| 4ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes
Fórum mundial sediado no Brasil discutiu temas como a
educação e a qualidade da mídia
Gabriella Ponte
6º período de jornalismo
A Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e
Adolescentes chega a sua 4ª edição, sendo realizada pela primeira vez
na América Latina. O evento aconteceu nos dias 19
a 23 de abril, no Rio de Janeiro, e teve como
tema "Mídia de Todos, Mídia para Todos". As cúpulas
anteriores foram sediadas na Austrália (1995),
Inglaterra (1998) e Grécia (2001). Essa cúpula é
incentivada pela World Summit on Media for Children
Foundation. Esta fundação se tornou o fórum
internacional mais importante sobre mídia voltada para
crianças e adolescentes.
O evento é um fórum, que conta com a presença de
profissionais da mídia do mundo inteiro, além de
educadores, estudantes, Ongs, governos e empresas. As
discussões sobre o tema aconteceram por meio de
conferências, workshops, mesas-redondas e painéis. A
CMMCA foi organizada pela Prefeitura do Rio de Janeiro,
junto com a MULTIRIO e a MIDIATIVA.
O objetivo do encontro foi analisar e discutir
sobre as produções realizadas para o público infanto-juvenil nos meios de comunicação, como televisão,
rádio, cinema e Internet, e também nos jogos
eletrônicos. Outro assunto relevante nestes debates era
o direito das crianças e dos adolescentes à mídia com
qualidade juntando informação e entretenimento. A favor
desta junção está Fabiana Gorenstein, representante
brasileira da organização sueca Save the Children: "É
preciso investir em uma mídia para crianças e
adolescentes que seja educativa, cultural e, ao mesmo
tempo, divertida, que desenvolva o entretenimento".
Regina de Assis, presidente da MULTIRIO e
chairperson da CMMCA explica que a mídia "deve ser
intercambiada, pesquisada, produzida e distribuída de
forma mais eqüitativa e que esteja voltada para todas
as crianças e adolescentes de todo o mundo. Traremos ao
debate a responsabilidade social da indústria, dos
governos e da sociedade por mídia de qualidade".
Os eixos do programa de cada dia de trabalho da
CMMCA foram divididos em subtemas. No primeiro dia foi "Um
mundo, muitas vozes", mostrando como a mídia representa
as identidades e as culturas de crianças e adolescentes
em um mundo globalizado; no segundo dia, "Mídia:
Mercado, Audiência e Valores", que debatia sobre o
interesse do mercado e o impacto da audiência no
financiamento, produção, licenciamento, marketing e
distribuição da mídia nos espaços públicos e privados;
no terceiro, "Desafios para a Qualidade, Alianças pela
Qualidade", que discutia sobre a qualidade da mídia
para este público sob olhar de quem consome, produz e
premia. Já no último dia, "Compromissos para o presente e
o futuro" deu fechamento ao evento, definindo os
compromissos a serem cumpridos para o financiamento,
produção e distribuição deste tipo de mídia.
Para um evento como este, foi indispensável a
presença de crianças e adolescentes do mundo inteiro,
debatendo e opinando sobre a qualidade da
mídia. Sendo que era necessário que estes conhecessem e analisassem os temas que seriam tratados na Cúpula antecipadamente. Dessa forma, os adolescentes brasileiros
que trabalham com mídia ou participam de algum projeto de protagonismo juvenil se reuniram nos dias 4 e 5
de outubro de 2003, no Encontro Preparatório do
Fórum dos Adolescentes da 4ª Cúpula Mundial de Mídia
para Crianças e Adolescentes.
As crianças e adolescentes participaram de workshops durante o
evento. Algumas crianças fizeram parte de um projeto feito
pelo Núcleo de Publicações da MULTIRIO chamado Conversa
de Criança. Vários trabalhos foram produzidos por
crianças da América Latina e da África, fotografados e
transformados em dois livros. O projeto foi apresentado
na Cúpula e os livros serão distribuídos em todas as
escolas da prefeitura do Rio de Janeiro.
A MULTIRIO organizou este ano oficinas para professores das escolas públicas do Rio para que aprendessem a criar rádios escolares, vídeos, jornais e blogs. A junção do ensino tradicional com os meio de comunicação transformam estes profissionais em educomunicadores, onde, além de atuar como professores, podem atuar também como produtores. Isso enriquecerá a grade pedagógica das escolas, fazendo com que as crianças e os adolescentes comecem a se tornar críticos da mídia e produtores também.
A australiana Patrícia Edgar, presidente da Fundação
de Cúpulas de Mídia para Crianças, afirma que os
programas voltados às crianças e adolescentes estão
submissos aos interesses do consumo, infelizmente. Ela
diz que é "uma pena, pois as produções deveriam tratar
de questões relacionadas à vida humana, ao processo de
crescimento e autoconhecimento das crianças. Os
produtores e realizadores de mídia deveriam, sim,
inspirar e enriquecer a vida dos jovens, não esquecendo
que a fantasia é importante, assim como o humor".
Néstor García Canclini, pesquisador argentino,
durante sua palestra na Cúpula, deu destaque as novas
tendências de consumo cultural de jovens e crianças e
falou sobre a conexão que a mídia tem que ter com a
escola. Ele acha que os meios de comunicação devem
manter este público informado com as notícias deste
mundo globalizado e que o papel da internet é
importante, tornando os indivíduos mais
cosmopolitas: "A educação formal necessita das telas
televisivas e dos computadores para se vincular com a
vida cotidiana dos estudantes, mas nem o controle
remoto nem o mouse organizam a diversidade cultural ou
desenvolvem opções de vida inteligente".
De acordo com o diretor de programação da MTV/Brasil, Zico Góes, a "qualidade
depende do relacionamento que você se propõe a ter com
seu público. (...) Pesquisas realizadas pela MTV
mostram algumas tendências, carências e interesses
gerais ou momentâneos dos jovens. Em geral, não dá para
saber exatamente o que o jovem quer, mas dá para saber
um pouco mais dele próprio. Sabemos, sim, que o jovem
não quer ser enganado. O jovem quer se ver na TV, o
jovem quer uma TV que seja dele, para ele, só dele".
Concordando com Góes, o jornalista e produtor
colombiano Germán Franco Diéz afirma que "os jovens
querem programas que falem do seu cotidiano de uma
forma real, sem glamour, sem fantasia. E também querem
participar deste processo de produção".
Ainda sobre a qualidade da mídia, tema
exaustivamente debatido na cúpula, Elaine Sperber,
diretora do setor de dramaturgia da Children BBC
(Inglaterra), é enfática ao dizer que "qualidade
significa tratar a audiência (o público) com o maior
respeito em termos de sofisticação de produção. Sem
inferiorizar, banalizar ou descuidar do conteúdo. As
pesquisas são importantes, mas não garantem a qualidade
da programação. É necessário enfatizar a imaginação, a
originalidade e a inovação".
Sobre os jogos eletrônicos, o consultor e produtor
Greg Childs, da BBC Reino Unido, enfatizou que
eles "estimulam a imaginação e aumentam a auto-estima".
Muito foi debatido sobre a violência que estes jogos
podem gerar. A declaração de Sunami Chan, proprietário
de 50 lanhouses no Brasil, foi incisiva sobre o
assunto: "Se você não dá espaço para a fantasia, dá
espaço para a agressividade".
A inclusão digital também foi um assunto a ser
comentado pelos participantes da CMMCA. Sannette Nayé,
diretora do Festival CineKid (Holanda), debateu sobre o
assunto, lembrando que "para o jovem ter um olhar
crítico sobre a mídia, primeiro é preciso incluí-lo".
Rodrigo Baggio, do Comitê para Democratização da
Informática (CDI), contou que alguns de seus alunos
conseguiram mudar o panorama da comunidade em que vivem.
Ao final do evento, foram entregues às autoridades
presentes duas cartas sobre os temas discutidos: a
Carta dos Adolescentes e a Carta do Rio. A subsecretária de Promoção dos
Direitos das Crianças e Adolescentes, Denise Paiva, e
a secretária municipal de Educação do Rio de Janeiro, Sonia Mograbi, receberam as cartas. Denise Paiva declarou ao receber a carta
que ela "chega em um momento de profundas inquietações
em relação às questões que este evento aborda. Os
adolescentes querem um mundo melhor. E para isso eles
precisam de uma mídia ética. Comprometo-me publicamente
a levar este material às autoridades competentes na
próxima reunião do Conselho da Criança e do
Adolescentes, que reúne dez ministérios". Já Sonia
Mograbi destacou a política educacional da
Prefeitura: "Desde 2001, incentivamos e estimulamos a
representatividade dos alunos das escolas da Prefeitura
do Rio de Janeiro. As vozes de vocês, jovens, têm que
ser ouvidas, respeitadas e acatadas".
Durante a 4ª edição da Cúpula foi escolhido o
continente que será sede da próxima edição. A África do
Sul foi a escolhida e o anúncio foi feito pela
presidente da Fundação Mundial de Cúpula de Mídia,
Patrícia Edgar. Aproveitando o momento, a presidente
declarou, emocionadamente, sua satisfação deste evento
ter sido sediado no Brasil: "Esta cúpula foi uma grande
alavanca para o movimento das cúpulas mundiais".
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