O COMUNITÁRIO, O ALTERNATIVO,
     SUA MULHER E O AMANTE

Cada vez que giro os canais da TV no domingo à tarde, me convenço mais um pouco que a necessidade de produzirmos vídeos com qualidade serve simplesmente para legitimar uma produção que não pode competir com a parafernália broadcast de último tipo que encontramos na TV.

Os videastas populares precisam produzir melhor para criar referências no trabalho junto ao seu público imediato e aos que os assistem nas praças, escolas e comunidades afora. O respeito às comunidades, um ponto fundamental nas atividades de TV comunitária, passa também pela diferenciação com as reportagens e novelas banais que invadem nossas casas diariamente.

Qualidade não é algo que costumamos ver na programação dos canais disponíveis. E isso não é uma constatação atual: por muitas vezes os produtores de vídeo popular se queixam de servir como cobaias para experimentações que, com a positividade dos resultados, passam a freqüentar as telinhas de nossas casas.

Comunitária e popular foram adjetivos que se consolidaram ao longo dos anos e começam a definir as experiências de comunicação: falamos em TVs comunitárias, em vídeo popular e também no movimento de rádio a coisa não é diferente: rádio comunitária, radiodifusão popular...

Nessa evolução, as experiências de vídeo popular foram perdendo o sentido do experimentalismo que marcava a comunicação alternativa. Nunca entendemos bem o que isso significava, até porque significava muita coisa: alternativo à comunicação de massa, à burguesia, como contra-hegemonia (desculpem o palavrão, mas era assim que funcionava a coisa!); alternativa à linguagem, às possibilidades de uso das novas tecnologias ... Hoje o alternativo só se mantém como alternativa de mercado, mas isso é outra discussão!

Mesmo correndo o risco de entregar o ouro ao bandido, não se pode perder o risco da experimentação. Idéias boas são sempre aproveitadas e sabe-se disso porque é comum este procedimento entre as co-irmãs populares (às vezes até, infelizmente, copiando por copiar). O que os videastas populares deveriam fazer é marcar a identidade dos projetos que desenvolvem e fazer um bom trabalho de mídia para que as devidas paternidades não se percam.

Por outro lado, o sentido da qualidade a se buscar não está na mídia, mas sim na rua, a ser inventada; não está nos livros, mas sim nas discussões e choques entre produtores e as comunidades. Dessa química é que um projeto deixa de ser aplicação rasteira de teoria de cinema e/ou vídeo para se tornar uma experiência popular, comunitária e alternativa.

Adilson Cabral
acabral@infolink.com.br

 
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