Conscientização pelo direito a uma comunicação mais democrática

O direito de comunicar é um dos temas que as organizações da sociedade civil consideram de fundamental importância para concretizar a sociedade do conhecimento, concentrando especial expectativa nas negociações que se travaram em Genebra. No entanto, os relatos e informações que chegaram a respeito do que foi negociado e acertado não foram animadores. São muitas as implicações envolvidas nos interesses de governantes e empresas, que colocam em xeque não só os interesses particulares de seus negócios e domínios, como também a própria essência de uma Cúpula Mundial capitaneada pela ONU que se pretenda tripartite.
Um primeiro aspecto a se salientar na diversidade de temas relacionada ao direito de comunicar é a capacidade de expressão por parte de todos os povos. Essa necessidade tão básica quanto respirar está relacionada à idéia de que a comunicação é um direito e como tal deve ser compreendida, pois diferente da respiração, onde o ar que respiramos não é privatizado, existem sérias limitações ao potencial comunicacional dos povos nos vários lugares do planeta.
Desde quando começaram a trabalhar nessa perspectiva, organizações da sociedade civil como a AMARC - Associação Mundial das Rádios Comunitárias, a APC - Associação para o Progresso das Comunicações, a ALAI - Agência Latino-americana de Informação e a WACC - World Association for Christian Communication, dentre outras, vêm buscando firmar junto à sociedade civil e expandir para a sociedade em geral a idéia de que, tal como qualquer outro direito, se entendemos a comunicação como tal, este precisa ser reivindicado e exercido através da expressão da diversidade social e cultural dos povos, da afirmação de meios próprios de comunicação e da quebra dos monopólios de empresas de comunicação, cultura e entretenimento.
Segundo Sean O Siochrú, coordenador da Campanha CRIS, apesar de tanto a declaração intergovernamental como a da sociedade civil assinalarem a idéia de que "a comunicação é um processo social fundamental, uma necessidade humana básica e a base de toda a organização social", a Declaração da Sociedade Civil é a que mais avança nas propostas de como podemos construir uma sociedade da informação e da comunicação que diga respeito às pessoas.
Outra temática não menos importante que está relacionada ao avanço na sociedade da informação e do conhecimento diz respeito à qualidade dos serviços implementados, sua devida fiscalização pelos órgãos competentes e sua mais do que necessária cobrança por parte da sociedade. Sendo que, para isso, torna-se necessário compreender que bens e serviços se adquirem e que benefícios se podem esperar deles, para que se possa efetivamente reclamar sua melhor utilização por parte de quem os produziu, distribuiu ou vendeu.
O movimento pela qualidade no consumo não deve ser tomado como fim em si mesmo, mas também não é por isso que deva ser relegado da pauta de reivindicações, pois tem um enorme papel de agregar pessoas que, como consumidoras, precisam satisfazer também seus desejos e necessidades, que nesse caso estão relacionadas também à consciência em relação aquilo que adquirem. E nessa se revela uma outra constatação que não é somente o fato de termos uma tecnologia disponível que faz com que tenhamos bens e serviços relacionados a ela à disposição, mas também a qualidade da oferta determina o quanto se consolida a sociedade da informação e do conhecimento num determinado contexto.
Diante dos grandes desafios que a sociedade civil terá pela frente, demanda-se igualmente também um plano de ação da sociedade civil com base em sua declaração de princípios tida como visionária por parte de seus signatários. Nesse sentido, colocamos aqui algumas pistas para seu delineamento, que visam contribuir para o debate e conspirar para que esse movimento se expanda e se materialize cada vez mais, cativando representantes de todos os povos e todos os setores:
- dar visibilidade a idéias positivas (a favor de determinados projetos ou processos, não contra ações governamentais ou privadas), que sejam resultados de consensos mínimos entre organizações da sociedade civil e possam ser de fácil assimilação tanto para o entendimento, quanto para o engajamento de mais e mais pessoas.
- partir de ações que convidem à reflexão e não de reflexões ou propostas que fundamentem práticas, pois as práticas têm a capacidade de engajar e envolver, sendo capazes de cativar para evidenciar melhor uma situação complexa, num primeiro momento, que é o entendimento da comunicação como um direito.
- avançar na visibilidade de metodologias de uso de meios de comunicação (rádio, TV, impressos, digitais e via Internet), que incorporem não só aspectos relacionados à linguagem desses meios, como também o conhecimento técnico para sua implementação e de desmistificação dos meios comerciais.
Essas contribuições ao debate são apenas idéias simples, mas por isso mesmo demandam especial atenção de seus articuladores, pois fariam enorme diferença na relação com a sociedade em geral, no que diz respeito à capacidade de apreensão de uma pauta tão ampla de valores a serem transformados e estabelecidos, ainda mais diante de uma mídia cada vez mais concentrada e profissional, que atinge corações e mentes desavisados com extrema e perversa facilidade.

por Prof. Adilson Cabral
Coordenador do Informativo SETE PONTOS

 
NESTA EDIÇÃO

Desenvolvimento Sustentável
Conscientização pelo direito a uma comunicação mais democrática
O direito de comunicar é um dos temas que as organizações da sociedade civil consideram de fundamental importância para concretizar a sociedade do conhecimento, concentrando especial expectativa nas negociações que se travaram em Genebra. No entanto, os relatos e informações que chegaram a respeito do que foi negociado e acertado não foram animadores. (texto completo)

Conhecimento Global de Domínio Público
Aterrissando em Genebra com os pés no Brasil

O posicionamento do governo brasileiro na Cúpula
Para o governo brasileiro, “a construção de uma Sociedade da Informação realmente inclusiva demanda o estabelecimento de um modelo multilateral, transparente e democrático de Governança da Internet, no qual todos os países tenham voz e capacidade de influência, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e com o princípio da igualdade jurídica dos Estados”.
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Educação para a Informática e a Internet
"Eu já sabia!" Diante da frustração anunciada, sociedade civil mostra seus potenciais em Genebra
Genebra foi palco de uma série de atividades da sociedade civil durante a Cúpula, como fruto da apropriação das tecnologias de informação e comunicação por parte da sociedade civil que se dispõe a atuar nesse setor ou utilizá-las apropriadamente para a otimização de suas atividades.
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Governança da Internet
Fazendo acontecer a sociedade da informação
a relação entre o governo brasileiro e a sociedade civil
Unir os três setores é algo que se vem mostrando cada vez mais difícil na CMSI, pois cada qual tem interesses particulares, ignorando, em muitos casos, o que realmente interessa para a população. (...) No caso do Brasil, também, não há uma relação estreita do governo com a sociedade civil na hora de organizar e de defender propostas para serem analisadas nas reuniões preparatórias ou nas da própria Cúpula.
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Brasil ingressa na era da Internet
Indicadores brasileiros não fazem feio nas últimas avaliações
Apesar da capacidade e do potencial de uso da Internet ainda causar muita polêmica entre estudiosos e técnicos, pelo alto custo dos equipamentos, o tipo e o preço de acesso à Internet, o Brasil entra em 2004 com a expectativa de subir no ranking dos países que têm como meta a inclusão digital. (texto completo)

Direitos Humanos
Muitas redes para tecer

desafios de hoje e sempre para a sociedade civil
Afiadas críticas se sucederam durante e após a Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, tanto por parte de representantes da sociedade civil, como da imprensa presente em Genebra ou que acompanharam o evento de seus próprios países.
(texto completo)


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