INFORMÁTICA E COMUNICAÇÃO PARA UMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA
uma abordagem sobre organizações, propostas e ideologias
no cenário brasileiro
RESUMO
A proposta desse artigo é analisar a atualização
do conceito de democracia aplicado ao contexto da informática e
da comunicação, mediante leitura comparativa da atuação
de duas organizações sociais significativas no contexto
brasileiro: o “Comitê para Democratização da Informática”
(CDI), que, a partir de um trabalho nuclear em comunidades do Rio de Janeiro,
desenvolve as chamadas Escolas de Informática e Cidadania (EICs)
em 17 estados brasileiros e três países e o “Fórum
Nacional pela Democratização da Comunicação”
(FNDC), formado pela articulação de pessoas, grupos e organizações,
em torno de várias frentes de luta no campo da comunicação
no Brasil, que chegou a contar com 44 Comitês regionais e Comissões
pró-Comitês, além de 32 entidades nacionais.
Pretendemos refletir nesse artigo a assimilação dos ideais
democráticos na atuação destas organizações
a partir dos discursos institucionais que refletem suas concepções,
projetos e realizações, seu alcance e eficiência junto
aos diferentes públicos, visando tornar essas temáticas
cada vez mais visíveis junto ao público em geral.
Palavras-chave: Comunicação – Cidadania – Movimentos sociais
VARIANTES
DO MESMO TEMA
Não
bastassem as evidências proporcionadas pelas recentes transformações
no contexto econômico e político, a implementação
e o controle das novas tecnologias de informação e comunicação,
numa perspectiva cada vez mais integrada, nos levam a pensar sua devida
importância no contexto sócio-cultural, enquanto ferramentas
de apoio e ambientes de produção de sentido e construção
de identidades entre povos, pessoas, grupos e organizações.
Tais mudanças, nas palavras de Regina Festa, apontam para “um outro
estado de consciência informacional, emergindo ao nível planetário”
.
Podemos afirmar, num sentido mais amplo e global, que a democratização
da informática e da comunicação são fundamentais
para a democratização da sociedade. O aspecto democratizante
da informática reside no acesso e na socialização
de informações, compartilhadas a partir de diversos ambientes
comunicacionais – a Internet entre eles - e o acesso ao seu próprio
suporte (softwares de código aberto / interfaces amigáveis
entre usuários e computadores). A necessidade de uma melhor comunicação
se percebe nas reivindicações de organizações
sociais sobre as mais variadas temáticas, entretanto, essa demanda
latente, não se traduz numa demanda patente, isto é, não
é devidamente abraçada na definição de políticas
públicas sobre o tema.
Sintomática nesse sentido é a composição do
Fórum Terra, Trabalho e Cidadania, formado por partidos e sindicatos
de esquerda, organizações não-governamentais, movimentos
sociais (MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, OAB – Ordem
dos Advogados do Brasil, ABI – Associação Brasileira de
Imprensa, CMP – Central dos Movimentos Populares), dentre outros. Numa
lista representativa de mais de 40 entidades, não se encontra o
nome do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação.
Se o entendimento da comunicação como outro eixo central
- além dos três manifestados - pode ser tomado como exagero,
perceber sua importância, dando a devida visibilidade a essa temática
em estratégias e ações, é determinante para
otimizar a participação das organizações nessas
frentes de luta.
Podemos observar, em decorrência desta realidade, outro aspecto
em comum nessas duas áreas: tanto a informática, quanto
a comunicação apresentam, em sua constituição,
as características de atividade-meio e de atividade-fim. Isto é,
tanto servem de base para o estabelecimento de relações
a partir dos mais variados temas, quanto também comportam uma série
de demandas específicas, implicando em estratégias e ações
apropriadas.
Pautado nessas concepções, este artigo pretende investigar
e evidenciar a concepção de democracia aplicada ao contexto
da informática e da comunicação, traduzida nas atuações
de duas organizações sociais significativas no debate sobre
tais temáticas no Brasil:
- o Comitê para Democratização da Informática
(CDI) que atua desde 1995, a partir de um trabalho nuclear em comunidades
do Rio de Janeiro, formando as chamadas Escolas de Informática
e Cidadania (EICs), encontra-se hoje com trabalhos em 17 estados brasileiros
e três países;
- o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
(FNDC), surgido em abril de 1991, a partir da atuação em
várias frentes de luta no campo da comunicação no
Brasil, que chegou a contar com 44 Comitês regionais e Comissões
pró-Comitês, além de 32 entidades nacionais.
Pretendemos refletir a assimilação dos ideais democráticos
na atuação destas organizações a partir de
documentos, reportagens e artigos que refletem seus projetos e realizações,
seu alcance e eficiência junto aos diferentes públicos e
os desdobramentos previstos visando tornar essas temáticas cada
vez mais visíveis junto ao público em geral.
INFORMÁTICA
E CIDADANIA: simplicidade e eficiência
O Comitê para Democratização da Informática
(CDI) é uma organização não-governamental,
sem fins lucrativos, que desenvolve programas educacionais e profissionalizantes
(Escolas de Informática e Cidadania - EICs), junto a comunidades
pobres, principalmente crianças e jovens.
Desde a concepção do projeto e sua implementação,
a inserção dos públicos beneficiados no mundo da
informática é proposta a partir do mundo do trabalho, seja
a partir de um conhecimento agregado às capacidades técnicas
e intelectuais dos alunos, seja encaminhando-os para estágios em
empresas conveniadas ou mesmo visando ao desenvolvimento de projetos de
geração de renda.
Através de parcerias com organizações comunitárias
e com o apoio de diversas empresas, O CDI já conta com cerca de
217 escolas em 32 cidades de 17 estados do Brasil, registrando mais de
60 mil estudantes. O CDI fornece a estas escolas o auxílio técnico,
o treinamento de professores e o desenvolvimento do programa de estudos
(metodologia), além de fornecer software e equipamentos de informática
arrecadados através de campanhas de doação.
Além de desenvolver o trabalho pioneiro de levar a informática
às populações menos favorecidas, o CDI promove a
cidadania, alfabetização, ecologia, saúde, direitos
humanos e não-violência, através da tecnologia de
informação. Dessa forma, não trata a informática
apenas como atividade-fim, mas também atividade-meio ao mostrar
seu benefício nos mais diferentes contextos e também promove
conexões entre diferentes áreas do conhecimento e de atuação
comunitária a partir da contribuição e do conhecimento
digital.
Em 1999, o CDI estabeleceu sua primeira filial internacional em Tóquio,
que arrecada computadores para serem enviados a países em desenvolvimento.
Em 2000 já foram criados mais três CDIs Internacionais, Uruguai,
Colômbia e México, segundo dados disponibilizados no site
http://www.cdi.org.br.
Se pudéssemos
eleger dois principais fatores de sucesso e eficiência na história
e na atuação do CDI, estes seriam a simplicidade, que sempre
pontuou a apresentação de suas propostas e atuações,
e o pioneirismo na reflexão e na ação a partir de
um tema tão presente, quanto determinante na sociedade contemporânea:
a inclusão digital dos excluídos sociais.
Democratizar a Informática para o CDI é, nada mais nada
menos, “levar a informática às populações
menos favorecidas”. Conscientes de sua importância e de seu pioneirismo,
o CDI foi conquistando adesões de pessoas ligadas às organizações
sociais, de profissionais de informática e, mais tarde, de organizações
acadêmicas e sociais que respaldaram a premência dessa atividade.
No desenvolvimento de sua proposta, o CDI evidencia a aliança entre
informática e cidadania no estabelecimento das EICs, levantando
as diversas temáticas já apresentadas, tendo como base o
ambiente tecnológico. Entretanto, não introduz no cotidiano
das ações das EICs um debate mais expressivo sobre a democratização
da informática do ponto de vista das políticas públicas
e leis de incentivo. A democratização do acesso passa por
uma série de acordos, relacionados estes à doação
de micros usados por parte de empresas e pessoas físicas, não
pelo debate público – necessário, porém complexo
– das questões que envolvem a indústria da informática
no país: preço de equipamentos e softwares (em decorrência,
políticas de incentivo aos programas gratuitos e de código
aberto), produção (competências cognitivas e espaços
de interlocução a partir do suporte digital e desse imenso
ambiente comunicacional chamado Internet), infra-estrutura etc.
O estabelecimento de uma proposta tão prática, quanto eficiente
e tão efetiva e precocemente necessária, quanto pioneira,
foi uma decorrência natural para a visibilidade às ações
e sensibilizar voluntários e financiadores em potencial, contabilizando
os louros do sucesso e semeando essa visão possível de uma
informática plenamente democrática, sonho de seu mentor,
Rodrigo Baggio.
Bons
e velhos Comitês
Tão cristalina e aplicável é a idéia de proporcionar
a inclusão digital a partir da disseminação de cursos
junto a comunidades carentes, que nem mesmo o fato de sua expansão
ter sido pensada a partir de Comitês locais e regionais – estratégia
tão antiga, quanto a primeira rebelião coletiva que se pensou
projetada – conseguiu abalar as adesões e simpatias do público
em geral, mesmo que não voluntários.
No embalo da Campanha contra a Fome, promovida pelo sociólogo Herbert
de Souza, o CDI introduziu - a partir de uma dinâmica exclusiva,
não integradora em relação a outras causas sociais
– a temática do amplo acesso à informática por parte
do público potencialmente excluído dessas tecnologias.
A disseminação das EICs é implementada a partir do
apoio na constituição de um Comitê Local – gestor
da Escola - e de um projeto pedagógico elaborado por pesquisadores
em Educação da UNICAMP. Para o CDI, o sucesso na implementação
de uma EIC está relacionado à existência de um grupo
organizado, responsável por contactar organizações
e organizar campanhas de mobilização – estes são
os Comitês Regionais ou Internacionais, contabilizados até
o momento em 32 CDIs Regionais e 4 Internacionais.
Para desenvolver as atribuições acima citadas, são
formados grupos de voluntários com determinadas aptidões:
experiência com comunidades e/ou organizações não-governamentais
para viabilizar as parcerias, conhecimento de software e hardware para
montar e instalar os computadores, uma pessoa com formação
pedagógica e noção avançada de informática
para ensinar os futuros instrutores das EICs e uma pessoa que possa articular
campanhas de arrecadação de equipamento e solicitar o apoio
de empresários, companhias e outras instituições.
Merece destaque o fato de que, em tempos de uma consolidação
cada vez maior das organizações sociais em projetos aplicáveis
dentro de uma lógica do mercado (determinantes do seu retorno,
de sua viabilidade, etc), a formação de Comitês Locais
surge como inibidora da figura da organização não-governamental
como intermediadora entre financiador e comunidade beneficiada, característica
fundamental daqueles que se pretendem ensinar a pescar.
A dimensão
institucional na organização dos Comitês
Na mesma moeda, a organização autônoma dos Comitês
Locais pode oferecer um caráter de institucionalidade às
atividades desenvolvidas nas comunidades, proporcionando a incorporação
das lógicas de mercado no seu próprio contexto. Os cada
vez mais populares projetos de geração de renda ou de capacitação
profissional, ao mesmo tempo em que oferecem uma possibilidade de integração
sócio-econômica, referenciam-se pela mesma dinâmica
capitalista de produção de renda.
Cabe, no contexto de um projeto de perspectivas mais amplas, estabelecer
as dimensões, os limites e as articulações necessárias,
visando a democratização da informática tanto no
âmbito sócio-cultural, como no político-econômico.
Investigar e buscar também as relações definidoras
de uma pauta mais abrangente que dê conta de inserir o CDI e seus
Comitês Locais no seio de um debate mais amplo, envolvendo outros
atores sociais com fins semelhantes.
DEMOCRATIZAR
A COMUNICAÇÃO: concretizando uma proposta abstrata
O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
(FNDC) foi criado em abril de 1991, fruto da necessidade de uma nova perspectiva
de atuação, motivado por uma articulação de
diversos movimentos sociais e organizações ressentidos de
visibilidade na mídia e cientes das demandas nas suas lutas específicas.
O FNDC se consolidou como movimento social, introduzindo uma nova temática
junto à sociedade civil, embora não tão bem assimilada
por seus próprios integrantes. A democratização da
comunicação era entendida como conquista fundamental para
a democratização da sociedade, traduzindo-se na atuação
simultânea em várias frentes de luta: a implantação
do Conselho de Comunicação Social, a disputa da regulamentação
da TV a Cabo e da elaboração de uma nova Lei de Imprensa
- que posteriormente, resultou no projeto da Lei da Informação
Democrática - e, também, um pouco mais tarde, a luta pela
reestruturação da Rede Manchete, além da Lei de Radiodifusão
Comunitária.
Esta multiplicidade de frentes foi sucessivamente adiando a elaboração
de uma proposta abrangente e sistemática para a área da
comunicação. A intensa atividade, sem dúvida, prejudicou
o avanço do debate teórico e político, mas produziu
um importante acúmulo de reflexões (HERZ, 1994). Traduziu-se
numa “rede de redes”, nos dizeres de Ilse Scherer-Warren, conceito aplicado
ao movimento de comunicação para definir o papel do FNDC
.
Uma década depois de seu surgimento, passada também a crescente
adesão, a euforia, e algumas conquistas (tais como as leis que
deram origem aos canais comunitários e universitários e
que, de uma certa forma, contribuíram para o engajamento de rádios
comunitárias dos mais diversos tipos em todo o país), podemos
observar com mais clareza que a atuação do FNDC entendia
a democratização da comunicação como o estabelecimento
de leis mais democráticas, como se o estabelecimento de parâmetros
legais fosse garantia de uma melhor articulação entre setores
sociais e palco para uma melhor distribuição e alcance das
informações.
Ao sublimar o debate sobre a política pública de caráter
mais cotidiano dos movimentos sociais e o amadurecimento sobre a linguagem
e a assimilação do sistema de comunicação
no Brasil por parte desses meios, promoveu-se o crescente distanciamento
das organizações que conferiam ao FNDC um caráter
mais amplo .
O Fórum, que como vimos, chegou a contar com a adesão de
44 Comitês Regionais e Comissões pró-Comitês,
além de 32 entidades nacionais. Estes números expressivos
não escondem os diversos problemas orgânicos e políticos
que dificultam suas ações. Principalmente se pensarmos a
idéia de democratização da comunicação
em sua dimensão prática e cotidiana: quais integrantes das
entidades participantes do FNDC participavam efetivamente de suas esferas
de decisão e articulação? Quantos participantes dessas
entidades associadas envolviam-se direta ou indiretamente com os debates
e ações implementados pelo FNDC?
Em virtude desse vácuo entre reflexões e ações,
entre formulação teórica e base de sustentação
para implementação de estratégias, é que o
FNDC chegou ao ano de 1994 com um grande acúmulo a respeito das
áreas de atuação desse complexo cenário, proporcionado
por uma possível democratização da comunicação,
embora não contasse com uma base de apoio suficientemente engajada
para levar à frente suas formulações.
A idéia de um movimento social formado por entidades representativas,
visando lutar pela democratização da comunicação
no Brasil não é só necessária no contexto
do próprio sistema de comunicação e da afirmação
do acesso e do controle público, bem como da produção
em larga escala. Também é determinante para cada entidade
participante do FNDC o entendimento do papel da comunicação
em suas próprias lutas específicas.
A contribuição das várias questões oriundas
da diversidade apontada como uma das grandes qualidades do FNDC deve ser
a força-motriz de um movimento que se pretenda promotor, estimulador,
incentivador da democratização da comunicação
no país. Assimilar, apreender e buscar perspectivas de superação
no âmbito dos mais variados impasses impostos aos movimentos sociais,
a partir da contribuição da comunicação como
prática e como área do conhecimento, possibilitará
a configuração de uma demanda patente, revertida em projetos
e ações visando o pleno engajamento dos movimentos nesse
debate de fundamental importância.
Algumas das várias atuações que orientam a formação
e a articulação de movimentos são as ligadas aos
bens de consumo coletivo, a questão da terra, as condições
gerais de vida, as desigualdades culturais, a questão trabalhista,
a defesa dos direitos humanos e de problemas específicos, tais
como os menores de rua, pais e alunos de escolas, etc . A simples observação
do discurso e das questões apresentadas por representantes de cada
um desses movimentos, nos elucidaria a referência constante à
comunicação, seja na produção de mensagens
confusas, equivocadas ou mesmo não pertinentes por parte da mídia,
seja pela incapacidade de se promover meios alternativos ou mesmo de dar
visibilidade às suas idéias e ideais em meios já
existentes.
Clarificar a idéia de que a temática da comunicação
está articulada intrinsecamente às várias lutas sociais
é um papel prioritário para um Fórum possível
que se proponha à ousadia de pensar uma comunicação
mais democrática num país como o Brasil, entendendo não
só a regulação, mas também a inclusão
das pessoas, grupos e organizações nos canais disponíveis.
Nesse sentido, o programa estratégico do FNDC, aprovado na Plenária
de Salvador em 1994, aponta a necessidade desse posicionamento: “Esta
luta requer mais capacidade de reflexão sobre a problemática
da comunicação e sobre a complexidade e grandiosidade das
iniciativas que podem e devem ser empreendidas, e deve superar a mobilização
para adesão a projetos prontos e acabados e a assimilação
acrítica de slogans grandiloqüentes” .
A democracia
é o limite (! / ?)
Apesar de todo esse debate em torno da configuração de um
modelo possível de democracia relacionada a duas áreas cruciais
para a participação - a consciência e o estímulo
à cidadania na sociedade - outro debate ainda se faz necessário,
principalmente para que não se percam referências e objetivos:
será que a democracia deve ser entendida como motivação
última de um movimento? A quem ela efetivamente interessa?
Palavra comum às duas organizações aqui estudadas,
a democracia não é absolutamente um consenso no campo das
ciências políticas e sociais. Não se trata aqui de
esboçar um tratado sobre o conceito, mas sim evidenciar algumas
definições relevantes no contexto dessa reflexão.
A participação pública nos meios de produção
sempre foi uma perspectiva insistentemente reivindicada por parte dos
vários movimentos, nas mais diferentes instâncias. A associação
entre participação e poder sempre foi vista como crucial
para o debate da própria concepção de democracia,
em seu sentido mais classicamente conhecido: um governo do povo, pelo
povo e para o povo.
No âmbito da comunicação, as diversas reivindicações
giram em torno da amplitude do acesso, da posse, do controle e da produção
por parte da população. Quatro temáticas com aspectos
diferentes, que implicavam em reflexões, propostas e ações
as mais diferenciadas. Relembrando a proposta e o entendimento do CDI,
democratizar a informática implica na ampliação do
conhecimento por parte da população a princípio excluída,
a partir do acesso e da produção já facilmente disponibilizados
pelo próprio suporte tecnológico. A dimensão mais
crítica do controle e o acesso a programas e equipamentos são
debatidos de forma embrionária, não determinante no interior
dos projetos.
O FNDC esgarçou o debate sobre a reflexão desses conceitos,
nos quais o poder-fazer foi sempre mais contemplado do que o como-fazer.
O debate sobre a linguagem e a comunicabilidade com o público foi
restrito às organizações implementadoras de projetos
comunitários: desafio sempre presente e motivação
de algumas iniciativas, em especial nos movimentos de rádios comunitárias
e nos canais comunitários de TV a Cabo, espalhados pelo país.
O paradigma da “comunicação para todos” foi colocado em
primeiro plano em relação ao da elaboração
de uma comunicação que contemple e seduza a todos. Tal concepção
se insere no entendimento e na defesa de uma concepção de
democracia que contempla a afirmação da massa a partir de
seu caráter essencialmente coletivo, omitindo suas variadas nuances
e aspectos individuais. Insere-se numa reflexão sobre a percepção
do surgimento das massas e seu impacto sobre a condição
democrática desenvolvida por Barbero, para quem “o princípio
moderno do poder legítimo acabará legitimando a maior das
tiranias” , onde a importância é dada unicamente à
quantidade de pessoas, mais do que à razão e à virtude
de uma dada questão.
A representatividade é colocada desta forma como um componente
indispensável para a apresentação e a afirmação
de propostas, sendo “um de seus princípios de legitimidade fundamentais”
. A dimensão de um movimento torna-se mais pertinente diante de
sua adesão, mesmo que não consciente, por parte das organizações
e grupos que se inserem num projeto maior. A idéia de um projeto
viabilizador da democracia na comunicação se assume de um
consenso que inibe a participação e a contemplação
de minorias e de visões que potencializassem a idéia de
um movimento mais plural.
Um debate como o da comunicação - tanto na organização
das forças reivindicadoras, quanto na visibilidade dos resultados
- é fruto do entendimento e do estímulo à plena participação,
à expansão das possibilidades de formação
de consciência crítica, que possibilitem o resgate cultural
e a valorização da auto-estima, inibindo a alienação
das várias culturas soterradas pela homogeneização
da cultura em âmbito global.
A manifestação das minorias num contexto mais amplo foi
contemplada na ótica anarquista, que via na democracia uma espécie
de ditadura das massas, pintando com cores mais fortes a afirmação
de Barbero. Malatesta nega a idéia de governo do povo, pois “isto
suporia o que não acontece jamais, a saber, a unanimidade das vontades
de todos os indivíduos que compõem o povo” .
Urge trazer a dimensão desta incômoda realidade, tal como
também buscar formas de organização e articulação
dos mais variados públicos e interesses estimulando e evidenciando
as mais variadas frentes de atuação. Necessário é
um movimento que afirme e contemple tal prática, uma forma de gestão
que a assimile (não o Estado) e uma força impulsionadora
de suas práticas (não o Mercado).
Uma outra
comunicação é possível, mas quem a fará
!?
Se pudéssemos tirar uma primeira comparação entre
o modelo do FNDC em relação ao do CDI, poderíamos
concluir que o do FNDC foi mais ousado conceitualmente, embora pecasse
por não se preocupar em incorporar o conjunto de seus participantes
no contexto de sua pauta de atuação. Por sua vez, tendo
o CDI uma atuação mais simples, não parte de uma
perspectiva mais abrangente de reflexão e ação para
“democratizar” a informática, embora conte com um “exército”
mais capacitado para tal.
Percebe-se também a dimensão democratizante dessas duas
áreas como palco para uma efetiva democratização
da sociedade. Com canais de comunicação mais acessíveis
e acessáveis, podemos contar com articulações mais
constantes e frutíferas, com produções mais freqüentes
e diversas e com mais e melhores esclarecimentos em torno dos conteúdos
disponibilizados, atributos determinantes da tão almejada formação
de consciência crítica.
A utilização da comunicação para os movimentos
sociais, sua formulação e desenvolvimento, contribui para
o desenvolvimento de macropolíticas alternativas, ou seja, da implementação
de pessoas, grupos e organizações articuladas em rede. Essa
proposta está no cerne da articulação de rádios
comunitárias e acompanha alguns segmentos de destaque, tais como
a Rede Mulher, a Rede PTA - de Tecnologia Alternativa em Agricultura,
a Rede Criança, etc .
Ao contrário do modelo de controle público, que pressupõe
composição de setores, as redes de macropolítica
alternativa se pretendem autônomas em sua origem, articulando-se
entre si e tendo consciência de sua própria identidade. Por
conseqüência, reconhecem Governo e Mercado não como
parceiros, mas como atores necessários no limite de suas atribuições
conjunturais. Articulam-se a partir da afinidade de projetos: afirmação
da mulher, agricultura alternativa, contra o trabalho infantil ... e suas
ações formam um modelo que serve de contribuição
para leis e novas adesões, bem como sua capacidade de resistência,
tanto política, quanto de continuidade, estará relacionada
ao caráter comum de compromisso ético, político e
social de seus participantes.
A Internet terá um papel inestimável nesse contexto de democratização,
de articulação entre os mais diversos povos, de diversificação
na produção e no acesso aos vários conteúdos.
Segundo Regina Festa , a Internet representa a “imagem-símbolo
de um mundo em descontrole”, sendo a única revolução
midiática realmente imprevista dos anos 90 e incontrolável
para todos.
Tanto o Comitê pela Democratização da Informática,
em plena e crescente atividade, quanto o Fórum Nacional pela Democratização
da Comunicação, em plena e constante reconstrução,
têm, no tocante à Internet, um ambiente pleno de construções
de identidades, produções de sentido, palco para debates,
definições, implementações e vivências
de mútua compreensão.
Mas, mais do que isso, a Internet como ambiente comunicacional pode representar
para ambos uma metáfora plausível para suas utopias possíveis:
uma rede interligada não mais formada por emissores e receptores
de mensagens, mas sim tecida e interligada por agentes de comunicação,
transformadores de suas configurações a cada novo contexto
de circulação de mensagens em seu (ciber)espaço.
Democratizar a comunicação e a informática, nesse
sentido, terá o sabor de uma inserção coletiva, mas
não determinante, de cada indivíduo ou grupo numa perspectiva
global e talvez tais contextos, conceitos e pretensões sejam pensados
numa dimensão mais ampla.
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2000.
SOUZA, Márcio Vieira de. As vozes do silêncio: o movimento
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1996.
por
Adilson Cabral
Mestre e doutorando em Comunicação Social
pela Universidade Metodista do Estado de São Paulo.
Professor de Comunicação Social da
Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro.