"Eu já sabia!"
Diante da frustração anunciada, sociedade civil mostra seus potenciais em Genebra

Genebra foi palco de uma série de atividades da sociedade civil durante a Cúpula, como fruto da apropriação das tecnologias de informação e comunicação por parte da sociedade civil que se dispõe a atuar nesse setor ou utilizá-las apropriadamente para a otimização de suas atividades. Ações de dimensão mundial, organizadas isoladamente por diversas coalizões, deram o tom de uma prática que precisa se expandir no cotidiano e se tornar constante no sentido da concretização da sociedade do conhecimento.
Geneva03 é um desses grupos de organizações que desenvolveu uma série de eventos no intuito de mostrar que não consideram ser eficiente a negociação que começou em Genebra."Ela não oferecerá autonomia para todos, então que seja tomada agora, utilizando-se de todos os meios e tecnologias a nossa disposição, como a própria Internet, as redes P2P (peer to peer), softwares de código aberto e livre, infra-estruturas comunitárias sem fio, tvs e rádios piratas e online", afirma o manifesto do coletivo.
Além das questões relacionadas às tecnologias de comunicação, os eventos entitulados "WSIS? We seize!" tiveram o propósito de "abrir discussão sobre as novas condições sociais que constituem o mundo de hoje, sobre o qual a CMSI tem pouco ou nada a dizer: concentração da mídia, expansão de regimes de propriedade intelectual, etc".
Uma série de ativistas da comunicação desenvolveu também o projeto High Noon, que consiste no confronto e exposição da retórica da Cúpula em Genebra, com o objetivo de afirmar o que reivindicam como a sociedade de informação, desenvolvendo métodos e modelos para ocupar essas demandas com conteúdo de qualidade e tornar acessível para que outros possam se engajar num desenvolvimento técnico, midiático e social.
Já o Center for International Media Action (CIMA), uma organização americana com sede em Nova York, está conduzindo uma pesquisa com participantes da sociedade civil envolvidos no Fórum Mundial sobre os Direitos de Comunicar, WSIS, We seize! e eventos afins. A informação coletada nessa pesquisa será usada expressamente para a produção de um diretório de grupos de pressão que será distribuída a todos os participantes no começo deste ano como uma ferramenta para organização e compartilhamento da informação.
O que esses grupos revelam é um desejo muito forte de realizar a sociedade da informação e do conhecimento a partir de suas práticas e da capacidade de se articular com outros grupos, o que vem sendo bastante experimentado tanto na Cúpula de Genebra, quanto em outros eventos desse porte como o Fórum Social Mundial, que vai esse ano para sua quarta edição, sem falar nas várias edições nacionais e regionais.
Existe o sentimento de que, apesar de necessário, o processo preparatório para a configuração desta primeira fase da Cúpula foi extremamente desgastante. A indisposição dos governos em discutir e aprimorar pontos efetivamente relevantes foi minando as expectativas das organizações da sociedade civil. Para a maioria dos grupos que focou sua participação em Genebra na exposição de suas experiências, este posicionamento não foi mais do que uma evidência da continuidade dos movimentos reformistas na afirmação de sua lógica neoliberal: privatização das telecomunicações a despeito do investimento em iniciativas voltadas às comunidades, intensificação da concentração da propriedade na mídia comercial, expansão das leis de propriedade intelectual.
Entretanto, e apesar desse cenário insatisfatório, é exatamente essa agenda que se pretende transformar e de alguma forma essa deve ser uma missão possível, sob risco de transformar tais demonstrações em espaços que, apesar de se mobilizarem por uma outra comunicação possível, não vão resultar em nada mais do que auto-referência para dar visibilidade e expandir tais atividades.
O que aconteceu em Genebra durante esses três dias da Cúpula, além dos outros dias e mesmo meses de preparação, pode muito bem se transformar numa prática cotidiana se se encontram o comum das agendas que tecem o caminho delicado da institucionalização - que demanda vitalidade - e a força da ação direta - que carece de legitimação. Dessa forma, torna-se tanto um equívoco estratégico abandonar a mesa de debates/concertações como ignorar sua presença. Uma outra postura que contemple essas duas vias não só é possível como desejável por parte das ações futuras da sociedade civil, sem que com isso expectativas se frustrem de ambos os lados.

por Prof. Adilson Cabral
Coordenador do Informativo SETE PONTOS

 
NESTA EDIÇÃO

Desenvolvimento Sustentável
Conscientização pelo direito a uma comunicação mais democrática
O direito de comunicar é um dos temas que as organizações da sociedade civil consideram de fundamental importância para concretizar a sociedade do conhecimento, concentrando especial expectativa nas negociações que se travaram em Genebra. No entanto, os relatos e informações que chegaram a respeito do que foi negociado e acertado não foram animadores. (texto completo)

Conhecimento Global de Domínio Público
Aterrissando em Genebra com os pés no Brasil

O posicionamento do governo brasileiro na Cúpula
Para o governo brasileiro, “a construção de uma Sociedade da Informação realmente inclusiva demanda o estabelecimento de um modelo multilateral, transparente e democrático de Governança da Internet, no qual todos os países tenham voz e capacidade de influência, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e com o princípio da igualdade jurídica dos Estados”.
(texto completo)

Educação para a Informática e a Internet
"Eu já sabia!" Diante da frustração anunciada, sociedade civil mostra seus potenciais em Genebra
Genebra foi palco de uma série de atividades da sociedade civil durante a Cúpula, como fruto da apropriação das tecnologias de informação e comunicação por parte da sociedade civil que se dispõe a atuar nesse setor ou utilizá-las apropriadamente para a otimização de suas atividades.
(texto completo)

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Governança da Internet
Fazendo acontecer a sociedade da informação
a relação entre o governo brasileiro e a sociedade civil
Unir os três setores é algo que se vem mostrando cada vez mais difícil na CMSI, pois cada qual tem interesses particulares, ignorando, em muitos casos, o que realmente interessa para a população. (...) No caso do Brasil, também, não há uma relação estreita do governo com a sociedade civil na hora de organizar e de defender propostas para serem analisadas nas reuniões preparatórias ou nas da própria Cúpula.
(texto completo)

Brasil ingressa na era da Internet
Indicadores brasileiros não fazem feio nas últimas avaliações
Apesar da capacidade e do potencial de uso da Internet ainda causar muita polêmica entre estudiosos e técnicos, pelo alto custo dos equipamentos, o tipo e o preço de acesso à Internet, o Brasil entra em 2004 com a expectativa de subir no ranking dos países que têm como meta a inclusão digital. (texto completo)

Direitos Humanos
Muitas redes para tecer

desafios de hoje e sempre para a sociedade civil
Afiadas críticas se sucederam durante e após a Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, tanto por parte de representantes da sociedade civil, como da imprensa presente em Genebra ou que acompanharam o evento de seus próprios países.
(texto completo)


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