| Cientistas se preocupam com a extinção de línguas
A internet vai contribuir para a divulgação das línguas ou vai fazer desaparecer algumas delas?
Gabriella Ponte
6º período de jornalismo
Com o processo de globalização, que se desencadeou no século XX, verifica-se várias transformações. Traz, por exemplo, a necessidade de homogeneizar mercados, estabilizando moedas, para a livre circulação do capital financeiro, o que dificulta a harmonização dos múltiplos comportamentos e padrões culturais do planeta. Além disso, percebe-se, também, que com a hegemonia da língua inglesa, imposição feita pela economia mundial, na Internet este idioma predomina na maioria dos sites, vindo em seguida o chinês e o espanhol.
Em Seattle, durante um encontro da Associação
Americana para o Avanço da Ciência, lingüistas
apresentaram um quadro em estado de alerta:
aproximadamente 40% dos idiomas falados hoje no mundo
se extinguirão nos próximos 100 anos. Trata-se de uma
taxa de extinção de línguas que supera as estimativas
dos biólogos mais pessimistas quanto à extinção de
espécies. Segundo os cientistas, o fim de boa parte das
6.809 línguas faladas no planeta não só trará impactos
culturais como também conseqüências econômicas.
As principais causas para a extinção das línguas
são a dominação econômica e cultural e a explosão
demográfica. O lingüista Stephen Anderson, da
Universidade de Yale explica que "o império americano
fortalece o inglês e a explosão demográfica da China
torna o chinês o idioma mais falado do mundo como
primeira língua".
Um exemplo claro de que este fato atingirá a
economia são as tribos indígenas da África e da
Amazônia. Eles têm profundo conhecimento do nome das
plantas, dos rituais e dos animais de sua região.
Anderson exemplifica com relação às plantas: "uma
indústria farmacêutica que quiser pesquisar novos
princípios ativos nas florestas pode ter dificuldade em
encontrar alguma coisa sem a ajuda da população local".
Inicialmente, um dos propósitos da Internet é
difundir todas as culturas e, portanto, todas as
línguas. Pelo fato da rede não ser acessível a todas as
classes sociais, muitos projetos estão sendo feitos
para que governos, instituições e empresas promovam e
realizem o desenvolvimento da informática em todos os
povos. Assim, todos poderiam divulgar sua cultura e
principalmente sua língua de origem. Isto seria uma
forte medida a ser tomada para abolir a predomínio
do inglês sobre outras línguas, como vem acontecendo.
A extinção dos idiomas também é uma preocupação da
ONU, especificamente estudado através do Programa das
Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). "A
liberalização dos mercados do mundo é, talvez, a chave
do crescimento econômico nos países ricos e pobres, mas
isto não deve ser feito em detrimento das milhares de
culturas indígenas e de suas tradições", declarou o
diretor executivo do PNUMA, Klaus Toepfer.
A Unesco reuniu um grupo de "experts" para elaborar um
plano de salvamento dos idiomas. Uma das integrantes do
grupo é Colete Grinevald, pesquisadora do Laboratório
Dinâmica da Linguagem, da Universidade de Lyon. Sobre
as medidas a serem tomadas, ela diz que "é preciso
preservar o território das comunidades e proteger suas
terras, para que elas possam continuar a viver no seu
ambiente. Esse negócio de criar escolas e implantar
cursos bilíngües é folclore da Walt Disney". Para ela,é preciso lutar contra a aculturação e não deixar que
as tribos indígenas se tornem monolíngües, abandonando
sua cultura em prol daquela que seja dominante.
No Brasil, há comunidades que vêm conseguindo
preservar sua língua nativa através de pesquisas com
antigos falantes, como os ''caingangues'' e
os ''tuiúcas''. Kleber Gesteira Matos, coordenador-geral de apoio à escola indígena do Ministério da
Educação, diz que "onde as escolas encontram um
ambiente favorável, elas são, sim, eficientes no
revigoramento lingüístico, mas quem poderá dizer sobre
o futuro são os próprios índios".
A idéia defendida pela Unesco é de que "do ponto de
vista científico, a perda de línguas amazônicas é muito
mais importante, pois muitas são únicas, isoladas". A
professora Bruna Franchetto, do setor de lingüística do
Departamento de Antropologia Social do Museu Nacional
da UFRJ, fala da perda dos dialetos dessa região: "No
que diz respeito às línguas indígenas no Brasil, houve,
em 500 anos, uma perda de cerca de 85% delas (...) Não
há dúvida quanto às conseqüências da agonia e do
desaparecimento de uma língua. (...) Diversidades
lingüísticas e culturais podem ser equacionadas e,
nesse sentido, a perda lingüística é uma catástrofe
para a humanidade".
Para os próximos dois anos, a Unesco reservou US$
400 mil para organizarem encontros de especialistas e
representantes das regiões que estão mais ameaçadas.
Com este capital, será possível realizar projetos para
a preservação das línguas e elaborar um atlas dos
idiomas em perigo de extinção.
É inegável a atual tendência de que todos os povos
falem uma só língua. Está acontecendo um fenômeno de
desenvolvimento de patuás globalizados cujo paradigma é
sempre tomado ao inglês, esperanto da nova era. Alguns
países tentam criar o Esperanto, que tem base no
castelhano, como uma língua mundial única. Porém, esse
idioma seria inconcebível sem a influência de sua
língua "prima", o português, e também outras línguas
que surgirão em contextos históricos próximos como o
francês e o italiano.
Mas, apesar das adversidades, lingüistas de todo o
mundo foram unânimes em dizer que uma língua universal
como o Esperanto não seria possível. "Não corremos esse
risco. Mesmo que haja uma língua dominando o mundo, em
um período de dez anos ela sofrerá várias mudanças em
diferentes países e culturas, e uma outra língua
acabará sendo criada. A linguagem humana é bastante
dinâmica", explicou o profissional da área David
Lightfoot, da Universidade de Georgetown, em Washington.
Marcos Vinícius de Oliveira, graduado em letras e
bacharelado em semiologia, discorda ao achar que metade
das línguas desaparecerão; e sim as culturas de certos
povos. Ele acha que 100 anos é muito pouco e acha
provável que isso possa acontecer em 1000 anos. Sobre
as possíveis conseqüências deste fato à identidade
cultural ele explica que "haveria uma transformação
cultural, dos costumes tradicionais para uma nova
cultura, pois não existe língua sem cultura. Existiria,
ao mesmo tempo, as duas culturas: a tradicional e a
dominante. Aos poucos, esses povos perderiam a
identidade cultural, pois haveria uma transformação na
proposta de vida, psicológica, social e culturalmente".
Com enorme sentimento de patriotismo, muitos países
não aceitariam tal condição. Lembrando que a Internet é
basicamente uma rede norte-americana e de língua
predominantemente anglo-saxônica. Frente a essa
realidade e pelas próprias características da rede,
corre-se o risco de que neste mundo virtual se
consolide a língua inglesa e suas culturas, que não são
aquelas que se identificam com as dos outros povos.
Sobre isso, Marcos Vinícius fala que "a internet é
discriminatória, pois somente 30% da população mundial
possui a internet. E, essas pessoas, são da cultura
dominante, que falam inglês, japonês, espanhol,
português, francês e italiano. As outras pessoas não
possuem condições de adquirirem computador muito menos
internet". Desta maneira, seria necessário agregar uma
faceta adicional à brecha digital, no campo lingüístico
e cultural.
Continuando a falar da Internet sobre um caminho
possível para divulgar as línguas e culturas menores,
Marcos Vinícius acha que é uma boa saída. Mas, para
isso, afirma que seria necessário que a inclusão digital da
humanidade seja realizada o mais rápido possível.
Assim, a internet poderia divulgar os dialetos e
línguas menores. Além disso, argumenta que o fato de implantar
postos com Internet à disposição da população seria uma
boa solução, mas isso ainda tem muitos interesses
governamentais por trás que impedem que esses projetos
avancem.
"É possível evitar o desaparecimento destas culturas
e línguas com a ajuda da internet através da rapidez
tecnológica. Se daqui a 100 anos a maioria das pessoas
do mundo estiverem conectadas à rede, os povos
dominados poderão utilizar a rede como um meio de
divulgar suas línguas", conclui Marcos Vinícius.
A diversidade cultural e as diferentes línguas são
os recursos mais importantes para a comunicação da
humanidade e devem ser encorajadas para que sejam
mantidas. Os conhecimentos, tradições e costumes de
cada povo devem ser respeitados e a identidade étnica
precisa ser valorizada e fortalecida. A Internet pode
exercer um papel importante na divulgação das línguas
menores. Mas, para isso, é necessário que as pessoas
que falam tais línguas tomem a iniciativa de exigir
projetos de governos e Ongs para utilizar novas
tecnologias com o intuito de evitar o desaparecimento
delas. Todo idioma tem seu valor e isso é lembrado em
um comunicado do PNUMA que diz que "o desaparecimento
de uma língua e de seu contexto cultural equivale a
queimar um livro único sobre a natureza".
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