PODER, CONTROLE E TECNOLOGIAS DO VIRTUAL

Se fossemos olhar para o passado, a fim de investigar a longa caminhada que a humanidade percorreu - buscando criar e cultivar relações sociais, desenvolver povos e nações, construir cidades e impulsionar a agricultura, o comércio e a indústria - poderíamos concluir que, desde o seu primeiro movimento, manifestava-se o desejo de aproximar distâncias de tempo e espaço.

A representação simbólica do mundo é encontrada nas primeiras manifestações artísticas que se utilizam da imagem: a pintura, e mais tarde, a fotografia, possibilitam a simulação de um novo ambiente. O teatro elege a história como narrativa e a metáfora como adjetivação de seu relato, e nos permite observar de que forma um determinado grupo ou sociedade se projeta, construindo relações não vivenciadas.

Com o desenvolvimento tecnológico, cria-se uma estrutura de produção da comunicação que contribui para a redução do tempo entre o acontecimento e seu relato, entre uma descoberta e sua divulgação. A imprensa, o rádio e, mais tarde, a TV contam não só com uma história semelhante de desenvolvimento, com o suporte de uma estrutura de distribuição da produção: navios, automóveis, aviões ... rotativas, satélites e torres de transmissão.

Já podemos falar aqui em indústria cultural, sociedade de massa e opinião pública. Onde os produtos culturais são concebidos em larga escala para um público que limitadamente influi em sua formatação. Nesse ponto, contamos com um cenário que abrange quase todo o planeta do ponto de vista da produção; da captação imediata de imagens e sua posterior divulgação; da análise mais abrangente dos fatos a partir de uma visão global e com múltiplas referências; de trazer o mundo para nossas telas, para o jornal que lemos durante o café da manhã, o rádio que nos acompanha até o trabalho ... mas ainda assim, um novo e importante passo estava para ser dado nessa caminhada: o desenvolvimento de uma rede plenamente interativa de comunicações, capaz de receber e enviar textos, áudio e vídeo em tempo real a todos aqueles que a acessam. Essa rede ficou conhecida, para fins militares, acadêmicos e comerciais, como INTERNET.

Para falarmos sobre o poder que exerce o virtual nas sociedades contemporâneas é extremamente fundamental iniciarmos o debate por esse tema. A INTERNET nos impõe uma redefinição no conceito de virtual, pois trata-se não somente de uma oposição ao real, ao realizado, mas sim de simulações que implicam em acontecimentos efetivos.

Além disso, é com a INTERNET que se engendra a transformação de átomos em bits. Esta expressão, utilizada por Nicolas Negroponte em seu livro Vida Digital, implica numa verdadeira revolução no modo de circulação de mercadorias e informações, tanto do ponto de vista do tempo, na medida em que se amplia a largura de banda necessária para a transmissão de vídeos em tempo real, como também do espaço, já que a distância somente será percorrida pela informação que circulará, não mais pelos seus portadores. A contribuição dessas tecnologias para a redução do tempo gasto com reuniões, apreciações de projetos, consultas públicas e pesquisas é incalculável.

Para quem será esse mundo novo admirável!?
A despeito de todo esse deslumbramento tecnológico, as taxas de desemprego crescem em todo o mundo, as grandes empresas se fundem, organizando senão monopólios, pelo menos grandes blocos de controle dos diversos setores produtivos e o Estado cada vez mais se torna refém das ações do Mercado.

Segundo Robert McChesney[1], a nova configuração das empresas de comunicação e cultura precisa ser olhada por um novo ângulo: se antes observávamos grupos regionais e nacionais e suas articulações multinacionais, atualmente devemos nos voltar para a análise das grandes corporações multinacionais, apreciando seus desdobramentos regionais e nacionais. Ele ainda afirma que quase toda a produção de cultura e comunicação em todo o mundo é controlada por apenas 10 grandes corporações transnacionais, incluindo-se aí estúdios de cinema, TV, indústria fonográfica, etc.

Num primeiro momento, o controle social exercido a partir das grandes empresas de comunicação baseava-se numa mídia que tem por característica uma comunicação de poucos produtores e muitos receptores. Em relação a isso, Dieter Prokop afirmou anteriormente que "o caráter emancipatório da práxis ... está na supressão da contraposição entre produtores e receptores". Diante de uma mídia como a INTERNET, com suas características de abrangência, de proximidade temporal e espacial, como as grandes empresas - diante dessa nova configuração - continuarão exercendo o controle social e influenciando a opinião pública?

Vamos acrescentar ainda algumas tendências de composição do mercado para o século XXI. Em primeiro lugar, observamos a clara aceleração da convergência de sinais (de áudio e vídeo ao texto), compondo uma nova mídia que tem por suporte a digitalização e por unidade fundamental o bit. Além disso, com todos os meios de comunicação à disposição, a INTERNET ainda incorpora a telefonia como uma de suas possibilidades.

A implicação dessas transformações para o mercado gera um impasse e cria uma expectativa em relação aos próximos passos a serem tomados. De um lado a necessidade de acompanhar as inovações tecnológicas, lançar novos serviços e produtos e criar ambientes mais amigáveis ... Por outro, o risco de não ter retorno comercial nos caminhos escolhidos e desenvolvidos.

Do ponto de vista da tecnologia disponível, podemos afirmar que estamos diante de uma mídia mais acessível, que amplia as possibilidades de uso, de disponibilização da produção existente e da imposição de um padrão de qualidade que pode até mesmo superar empreendimentos já estabelecidos. A novidade dá-se aqui, portanto, na capacidade de oferecer melhor qualidade de informação e mais ampla interatividade.

O controle social das grandes corporações se dará, do ponto de vista da produção, a partir de grandes espaços (sites) na INTERNET, que ensaiam uma certa participação do público, mas que é efetivamente corporativa. E de grandes provedores de informação e acesso, fagocitando empreendimentos menores. Ou seja, a manutenção do controle social está relacionada diretamente com a grandiloqüência da presença na INTERNET e na inexistência de empreendimentos sociais de grande impacto.


[1] Texto apresentado à Conferência Virtual sobre o Direito de Comunicar, promovida pela Coalizão Internacional de Videastas Independentes - Videazimuth

Prof. Adilson Cabral
Professor da Universidade Estácio de Sá - RJ
Mestre e Doutorando em Comunicação Social pela
UMESP - Universidade Metodista de São Paulo

 
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