeira experiência no Brasil de uma TV comunitária paga.
O projeto da TVCOM foi baseado nas experiências de TVs comunitárias
de sucesso como a City TV, no Canadá, que foi criada por Moses
Znamier com objetivo de cobrir exclusivamente o noticiário. Para
o criador, o sucesso constatado em mais de 20 anos prova que a televisão
local supera uma rede nacional.
A RBS, em 97, era considerada a maior rede regional do Brasil com faturamento
de US$130 milhões. “A emissora orgulha-se por utilizar todos os
espaços locais disponibilizados pela Rede Globo, o que representa
entre 15% e 16% da programação” (Sirotsky, s.d, p.20). De
acordo com Nelson Sirotsky, através da geração de
programas locais por cada uma das emissoras da Rede, a RBS permitiu que
a comunidade fosse ouvida.
Uma das características mais marcantes do grupo RBS é a
atuação comunitária que vem tendo desde suas origens.
Ela está presente em inúmeras campanhas desenvolvidas pelas
televisões, rádios e jornais do grupo, e que se destinam
a encontrar soluções para os mais variados problemas vividos
pelas comunidades em que atua (s.d, p.31).
Em
relação ao mercado, Nelson Sirotsky afirma que a regionalização
transforma pequenas fatias em grandes bolos. “A regionalização
da RBS é não apenas um dos pilares de seu sucesso, mas também
foi a alavanca que proporcionou o desenvolvimento do mercado publicitário
no interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina” (s.d, p.29). Assim,
as emissoras da RBS TV, servem como
baliza para o crescimento de redes de varejo do interior dos dois Estados
em que atuam. Várias redes optaram por criar novas unidades em
cidades que se encontrem dentro da área de cobertura de uma mesma
emissora da RBS – o que maximiza a penetração junto ao público
e faz com que se obtenha uma melhor relação custo-benefício
(s.d, p.32).
O
grande trunfo das emissoras regionais, de acordo com as pesquisas da revista
Meio e Mensagem, foi o investimento comercial dos anunciantes nas regiões.
Os mercados regionais passaram a ter peso importante na estratégia
das empresas. Grupos regionais estão investindo em sinais via satélite
para melhorar a qualidade da transmissão. A regionalização
também desenvolve oportunidades de negócio muito interessantes
(...) (Nº 830, 1998, p.52).
Para
o superintendente comercial da Rede Globo de Televisão, Octávio
Florisbal, “além de melhorar a cobertura regional, com o jornalismo
local, por exemplo, a regionalização também desenvolve
oportunidades de negócio muito interessantes. Pode-se gerar de
US$2 milhões a US$3 milhões em mercados locais com pequenos
anunciantes” (Pereira, 1998, p.52). Assim, a revista Meio e Mensagem constatou
que os investimentos regionais aumentaram tanto que na Bahia, por exemplo,
as verbas governamentais representam pouco diante dos feitos por particulares.
Percebe-se, portanto, que tão importante quanto a descoberta de
novos públicos e novas temáticas, a prospecção
de novos mercados é determinante no contexto da regionalização
da produção midiática no Brasil. A pertinência
na fidelidade apresentada ao caráter local da programação
apresenta-se nos aspectos temáticos, nos assuntos abordados e,
de certa forma, num discreto incentivo à participação
dos profissionais de comunicação no âmbito local.
Em relação à TV aberta, de acordo com Rogério
Bazi, empresários num seminário promovido pelas revistas
Tela Viva e Pay TV, em 1997, afirmaram que ela só sobreviverá
se for regional. Isso também foi confirmado no 1º Seminário
Tela Viva/Converge, 1998, sobre o “Timing da regionalização
das TVs brasileiras”.
E, como enfatiza o estudioso Francisco Assis Fernandes:
Hoje a tendência à regionalização da mídia
se configura como uma aspiração do povo. O conteúdo
da programação quanto mais regional será, mais representativo
do anseio da comunidade, gerando novos conhecimentos e resgatando hábitos
e costumes. A “massificação da cultura” trouxe o perigo
da sua própria descaracterização. Hoje, mais do que
nunca, a mídia regional tem a função e a responsabilidade
de consolidá-la (Fernandes, 1998, p.20).
Afinal,
como ressalta Villamizar D.,
En la práctica la tarea consiste en conducir unos medios que se
parezcan a nuestra gente. Esto es, que se manejen muy cerca de sus inquietudes,
anhelos, sufrimientos y alegrías. Esta exigencia implica abandonar
los patrones programáticos de los grandes circuitos y programadoras,
los cuales reproducen en lo nacional las intenciones homogeneizantes de
los grandes trust comunicacionales. En otras palabras, la programación
de nuestras estaciones de radio y televisión debe asentarse sobre
las producciones propias y utilizar los enlaces o los llamados “enlatados”
para lograr la necesaria conexión con lo global, con la dinámica
universal (Villamizar D., 1996, p.29).
As Novas Tecnologias e as Tendências da Mídia
A Internet aparece como palco privilegiado da inevitável e irreversível
tendência de visibilidade do público e da busca de um sistema
de comunicação que a contemple. Esta foi uma das características
determinantes da transformação das tecnologias de transmissão
implementadas pelos grupos de mídia nos últimos anos. Entretanto,
nem sempre essa percepção foi tão afinada.
Percebe-se num primeiro momento, tal como quando do desenvolvimento das
tecnologias do controle remoto e do videocassete, um certo boicote dos
meios de comunicação massivos em relação à
Internet. Segundo Pierre Lévy,
A televisão e a grande imprensa há muito apresentam o ciberespaço
fazendo chamadas sobre sua infiltração pelo serviço
secreto e a máfia, amotinando o público contra as redes
de pornografia pedófila que ele abriga, sobre os estímulos
ao terrorismo ou ao nazismo encontrados neste ou naquele site da Web,
sem esquecer de fantasiar sobre o cibersexo (Lévy P., 1999, p.202).
A
percepção de que a Internet poderia ser aproveitada a favor
dos grupos de mídia surgiu com o próprio desenvolvimento
da Internet comercial. Diante da pulverização de opções
de fontes de informação, as grandes redes de comunicação
acabaram por se render à importância da mídia Internet,
de características tão diferentes quanto estranhas à
lógica de produção comunicacional no ambiente analógico.
A ameaça concreta ao poderio das mídias tradicionais foi
percebida no impacto da queda de audiência. Wilson Dizard Júnior
aponta os anos 90 como “uma década problemática para as
três grandes redes de televisão – NBC, ABC e CBS (2000, p.
19)”, na qual registraram uma audiência combinada de menos de 50%.
Esse dado apontava para o aparecimento em larga escala das experiências
de operadoras e programadoras de TV a Cabo locais, como também
ao modelo de acesso público adotado pela legislação
americana no setor, que pulveriza por baixo a penetração
das grandes redes.
A mídia tradicional começa a perceber a necessidade de investir
em produções e públicos regionalizados, na mesma
medida que começa a se deparar com um meio dotado de um diferente
suporte, implicando numa forma diferenciada de produção
e transmissão, bem como de participação e integração
do público. Compreender o suporte da Internet e sua lógica
comunicacional passa a ser um componente determinante no desenvolvimento
de estratégias das empresas de mídia, até mesmo porque,
ainda conforme Pierre Lévy, “não se pode compreender ou
apreciar o que se desenrola no ciberespaço a não ser pela
participação ativa” (1999, p. 203). Os grupos de mídia
analógicos demoram, mas incorporam tal perspectiva diante da própria
necessidade de continuidade de seus negócios.
Surgem algumas iniciativas tais como os portais de alguns jornais impressos
tradicionais como o The Wall Street Journal e o New York Times. Primeiro
como versões online de suas publicações impressas,
mais tarde desenvolvendo conteúdo próprio e incorporando
novos serviços, principalmente no entendimento de que a Internet,
além de ser uma mídia eficiente, também pode ser
entendida como um gigantesco banco de dados, servindo como base para a
criação e o desenvolvimento de agências de notícias.
A primeira iniciativa brasileira no meio impresso foi o site do Jornal
do Brasil, o JB Online (http://www.jb.com.br), tido como iniciativa embrionária
do grupo deixada a cargo dos ‘entendidos do ramo’, os internautas. Atualmente
o JB Online recebeu um novo projeto gráfico, descaracterizando-o
totalmente da edição impressa ao abusar de cores e animações,
ingredientes mais adequados à Grande Rede. Este episódio
mostra como a Internet passa a ter credibilidade, integrando aos poucos
seu devido lugar nos planos dos grupos de mídia.
Entretanto, alguns desafios se colocaram para o desenvolvimento de tais
iniciativas. Um dos principais foi mensurar o retorno nos investimentos
em presença e conteúdo na Internet, principalmente diante
de uma mídia ainda não massiva. Tal dilema gera um impasse
no meio empresarial, basicamente tensionado entre o pioneirismo e a cautela.
De acordo com Dizard, “a sobrevivência vai depender da habilidade
de arquitetar estratégias práticas para produção
e comercialização de novos serviços de alta tecnologia
via Internet, bem como através dos atuais canais de distribuição”
(2000, p. 47).
Um dos aspectos tão elementares quanto controverso é a cobrança
pelas informações disponibilizadas, iniciativas nesse sentido
oscilam constantemente diante da migração dos usuários
para a concorrência ou mesmo o desbloqueio ao acesso gratuito ao
conteúdo disponibilizado.
Uma concorrência fundamental nesse cenário é o das
iniciativas originadas a partir do próprio meio digital, sejam
veículos de comunicação online (InvestShop – http://www.investshop.com.br/
- portal de serviços e notícias econômicas), portais
de conteúdo ou mesmo serviços de notícias (Último
Segundo – http://www.ultimosegundo.com.br/ - do megaportal IG; Baguete
Diário – http://www.baguete.com.br/ - portal de notícias
originário da Web). À tradição dos veículos
de comunicação analógicos introduz-se um maior investimento
em pesquisa e desenvolvimento de formatos visando a maior aceitação
dos usuários e a viabilidade de mercado.
Inevitável é a tendência de incorporar negócios
tanto no meio analógico, quanto no digital, pensando e preparando
a incorporação de tecnologias mais convergentes, num cenário
de acesso amplo à Internet de alta velocidade, em tempo real e
qualidade de vídeo digital, proporcionando aí sim mais vantagens
às empresas de mídia, chegando ao mesmo tempo de sua maior
experiência, tanto nas pesquisas que revelam um melhor entendimento
dos novos cenários e desafios, quanto nos erros e desvios de percalço
cometidos ao longo do caminho.
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(*) - Jornalista, Professora e Pesquisadora Universitária, Educadora
Religiosa, Mestre e doutoranda em Comunicação Social pela
Universidade Metodista de São Paulo.
(**) - Publicitário, Professor e Coordenador de Multimídia
da Universidade Estácio de Sá, Pesquisador, Mestre e doutorando
em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São
Paulo.