DA MECÂNICA À DINÂMICA: UM PASSEIO PELAS TEORIAS DE COMUNICAÇÃO "Quando
pensei ter Tempo da tão falada crise dos paradigmas e da revisão do papel da comunicação na ciência e na própria sociedade. Tempo de flash-back, reavaliação de arcabouços teóricos! E são vários os que aceitam essa empreitada. Pensar o fenômeno comunicacional está sendo cada vez mais fundamental no processo de análise da produção de conhecimento em vários setores de nossa sociedade. A relação que temos com o meio ambiente, nossos semelhantes e com cada um de nós torna isso evidente. A aparente vitória do capitalismo no proclamado fim da história de Fukuyama não se sucedeu. Não precisamos promover grandes discussões para recusar esta análise. Basta olhar para a vida: conflitante, paradoxal, dinâmica e inquieta. A história não acabou! Mas o que começa a demonstrar sinais de cansaço é um modelo que isola o meio ambiente do homem e, justamente por isso, o coloca numa situação de decifrá-lo para uma possível dominação. Dentro dessa lógica a ciência ocidental se construiu e, por conseguinte, diversos campos do saber também se nutrem dessa ótica mecanicista. O homem torna-se cada vez mais dependente da máquina e, longe do discurso de que as novas tecnologias vêm para otimizar as tarefas, elas surgem apenas pela sedução do novo, do mais atual, por estratégias de marketing que mais incentivam o consumismo do que resolvem os problemas sociais. Decorrência do opressor sistema capitalista - e não se trata aqui de uma ótica capitalista selvagem, mas do próprio sistema - tal visão de mundo não está dando conta das necessidades básicas dos seres humanos. Uma visão de mundo que olha para o universo como um conjunto de corpos estrelares em movimento, partindo de um início e convergindo para um fim onde tudo começaria, que olha para a terra e o meio ambiente e faz inúmeras divisões: três reinos, racionalidades, hábitos alimentares... e a partir daí criam suas convenções, que olha para o corpo humano e o analisa como um conjunto de órgãos que funcionam de modo complementar, mas ignora o ser que o carrega. Como se manifesta essa visão de mundo na comunicação? Bem-vindo ao passeio! O observador muda o fato observado! Pra início de conversa essa história dá pano pra muita manga. Principalmente para aqueles que se acostumaram a olhar o mundo e, especificamente as trocas de informações dentro do tradicional esquema emissor - mensagem - receptor, unidades indissociáveis e isoladas que trouxeram o mecanicismo para a comunicação. Uma reflexão estática para um tema dinâmico. Tal esquema abre uma fronteira entre aquele que se apropria da mensagem e aquele que a recebe. A mensagem é como um pacote que se transporta de um lugar para outro, sem causar modificações nos indivíduos nem nela própria, já que ela sai e chega intacta. O fundamental é avaliar a eficácia da mensagem e a interação entre emissor e receptor, conservando esses dois atores e a distância entre eles. As teorias sobre o estudo da comunicação apresentam-se como novos olhares sobre o paradigma mecanicista, que já se manifestava em outros campos do saber tais como a biologia darwiniana, a física newtoniana e, porque não também citarmos, a filosofia de Hegel e Marx? São também justificativas para atitudes políticas de pesquisadores e grupos que possuíam algum tipo de interesse na legitimação dos seus paradigmas correspondentes, sejam eles bem intencionados ou não. Para a justificação de uma prática criam um arcabouço teórico, uma espécie de guarda-chuva com o qual se sentem protegidos. Fazer funcionar & captar anseios Os interesses das pesquisas de concepção funcionalista concentram-se na utilidade dos produtos da comunicação. Faz-se necessário estar com a atenção voltada para o produto, a mensagem que se veicula e também ao público. Perceber, por um lado, como o público entende as mensagens e por outro, com que objetivo os emissores elaboram mensagens e produtos, visando produzir melhores produtos ou melhores entendimentos. Apesar do legado mais conhecido e famoso dos funcionalistas ter sido a fórmula para orientar a análise de conteúdo baseada nas cinco perguntas fundamentais: Quem? Diz o que? A quem? Por onde? Com que meios?, eram freqüentes as metáforas de origem biológica para a explicação dos fenômenos relacionados com a comunicação. Tentativa mal-sucedida de convivência das ditas ciências naturais com as assim chamadas ciências humanas, cuja fundamentação era a teoria da seleção natural e a predominância dos mais fortes sobre os mais fracos, ou seja, tentar explicar a exploração social como uma característica da natureza do ser humano. O funcionalismo é o império da pesquisa, pois a legitimação de seus pressupostos depende do público. A maneira encontrada para chegar até ele é através de pesquisas quantitativas que aferem gostos e desgostos da opinião pública com elaborados quadros estatísticos. Funciona? Claro! Este é o paradigma teórico dominante nas empresas de comunicação, agências de publicidade e departamentos de marketing. A comunicação transforma-se em mercadoria onde mercadores agenciam público e produto. Como precisam do público e das pesquisas para sustentarem suas estratégias, fazem com que estas sejam não só um fator de planejamento estratégico, como também um meio para conseguir um número maior de consumidores. Um resultado de uma pesquisa nem sempre é resultado da realização de uma pesquisa, pois pode-se muito bem se utilizar da manipulação de dados, e verdades também, como estratégia de marketing. As conseqüências da orientação funcionalista no mercado são uma via de mão-dupla. Manipulam as pesquisas para sustentar um produto, ou interferem num produto para sustentar um público. Nas duas vias se utilizam da mesma noção de qualidade: se é consumido por todo mundo, o produto é bom! Nas duas visões, produtos e público são tratados como objeto. Uma boa maneira de se iniciar uma discussão sobre a Escola de Frankfurt é contrapor sua diferente concepção sobre as pesquisas de opinião em relação aos teóricos funcionalistas. Se para esses a pesquisa quantitativa fazia parte da sustentação de seus postulados, a idéia de tomar decisões, realizar modificações a partir do gosto popular era bastante questionada por Adorno. Se por um lado esta concepção mostrava um certo elitismo por parte do pesquisador, também revelava um desejo de absoluta coerência com suas convicções, senão vejamos: Na sua opinião, o Presidente da República é: ótimo, bom, regular, ruim ou péssimo? Este tipo de pergunta, freqüente nos questionários dos Institutos de Pesquisa, não pode servir de base para nenhuma análise séria sobre a opinião das pessoas sobre o trabalho que um determinado cidadão esteja realizando junto à Presidência da República, mas são perguntas como estas que orientam o marketing político de todos os partidos que almejam chegar à Presidência da República ... Ou ainda esta: Para você a privatização é? ótima, boa, regular, ruim ou péssima; Saber o conhecimento das pessoas sobre as implicações originadas pela privatização não importa aqui. Mundo estranho, não? Este era o questionamento de Adorno em relação ao funcionalismo. Estas e outras preocupações povoavam a cabeça dos teóricos da Escola de Frankfurt. A principal delas (e a que nos vai interessar aqui) é a da produção cultural em moldes industriais, de onde saiu o conhecido conceito de indústria cultural. Adorno & Horkheimer analisavam a sociedade de sua época, mostrando que a racionalidade predominante na organização industrial também estava presente na produção de cultura, e por conseguinte, nos meios-empresas de comunicação. Suas críticas dirigiam-se à massificação da sociedade, manifestação da derrocada do projeto modernista. Acreditavam que a indústria cultural agia mais com um papel anti-desmistificador, isto é, promoviam a alienação das massas, criando dependência em relação aos seus produtos. Sendo assim, era uma cultura que se dirigia às massas, mas não produzida por elas, daí a diferença entre indústria cultural e cultura de massa. Benjamin, por sua vez, afirmava, com um lamento incontido, que a arte contemporânea havia, através da utilização de tecnologias, se afastado de sua aura. Salta aos olhos, a partir de uma leitura cuidadosa, a preocupação com a concretização do projeto social da burguesia. Apesar disso foram importados como revolucionários. Chegamos enfim à América Latina! A identificação com o quadro descrito pelos frankfurtianos era total nos anos 70. Tempos de ditaduras explícitas e governos militares. Tempos de colonialismo cultural e ascensão da televisão. Por essas e outras, a Escola de Frankfurt foi importada como um grupo de eficientes pintores de um quadro cuja observação não trazia nenhum prazer. Se num primeiro momento os pressupostos alemães serviram de base para as análises críticas promovidas a respeito do imperialismo cultural, logo chegaram à conclusão de que o arcabouço teórico com o qual trabalhavam se mostrava um beco sem saída. O pessimismo presente nas linhas escritas pelos partidários da Teoria Crítica não dava margem a nenhuma forma de contestação por parte de pessoas que estavam vendo e sentindo a opressão na pele. O que se sucedeu então foi uma leitura dinamizada da Escola de Frankfurt, fundamentação para o desenvolvimento de trabalhos contra-hegemônicos que se alastraram por toda a América Latina. Confiança na capacidade de organização e de reapropriação das mensagens comunicacionais por parte da sociedade, pressuposto para a realização de análises críticas dos meios de comunicação de massa em conjunto com grupos populares, estudos de recepção e desenvolvimento de meios de comunicação alternativos aos massivos. Estudos que se valiam dos legados de Gramsci e Althusser. Do primeiro, a importância na formação cultural dos intelectuais orgânicos e sua participação numa sociedade civil organizada visando a implementação da filosofia da práxis como alternativa para a superação das contradições que o sistema capitalista evidenciava. Do segundo, a análise do Estado e seus aparelhos ideológicos de opressão social que também contribuíram para gerar passividade e desmobilização. Críticas tais como a da dependência cultural, herança da transposição da análise econômica para a social, caem por terra a partir da complexidade da produção capitalista que incentiva o desenvolvimento de uma indústria televisiva no país e até mesmo de talentos revelados nas áreas de teledramaturgia e telejornalismo. Essas posturas tiveram grande importância numa determinada época, mas o crédito depositado nelas foi além das possibilidades. Os meios alternativos não se traduzem numa alternativa real, mas têm sua função específica e devem ser pensados a partir dela. Ao contrário, se tornaram instrumentos daqueles que ainda se referenciavam no poder instituído, seja para abrir competição ou para combatê-los, nunca admitindo um espaço próprio onde até mesmo pudesse haver uma co-habitação possível. Talvez por serem mais pretensiosos que suas possibilidades, esses meios carreguem tantos equívocos na sua elaboração, principalmente no panfletarismo que povoa suas produções. Quanto à pesquisa a partir dessa ótica da esperança ela foi desenvolvida tomando-se por base três concepções: A primeira carrega consigo o que há de mais apocalíptico na Escola de Frankfurt, pois compartilha-se da idéia de que os meios de comunicação de massa alienam a população, ou seja, fazem com que as pessoas percam a capacidade de formar consciência crítica. Deram origem a alguns estudos teóricos sobre a influência dos meios de comunicação no cotidiano das pessoas e ainda exerce uma certa influência nos dias de hoje. Diante de tal passividade por parte do telespectador, é impossível esperar alguma forma de reivindicação ou questionamento a respeito de suas vidas, seu trabalho... O sujeito construído pelos frankfurtianos é completamente massificado e dependente das relações impostas pelo sistema, ratificadas pelos meios de comunicação. A resultante deste quadro apresentado seria não o apocalípse, mas o que viria imediatamente após. Esta visão ia de encontro ao cotidiano de contestação da América Latina, de lutas contra-hegemônicas e principalmente às pessoas que desenvolveram tais atividades por aqui. A vida, para variar, desmentia as análises! Tal constatação levou ao desenvolvimento de estudos de recepção dos meios de comunicação: partindo da idéia de que as pessoas possuem uma maneira particular de compreensão dos produtos de comunicação, que nem sempre vão de acordo com o intuito inicial dos produtores. Essas práticas muitas vezes fizeram com que os pesquisadores fossem para o local de coleta dos dados com o objetivo de se envolver com as comunidades analisadas, desenvolvendo com elas outro tipo de relação que não a de sujeito-objeto, mas sim de cooperação. Foi a chamada pesquisa participante. Outra idéia que serviu para a reflexão de vários estudiosos foi a teoria da brecha. Adorada e combatida, ela parte da concepção de que a Indústria Cultural não é um todo monolítico, intransponível e impenetrável que não possa permitir a veiculação de mensagens conscientizadoras. Existem brechas que devem ser exploradas por aqueles que intentam transformar a situação dos meios atuais, no sentido de torná-los mais democráticos. Entretanto, muitos consideram impossível entrar nos grandes meios de comunicação com o objetivo de transformá-los, sem contar o perigo de se corromper pelo sistema. A introdução dos estudos de mediação surge de uma visão mais radical da idéia de ir até os receptores de mensagens para avaliar seus efeitos. O grande ganho desta tendência foi perceber que a interpretação das mensagens é constituída a partir de várias referências que passam por outras relações que não as do mundo do trabalho. Outras mediações e outras referências fazem a cabeça das pessoas, formando opiniões e idéias de uma maneira bastante complexa. Nem todos os conflitos são classistas e as próprias manifestações sociais deram margem à introdução destas questões na pauta das forças ditas progressistas. Assim como a questão da luta de classes passou a dar lugar para outras contradições sociais, a predominância da economia no entendimento dos problemas que mais preocupam a sociedade também deu espaço à questão cultural, social e subjetiva. A partir da idéia de força de trabalho deu-se muita ênfase à questão do trabalho e pouco se falou sobre o emprego da força humana na transformação do meio-ambiente e das próprias relações culturais. Ao contrário da pesquisa participante, que dava racionalidade e até mesmo importância ao objeto de estudo, os estudos de recepção davam dinamismo ao “receptor”, ao lhe atribuir uma multiforma. Sendo assim, provocou-se um primeiro abalo no esquema mecanicista da comunicação, pois o receptor ainda existe, mas não é mais monolítico. Outras questões foram colocadas e a própria movimentação social se encarregou disso. Manifestações de mulheres pelos seus direitos e por liberdade social e sexual. Manifestações estudantis pela reforma de currículos nas universidades em Paris. Negros lutando pelo reconhecimento da sociedade nos EUA e até hoje organizações ambientalistas que conscientizam a população da importância em salvar o planeta a partir de cada ato individual. O mundo mudou, e com ele as armas, as pessoas, as questões ... Por sua vez, as pessoas não podem ser vistas como um conjunto de micro-identidades. Sujeito-trabalhador, sujeito-homem, sujeito-negro ... como se cada fração não fizesse parte da mesma pessoa. Deste princípio partem a concepção holística e a teoria do caos: se aquela constitui-se num paradigma que considera “cada elemento de um campo como um evento que reflete e contém todas as dimensões do campo”, esta parte da idéia de que somos todos pequenos grupos, sempre falando em nome de uma multiplicidade bem administrada. “É preferível uma confusão bem ordenada do que certezas insustentáveis.” A partir desta ótica fica bastante prejudicada qualquer análise que tenha origem no esquema determinista que isola o emissor do receptor e trabalhe a mensagem como algo imutável. Pensar a comunicação como um constante fluxo de informações é torná-la equivalente à produção cultural que nega-se a dar por encerrado qualquer ciclo de vida, colocando o mundo em constante movimento. Movimento que não sai de uma origem apenas e passa a dizer respeito a todo o esquema; além disso, ou por causa disso, o próprio esquema começa a se romper. A Comunicação é um campo de saberes e técnicas preocupado com as manifestações coletivas e individuais, as instituições e as relações de poder, os efeitos dos meios tecnológicos de comunicação massivos. Com o uso habitual de expressões tais como fluxo de informações, dinâmica social, trocas simbólicas ... que se tornam comuns ao estudo dos fenômenos comunicacionais, pode-se dizer que o objeto primordial da comunicação é o movimento. Comunicação é, portanto, física! Prof.
Adilson Cabral |
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A COMUNICAÇÃO PARA A DEMOCRATIZAÇÃO DA SOCIEDADE: um desafio, um mito UM MITO DE CONCRETO: pistas para um movimento pela democratização da comunicação UMA IDÉIA NA CÂMERA, DUAS MÃOS NA CABEÇA: propostas e desafios das experiências de vídeo no movimento popular MUITO ALÉM DA OBJETIVIDADE DA MECÂNICA À DINÂMICA: um passeio pelas teorias da comunicação |
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