A INTERNET QUE NOS PROTEGE
por Luana Negrelly Saraiva e Adilson Cabral

RESUMO
A partir de uma análise das relações interpessoais nos canais de chat, pretende-se mostrar a Internet como um espaço de proteção da mesma sociedade repressora que a criou, abrindo portas para o desenvolvimento e o resgate dos valores humanos.

ABSTRACT
Analyzing the interpersonal relations in the chat rooms, we intend to show Internet as a space of protection from the same repressive society that built it, opening doors to the development and the rescue of the human values.

PALAVRAS-CHAVE
Internet – sociedade - cibercultura

INTRODUÇÃO

As relações interpessoais através da Internet vêm se tornando cada vez mais complexas e frutos de conexões que refletem aspectos sócio-culturais de uma nova realidade que podemos caracterizar como mundo virtual, em contraposição, ou mesmo como prolongamento, de um possível e já familiar mundo real. Ao perceber a Internet como um novo e determinante meio de comunicação que está mudando as formas de relacionamento entre pessoas e grupos, pretendemos investigar nesse artigo até que ponto as relações interpessoais poderão mudar após o surgimento da Internet, pois várias pessoas em todo o mundo já estão online e muitos internautas passam a trocar momentos de sua vida social ‘real’ pela ‘virtual’.
O objetivo desta pesquisa é estudar alguns aspectos comportamentais da natureza do homem inserido na sociedade, as mudanças repressivas que a sociedade exerce sobre ele e como ele se comporta diante de um ambiente (Internet) criado pela mesma sociedade que o transformou e moldou para servi-la, oferecendo como paliativo a humanização da tecnologia através da extensão das redes de comunicação para a vida social, capazes de resgatar os valores humanos anteriormente ignorados.
Procura-se mostrar, portanto, que mesmo sendo produto de uma sociedade que desprotege por ignorar e reprimir a natureza do homem, a Internet propicia um novo espaço capaz de trazer de volta a supremacia dos valores do homem, exaltando e intensificando emoções e sentimentos como os vividos ‘no mundo real’.
Esta abordagem não só está baseada em experiências próprias, mas também em depoimentos relevantes, sem a pretensão de uma amostragem significativa, adquiridos através de pesquisas enviadas por email a internautas a respeito de suas relações com esse novo mundo virtual, e em colaborações de jornalistas especializados como Carlos Alberto Teixeira, o C@T do Caderno InformáticaEtc, do jornal O Globo, e Roberto Cassano, da Revista Internet.br, além de referências bibliográficas de autores como Pierre Lévy, Alexander Lowen, Erich Fromm e revistas especializadas sobre o tema.
Neste trabalho não são enfocados aspectos políticos, econômicos, religiosos ou jurídicos. Analisa-se somente as mudanças de comportamento e de relacionamentos interpessoais do homem contemporâneo e sua interação com a Internet. As qualidades da Internet como meio de comunicação soa vistas aqui como um possível resgate da essência dos valores do homem, baseada numa das mais importantes características da Internet que é a liberdade, permitindo que o usuário defina seus próprios limites como fuga da pressão que a sociedade exerce sobre a vida e o tempo de cada individuo.


A SOCIEDADE QUE DESPROTEGE

O homem vive numa sociedade repleta de novas regras que lhe são ‘cobradas’ todos os dias e em todos os lugares. Essas regras vêm de todos os lados, pois dizem respeito ao comportamento interpessoal, à estética que enfatiza a criação da “embalagem” do próprio indivíduo como chamariz para a atenção dos seus semelhantes, de filosofias de vida para encontrar uma estrutura fundamentada para a defesa dos seus hábitos, costumes e opiniões pessoais. Numa sociedade violenta e insegura, o homem aparece perdido, sem saber onde encontrar um lugar que seja capaz de entretê-lo e que, portanto preencha os buracos causados por essa avalanche diária de stress psico-social.
Começa então um processo de uma ‘nova’ identidade do homem, quando ainda criança, para que este seja recebido pela sociedade. Durante o processo de aceitação dessas mudanças, o indivíduo termina, inconscientemente, reprimindo sua essência, seus desejos e seus instintos naturais e assim transformando-se num homem “padronizado” e “fabricado”.
Diante dessa resistência à sua própria natureza, é possível dizer que os diversos problemas psicológicos e desvios comportamentais do homem adulto se originam a partir do momento em que ele entra em contato com o mundo, interagindo com ele. Toda essa repressão causada pela família, representante da sociedade na vida da criança, desencadeará futuros problemas de identidade individual. Freud acreditava que “a civilização é produto da frustração dos instintos e, portanto, a causa de enfermidades mentais”. (1)

1.1 - O primeiro contato com a sociedade

O convívio social do indivíduo e seu contato com a sociedade ocorrem quando ele começa a freqüentar o meio educacional, a escola. Nesta etapa de crescimento intelectual e social do homem, o ambiente escolar e seu componente pedagógico se encarregam de oferecer um leque de informações padronizadas pela sociedade, apresentando-as como o caminho a ser percorrido para alcançar o sucesso, a felicidade e a realização profissional. Erich Fromm afirma que

“o homem moderno é alienado de si mesmo, de seus semelhantes e da natureza. (...) Transformou-se num artigo, experimenta suas forças de vida como investimento que lhe deva produzir o máximo lucro alcançável sob as condições de mercado existentes”.

A partir da definição da opção profissional, o homem admite uma função uniformizada da identidade, aceitando novamente os padrões impostos que estará ‘condenado’ a seguir pelo resto da sua vida. Essa nova identidade pode ser considerada conseqüência do medo de aceitar a si mesmo, muitas vezes diluídos no indivíduo ou violentados ao decorrer da sua vida. Portanto, é possível dizer que é uma nova identidade. Lowen afirma que o problema real do homem moderno

“é o medo de ser si mesmo, o medo de que sua verdadeira natureza (self) seja impura, inadequada, inaceitável. Este medo força-o a ocultar seus sentimentos e sensações genuínas, mascarar a expressão dos mesmos, aceitar o papel que lhe foi exigido”.

Conseqüentemente, o homem inserido na sociedade, além de confuso com relação a si mesmo, está fadado à frustração, ao tédio e ao desenvolvimento de neuroses.

1.2 - O homem moderno na sociedade capitalista

Na sociedade capitalista ocorre uma redefinição do sentido de ‘satisfação plena do indivíduo’, quando este assume que sua felicidade será conseqüência do seu sucesso profissional, do ganho de poder no trabalho e de poder de consumo. Ou seja, sua valorização passa a ficar diretamente ligada ao TER e POSSUIR.
Diante da pressão exercida no homem pela cultura do ‘fazer’ em troca da satisfação e realização pessoal, o indivíduo nega e se aliena dos seus próprios valores humanos. O medo de assumir que pode sofrer, faz com que ele se sinta um indivíduo diferente, incapaz de competir por sua realização pessoal ‘material’ e, portanto, sofrer um “corte” do rebanho ao qual pertence.
O fato de o homem pertencer a uma cultura capitalista faz com que ele aceite que a avaliação do seu valor como ser humano seja dado por sua capacidade de produzir, e que esta se transforme em sinônimo de autenticidade da sua personalidade individual no grupo. Esse comportamento leva o homem ao medo de não pertencer, ao medo de fracassar como indivíduo (ou como máquina?), ao medo da perda da sua identidade (que na verdade não passa de uma identidade social), ao medo da rejeição do grupo, ao medo de ‘ser humano’.

Não consciente do medo da vida, o homem se cansa da rotina de trabalho, cai no tédio, e se sente só. Essa solidão não é conseqüência do abandono do seu grupo e sim, causa da negação dos seus valores humanos, pelo vazio que carrega no seu interior ao “sentir e viver”. Na realidade, o tédio passa a ser uma constante da sociedade capitalista já que foi criado por ela, e o indivíduo passa a ser um consumidor compulsivo em busca de novidades sempre.

1.3 - Um vazio que pode ser preenchido

O homem quer possuir para se sentir livre, mas não é consciente da sua ausência de liberdade quando não pode romper seus vínculos com o que possui, fazendo com que o indivíduo se sinta capaz, útil, e identificado com seu grupo, porém alimentando a solidão que carrega em si ao ignorar seus valores naturais.
Diante desse sentimento que o aterra diariamente, o homem se vê diante de um desafio íntimo que pode ser o começo do preenchimento dessa lacuna interna e do encontro de sua verdadeira identidade individual natural. O desafio citado refere-se à coragem de SER a partir do autoconhecimento e da auto-aceitação. O homem neurótico, que é o homem moderno da sociedade capitalista, luta contra a sua saúde emocional ao evitar conhecer-se intimamente por temer o sofrimento e o fracasso. Confrontar o seu caráter significa se conhecer, deixar acontecer ou fazer sem ‘intuito de’. É a realização de desejos sem pressa, sem pressão, sem razão, para a sua satisfação imediata ou momentânea. O homem não permite ter essa liberdade e se resguarda com uma culpa que não é capaz de superar e nem de entender. Ele possui duas atitudes existenciais, o TER e o SER. O ‘ter’ está calcado nas ações do homem ao incluir a razão, que representa o seu lado ‘egóico’. Essa atitude é a que domina o homem diariamente porque faz parte da estrutura do seu ser.
O ‘ser’ envolve atitudes realizadas através das sensações do indivíduo, sem um objetivo a ser atingido, nascendo naturalmente do seu interior, sendo até inconscientemente realizado. Ao contrário do que deveria acontecer, o homem ‘se esquece’ e se valoriza pelo o que é capaz de produzir.
A solução do dilema ‘ser e viver’ do homem pode estar no aprender a entregar-se às emoções, a aceitá-las e respeitá-las como parte da sua individualidade. É a permissão do homem de ser realmente quem ele é, reconhecer sua essência, apresentá-la aos seus semelhantes e desfrutar dela plenamente.

1.4 - Uma solução moderna na ponta dos dedos

Diante de uma sociedade que se renova a cada segundo, graças a seu desenvolvimento tecnológico, e diante da atração do homem pelas máquinas, a Internet vem despertar um grande interesse. Sendo um produto da sociedade, a Internet poderia ser também um obstáculo para o desenvolvimento emocional do homem, mas é através dela que o próprio indivíduo encontra uma porta para o auto-conhecimento graças às novas características que seu ambiente proporciona aos seus usuários.
A sociedade criou um mundo novo dentro de um computador repleto de novidades em todos os campos, que torna acessível a comunicação globalizada e que também traz ao homem a possibilidade de estabelecer novos tipos de relacionamento interpessoal, devido a sua capacidade de desenvolver formas ‘virtuais, porém reais’.
A fugacidade da rede é um dos seus maiores atrativos, pois a interação é imediata e de validade ínfima, facilitando, portanto, a escolha das companhias e a duração das relações que se criam ou mantém. Outra característica a ser mencionada é que, estando em casa, onde a Internet pode ser acessada normalmente e os usuários se sentem mais seguros, mais concentrados e mais à vontade para falar com os demais sobre si mesmos, redefinindo seu tempo e disposição, usando a Internet como meio de definição personalizada para as novas formas de relacionamento interpessoal. Mostramos em seguida que, essas características prometem a mudança de comportamento social do homem e da sua visão de tempo e de mundo, sendo abordadas para esclarecer as mudanças nos relacionamentos humanos, que atualmente não satisfazem totalmente as necessidades do homem inserido na sociedade contemporânea.


A INTERNET COMO ESPAÇO DE PROTEÇÃO

Através da própria natureza humana, movida por sua curiosidade no desconhecido, a Internet vem crescendo e conquistando mais espaço no mundo virtual, oferecendo diferentes formas de comunicação, exploradas ao mesmo tempo por pessoas que buscam novas formas de interação pessoal que prometam alguma satisfação emocional e, portanto, individual.
A Internet, como um meio inovador de comunicação, surge para romper barreiras preconceituosas, delimitadoras do desenvolvimento emocional do indivíduo, que, ao mesmo tempo, percebe a necessidade de sentir sem medo as emoções da vida, exaltando sua própria natureza e se permitindo conhecer e desfrutar sua existência na sua totalidade, sem temer a rejeição causada pelos obstáculos que a própria sociedade criou para sua aceitação.

2.1 - Relação entre tempo real e tempo virtual

A comunicação virtual desenvolveu uma nova relação do tempo a partir dos recursos presentes na cibercultura, passando a atribuir novos comportamentos em relação à época em que se desconhecia a Internet.
A cibercultura, segundo Pierre Lévy, define a cultura que se formou a partir do surgimento do mundo virtual e que desenvolveu por si só, novos conceitos ideológicos, comportamentais, sociais, artísticos e econômicos, estimulados pela troca constante de informações variadas e compartilhadas por pessoas de todo o mundo, sem a existência da territorialidade do mundo real.
O tempo real é o que está acontecendo na vida real através da interação do homem com seus semelhantes, mas é também um tempo restrito, já que a organização da sociedade o condiciona para que tenha começo, meio e fim. O tempo real é determinado pelo próprio homem, que se transformou num escravo da própria criação. Em outras palavras, o tempo real acontece num imediato pré-estabelecido pela sociedade.
O tempo virtual, ao contrário do tempo real da vida real, pode ser definido pelo internauta, e a Internet passa a ser um mundo que permite ser explorado em sua totalidade, sem limites nem obstáculos da vida real, oferecendo assim, uma realidade virtual capaz de representar um mundo que não dorme. Através desse poder de escolha, dentre muitos outros que serão abordados posteriormente, o usuário se sente mais livre para conhecer e participar de um novo mundo.

2.1.1 - O tempo virtual nos relacionamentos interpessoais na Internet

Conhecer pessoas pela Internet já é mais que um fato nos dias de hoje, virou hábito e hobby entre muitos jovens e adultos. Através de programas como o ICQ (em inglês I Seek You, e que em português quer dizer ‘Eu te procuro’) ou o Yahoo Pager criados exclusivamente para unir pessoas de todo o mundo através de chats - conversas desenvolvidas a partir do teclado, em tempo real, também através de sites ou servidores próprios - são elaboradas todas as facilidades para criar um ambiente descontraído e propício para conhecer pessoas através de bancos de dados com informações pessoais dos usuários.
O diferencial da Internet para o usuário é o fato dela acontecer em tempo virtual. Ou seja, o tempo virtual é um tempo não linear que dá ao usuário a total liberdade para reestruturar a definição de tempo na sua vida. Ao estabelecer relacionamentos interpessoais pela Internet e pelos programas de chat, cria-se também a personalização do tempo do usuário para marcar encontros ou visitar salas de bate-papo. O tempo virtual contempla e expande o tempo real e o homem passa a ser responsável pela redefinição de seus horários.
O tempo real da vida real é um tempo linear que cria no indivíduo uma dependência sufocante, causada pela inexistência da intervenção do homem, de acordo com suas necessidades individuais. As variáveis de tempo do mundo virtual dependem única e exclusivamente da disponibilidade do usuário, ou seja, ele redefine seu tempo de acordo com o seu desejo de realizar as mesmas coisas que, na vida real, estão rodeadas de pré-requisitos inibidores da expressão de sua verdadeira identidade e valores para os demais.
Os serviços de conversas online da Internet estão, a cada segundo, se transformando na arena mais disputada - porém nunca esgotável - para encontros entre pessoas de todo o mundo. O limite do homem em determinar oportunidades para promover situações que facilitem apresentações na vida real depende de fatores materiais, como o espaço físico, o tempo, a distância, e fatores humanos, como a disponibilidade das pessoas que ele deseja estar em contato.

2.1.2 - A fugacidade

Outra característica das relações interpessoais no tempo e no mundo virtual é a possibilidade de propiciar relacionamentos ‘fugazes’. Num ambiente de chat, as amizades podem durar minutos, horas, dias ou anos. Tudo depende da disponibilidade e interesse dos usuários. A troca de informações pessoais, de revelações individuais, da identificação com o outro através das afinidades que são descobertas entre os dois usuários, se desenvolve de acordo com a necessidade de cada internauta decidir o momento de intensificar a relação. Mas a intensificação dos relacionamentos interpessoais virtuais fica sujeita ao timing pessoal de cada internauta que determina o tipo de informação enviada, criando ou rompendo barreiras para sedimentar a relação.

2.1.3 - Velocidade e imediatismo

A velocidade e o imediatismo da Internet são características que determinam cada vez mais os comportamentos dos usuários. Há uma emergência na comunicação virtual que intensifica os contatos e agiliza o intercâmbio de informações entre os usuários. O imediatismo da Internet cria um ambiente que desenvolve no homem uma nova lógica que fomenta o raciocínio ágil. A nova lógica do mundo virtual exige do homem uma imposição individual, estabelecendo limites para o excesso de informação, desenvolvendo o autodidatismo, rompendo fronteiras e preconceitos. Compreende o processo da interação globalizada, e rompe com a propriedade da informação. Além disso, exclui qualquer obstáculo que impossibilite o acesso imediato às informações e alimentam o desenvolvimento da inteligência humana.
O autodidatismo se desenvolve através do uso freqüente da Internet, já que ela providencia constantemente tutoriais que ensinam o usuário a navegar sem se perder. Após o uso freqüente da rede, alguns tutoriais básicos passam a pertencer à lógica do internauta, facilitando o uso de todos os recursos da Internet.
Através dessa nova lógica, o homem adquire uma flexibilidade maior de compreensão da interatividade globalizada das informações que, ao entrar no mundo virtual, pertencerão a todos que as acessam.

2.2 - Perfis de internautas e o auto-conhecimento

Na busca por uma liberdade maior de expressão que facilite a comunicação com outras pessoas identificadas com suas características e seus valores individuais, as pessoas encontram nos programas de chat disponíveis na Internet uma variedade de escolhas e meios para estabelecer contatos com pessoas de todo o mundo. Segundo a psicóloga Ana Maria Nicolaci:


“Quem é assediado porque é muito bonito, numa sociedade que cultua a beleza, pode aprender que os outros apreciam suas opiniões, seu humor, sua inteligência. Quem é rico e, na Rede, não vai pode atrair os outros simplesmente porque sua casa tem piscina, seu carro é importado, ou qualquer razão análoga, terá a oportunidade de testar o quanto atraem seus hobbies, seus interesses por esportes ou sua sensibilidade.”

Através das telas dos programas de bate-papo e do espaço livre para escrever, o internauta sente que suas emoções podem ser expressadas e sentidas com a mesma ou maior intensidade que são sentidas na vida real.
Uma característica comum em todos os internautas é o anonimato. O uso de ‘apelidos’ ou nicks são um convite quase irrecusável para a explosão da criatividade e da imaginação do indivíduo, fazendo-o se sentir mais á vontade para o desenvolvimento de personagens ou para a criação de identidades diferentes a sua. Alguns internautas buscam o isolamento, o afastamento da vida real e das pessoas reais, e criam uma abertura maior com ele mesmo e com quem ele se comunica. Essa abertura se dá devido ao tempo que ele dispõe e estabelece como o ideal para expor suas idéias num determinado momento do seu dia.
O tímido é facilmente encontrado em programas de chat e é, muitas vezes, o que mais conversa através de seu teclado. Para ele, a tela do computador tem uma característica primordial na sua vida social. Atrás de uma máquina não há olho-no-olho, e os programas de bate-papo passaram a ser a válvula de escape para essas pessoas, que acabam desenvolvendo os mesmos relacionamentos que tinham na sua vida social virtual ou na vida real.
Entretanto, a Internet que une pessoas e faz casais em todo mundo, também cria obstáculos que são próprios dos relacionamentos virtuais. A distância física é um obstáculo muitas vezes difícil de suportar, que termina causando tristes finais nos relacionamentos. A saudade leva o casal a freqüentar, cada vez mais, os programas de chat.
Outro problema nas relações virtuais é o mal entendimento do que se escreve. O usuário é forçado a criar formas diferentes de expressão, de acordo com o assunto que está sendo abordado, já que não é possível perceber o estado anímico da pessoa naquele momento. Para isso, os casais criam formas personalizadas de expressão de sentimentos e emoções que podem facilitar a comunicação via teclado.
No mundo virtual é possível destacar vários outros tipos de internautas, todos eles em busca da realização de um desejo: os pesquisadores, os que buscam realizar fantasias sexuais através de imagens ou através do voyeurismo, os que simplesmente precisam da Internet e dos programas de bate-papo para manter contato com familiares, namorados(as), pessoas distantes, os que buscam um ombro amigo nas horas de solidão, entre muitos outros.
Através da expressão de sentimentos e emoções, da troca de experiências, da reflexão diante de uma pergunta pessoal que o indivíduo tem a oportunidade de se expressar, de mostrar o que ele realmente é, se ele realmente se dispõe a isso. Como conseqüência, o homem termina desenvolvendo um valioso processo de auto-conhecimento. Nesta etapa, o indivíduo passa a atribuir valores a sua identidade que serão respeitados pelos outros indivíduos. A Internet devolve ao indivíduo a segurança da aceitação da sua individualidade a partir do auto-conhecimento, além da sensação de proteção que ela oferece, ao desenvolver um espaço propício e sempre disponível para a liberdade de expressão dos internautas.

2.3 - A auto-suficiência através da Internet

Diante do crescimento dos vários serviços que a Internet oferece como cursos online de idiomas, de pós-graduação e mestrado, acesso a bibliotecas do mundo todo, entrevistas com profissionais de todas as áreas e meios de contato essas pessoas, e informações sobre instituições e universidades de todo o mundo, desenvolve-se junto a cada serviço criado uma relação homem-máquina, onde o indivíduo passa a encontrar soluções imediatas para suas necessidades existenciais.
Diante destas e das outras necessidades existenciais do homem, a Internet desenvolveu uma estrutura de serviços para a satisfação de tais necessidades. No que diz respeito ao consumo de produtos e idéias, o internauta tem acesso a mercados, livrarias, lojas de roupa, lojas de música, restaurantes, serviços médicos, bancários, etc. Na área da informação, qualquer tipo de fonte informativa pode ser encontrada à disposição do internauta com a constante atualização das informações.
Todos esses serviços têm em comum uma característica que conquista novos internautas a cada minuto. A ausência de stress, das filas, da burocracia exagerada, do tumulto, do limite dos horários e dos engarrafamentos do mundo real, que fazem com que o indivíduo se entregue às facilidades e ao conforto de poder satisfazer suas necessidades através do mundo virtual, sem ter que abdicar de outros compromissos e de algumas horas de lazer. Conseqüentemente, a vida do homem contemporâneo passa a ser poupada psicologicamente e fisicamente do caos urbano da sociedade, possibilitando um maior rendimento e aproveitamento do tempo como um todo.

2.4 - A Internet como proteção

Diante das características que a Internet possui como meio inovador de comunicação globalizada e interativa, cria-se uma sensação de proteção, de abrigo e de segurança no usuário, em função de sua estrutura similar a do mundo real. Com o resultado do desenvolvimento de um ambiente similar ao da vida real, temos um ambiente muito mais interessante do que o do mundo real, porque oferece a segurança do anonimato, oferece um novo conceito de tempo real/virtual, explora a escrita como forma de expressão da intimidade individual, e cria novas formas de relacionamento. Conseqüentemente, foram resgatadas antigas necessidades de comunicação, servindo atualmente como artifício para preencher os vazios que a sociedade repressora e dominadora criou, colaborando, portanto, com o desenvolvimento da civilização real e virtual, e as necessidades de cada ser humano.
Na Internet, a ordem é oferecer ao homem todas as possibilidades e acessos possíveis para que ele se sinta completamente à vontade para se expressar naturalmente, de se auto-descobrir e de ser ele mesmo.


CONCLUSÃO

O homem está aprendendo a lidar com o que não é material. A cultura do virtual tornou-se um convite para o indivíduo superar o medo de acreditar em algo não palpável, que fosse capaz de prover todas as ferramentas necessárias para a produção intensificada das mesmas emoções sentidas por ele na vida real. O receio e a curiosidade pelo 'novo' criam sensações antagônicas que fazem com que o mundo virtual se torne único, que sua cultura seja única, e que as sensações sentidas através de uma fria tela de computador se tornem mais especiais. O homem pertencente à sociedade contemporânea está passando por uma fase de desenvolvimento pessoal, que é o reconhecimento do seu 'ser'. Entretanto, para toda e qualquer mudança numa sociedade capaz de mudar o 'óbvio' da vida do homem regido pela mesma, deve existir um tempo de adaptação e aceitação individual para que cada um possa tirar do 'novo' o que há de melhor nele.
A distância entre o real e o virtual está se tornando mínima e o homem já admite o seu real envolvimento com o mundo virtual. O difícil é compreender que o mundo intangível e virtual está sendo protetor dos temores reais do homem, e que este pretende criar um espaço seguro para que cada cidadão virtual possa ter a liberdade de expressão necessária para resgatar o valor real do ser humano.
O interesse pelo conhecimento desse novo mundo e o envolvimento com ele tornou-se sinônimo de liberdade e sonho, e a fuga perfeita para os que sofrem com a pressão de terem que ser o que não são e serem obrigados a fazer parte de uma sociedade repressora.
O mais importante é que o homem está criando um novo referencial desde a criação da Internet, e com esse novo referencial ele estará pronto para entender realmente as novidades que o mundo virtual tem para oferecer, e poderá encarar de outra maneira seus conflitos internos e as dores da alma, em busca de uma solução.
Cada indivíduo 'navegante' desse mundo virtual determina a função da Internet em sua vida, mas todos encontram nela a fuga das pressões psicológicas, físicas e emocionais da sociedade que desprotege. O mais fascinante é sensação de ter encontrado um hipnotizante e sedutor caminho que leva cada ser humano a abrir seu coração e sua alma para o mundo e saber que os seus valores são a sua verdadeira identidade.

(*) – graduada em Comunicação, habilitação Publicidade e Propaganda pela Universidade Estácio de Sá.
(**) – Doutorando e Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista do Estado de São Paulo.

BIBLIOGRAFIA
CASSANO, Roberto. Viciados em Internet – Cuidado: navegar é muito bom, mas não deixe que seu lazer vire dependência. Internet.br. Rio de Janeiro, nº 35, p. 44 a 46, abr. 1999.
FROMM, Erich. A arte de amar. Belo horizonte, Ed. Itatiaia. S.d.
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Psicanálise da sociedade contemporânea. São Paulo: Ed. Zahar, 1983.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo, Ed. 34, 1999.
LOWEN, Alexander. Medo da vida: caminhos da realização pessoal pela vitória sobre o medo. São Paulo, Summus, 1986.
LUFTI, Adriana. O divã de pernas para o ar. Internet.br. Rio de Janeiro, nº 37, p. 38 a 40, jun. 1999.
NICOLACI DA COSTA, Ana Maria. Na malha da rede: os impactos íntimos da Internet. Rio de Janeiro, Campus, 1998.
VÁRIOS AUTORES. Relacionamentos entre iguais. Internet.br. Rio de Janeiro, nº 37, p. 42 a 44, jun. 1999.
Nunca é tarde para navegar. Internet.br. Rio de Janeiro, nº 38, p. 70 a 71, jul. 1999.
Trair e clicar (ou vice-versa). Internet.br. Rio de Janeiro, nº 38, p. 66 a 67, jul. 1999.

NOTAS
1 - FREUD, Sigmund, In FROMM, Erich. Psicanálise da Sociedade Contemporânea, São Paulo, 1983, pág 84.
2 – FROMM, Erich. A arte de amar. Belo horizonte, Ed. Itatiaia. S.d.
3 – LOWEN, Alexander. Medo da vida: caminhos da realização pessoal pela vitória sobre o medo. São Paulo, Summus, 1986.
4 - NICOLACI-DA-COSTA, Ana Maria. Na malha da rede: os impactos íntimos da Internet. Rio de Janeiro. 1998. pág. 223

 
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