Muitas redes para tecer
desafios de hoje e sempre para a sociedade civil

Afiadas críticas se sucederam durante e após a Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, tanto por parte de representantes da sociedade civil, como da imprensa presente em Genebra ou que acompanharam o evento de seus próprios países. Oscilaram entre a constatação de que nada substancial foi acordado pela inexistência de consenso ou que a sociedade civil teve um importante papel justamente na capacidade de pautar a demanda de uma sociedade da informação a ser construída em bases sociais integradoras, representativas e colaborativas.
Revelaram, contudo, uma série de demandas a serem construídas, não só para que sejam apresentadas em Tunis, durante a segunda fase da Cúpula, em novembro de 2005, mas também a serem implementadas com a energia da mobilização que há dois anos vem tentando gerar consensos possíveis em torno de concepções e culturas das mais diferenciadas, que se encontram em cenários e perspectivas comuns quando diante de temáticas relacionadas à construção de uma sociedade da informação e do conhecimento que tenha efetivamente a qualidade de atender às necessidades humanas.
Temas como o controle descentralizado da Internet, o amplo uso de softwares livres ou ainda a criação de um fundo de solidariedade digital são propostas que evidenciam o acirramento de concepções distintas entre governos de países desenvolvidos e grandes empresas de um lado e de outro a sociedade civil e alguns governos mais democráticos e com visão mais ampla sobre a capacidade de utilização e aproveitamento da Internet - que na Cúpula originaram grupos de trabalho específicos para a formulação de uma pauta comum a ser futuramente acordada. Conforme a diretora executiva da Associação Latino-americana de Informação (ALAI), Sally Burch, "os princípios [presentes na declaração oficial] só têm sentido quando orientam políticas e ações e estes princípios não se refletem adequadamente em muitas das propostas da Cúpula".
A expectativa que de certa forma motivou e com certeza norteou a participação da sociedade civil no processo decisório para a definição dos documentos a serem firmados na Cúpula era a de que, a despeito de outras conferências realizadas pela ONU, esta teria a participação mais intensa e cooperativa dos três setores - privado, público e da sociedade civil - nas rotinas de definição dos documentos, gerando inclusive uma série de espaços temáticos de concertação - denominados Caucus - sobre vários temas relacionados à Cúpula. Embora tenha contribuído para trazer à realidade os participantes da sociedade civil, isso não chegou a ser um balde de água fria, pois mostrou que existem, efetivamente, claros e decisivos impasses que revelam ser o tema da comunicação tão importante quanto outros já consagrados na política de desenvolvimento econômico e social.
A Campanha CRIS - Communications Rights for the Information Society - que existe desde novembro de 2001, proporcionou uma articulação sem precedentes por parte da sociedade civil em todo o mundo. Representantes de várias organizações sociais de todos os continentes promoveram os mais intensos debates durante todo o período de 2002-3, amadurecendo o sentido da construção de uma sociedade do conhecimento e se fortalecendo no acompanhamento do processo preparatório para a Cúpula de Genebra.
Por mais que os governos e o setor privado apresentassem os mais evidentes indícios de que iriam somente fechar questão em torno de um documento que fosse morno ou não sairia, as organizações da sociedade civil iniciaram um debate tardio sobre a possibilidade de se retirar do processo e somente partiram para a realização de um documento paralelo durante o decorrer da Cúpula. Este documento (disponível em http://alainet.org/active/show_news.phtml?news_id=5145) propõe, em primeiro lugar, uma perspectiva visionária da sociedade da informação e teve um efeito especialmente demarcador de diferenças de concepção que norteou os documentos firmados. Um dos líderes da Campanha CRIS, Sean O Siochrú, afirma que "a Declaração da Sociedade Civil avança nas propostas de como podemos construir uma sociedade da informação e da comunicação que gire em torno das pessoas". O desafio, no entanto, é estabelecer consensos entre todos os setores.
Por essas e outras, as opiniões dos dirigentes da sociedade civil mais envolvidos na Cúpula tiveram esse misto de frustração pelo que poderiam conquistar e reconhecimento de um papel inédito da sociedade civil em se articular mundialmente e conseguir evidenciar os diferentes posicionamentos em jogo, fazendo pressentir que vários lances ainda estão para serem feitos até Tunis, mas que precisam fundamentalmente acontecer a partir de agora, com base numa plataforma comum de maior abrangência e conquistas materializadas.

por Prof. Adilson Cabral
Coordenador do Informativo SETE PONTOS

 
NESTA EDIÇÃO

Desenvolvimento Sustentável
Conscientização pelo direito a uma comunicação mais democrática
O direito de comunicar é um dos temas que as organizações da sociedade civil consideram de fundamental importância para concretizar a sociedade do conhecimento, concentrando especial expectativa nas negociações que se travaram em Genebra. No entanto, os relatos e informações que chegaram a respeito do que foi negociado e acertado não foram animadores. (texto completo)

Conhecimento Global de Domínio Público
Aterrissando em Genebra com os pés no Brasil

O posicionamento do governo brasileiro na Cúpula
Para o governo brasileiro, “a construção de uma Sociedade da Informação realmente inclusiva demanda o estabelecimento de um modelo multilateral, transparente e democrático de Governança da Internet, no qual todos os países tenham voz e capacidade de influência, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e com o princípio da igualdade jurídica dos Estados”.
(texto completo)

Educação para a Informática e a Internet
"Eu já sabia!" Diante da frustração anunciada, sociedade civil mostra seus potenciais em Genebra
Genebra foi palco de uma série de atividades da sociedade civil durante a Cúpula, como fruto da apropriação das tecnologias de informação e comunicação por parte da sociedade civil que se dispõe a atuar nesse setor ou utilizá-las apropriadamente para a otimização de suas atividades.
(texto completo)

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Governança da Internet
Fazendo acontecer a sociedade da informação
a relação entre o governo brasileiro e a sociedade civil
Unir os três setores é algo que se vem mostrando cada vez mais difícil na CMSI, pois cada qual tem interesses particulares, ignorando, em muitos casos, o que realmente interessa para a população. (...) No caso do Brasil, também, não há uma relação estreita do governo com a sociedade civil na hora de organizar e de defender propostas para serem analisadas nas reuniões preparatórias ou nas da própria Cúpula.
(texto completo)

Brasil ingressa na era da Internet
Indicadores brasileiros não fazem feio nas últimas avaliações
Apesar da capacidade e do potencial de uso da Internet ainda causar muita polêmica entre estudiosos e técnicos, pelo alto custo dos equipamentos, o tipo e o preço de acesso à Internet, o Brasil entra em 2004 com a expectativa de subir no ranking dos países que têm como meta a inclusão digital. (texto completo)

Direitos Humanos
Muitas redes para tecer

desafios de hoje e sempre para a sociedade civil
Afiadas críticas se sucederam durante e após a Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, tanto por parte de representantes da sociedade civil, como da imprensa presente em Genebra ou que acompanharam o evento de seus próprios países.
(texto completo)


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