Microsoft busca se unir à sociedade civil no combate à exclusão digital

por Gabriella Ponte
6º período de jornalismo

Windows ou Linux? A briga entre os sistemas operacionais foi declarada desde o surgimento do Linux, em 1991, e está a cada dia mais acirrada no território brasileiro. O governo já decidiu estimular a adoção do software livre no país e tem a intenção de instalar o Linux em pelo menos cinco de seus ministérios até o fim do ano. Em contrapartida, a Microsoft está lançando no Brasil o “Unlimited Potential”, um programa mundial com o objetivo de incluir digitalmente a população. A empresa beneficiará algumas organizações e fundações para construir centros comunitários de treinamento a fim de capacitar pessoas. Mas, afinal de contas, será que, enfim, o reinado da Microsoft está sendo verdadeiramente ameaçado?
A mudança do Windows pelo Linux fará o governo economizar cerca de R$ 80 milhões por ano, dinheiro gasto em royalties com a Microsoft. O sistema operacional de Linus Benedict Torvalds é distribuído gratuitamente e pode ser aperfeiçoado por todos os seus usuários. Já o Windows é fabricado e modificado somente pela Microsoft, além do seu custo ser alto: a versão completa do XP sai por cerca de R$ 800.
Diante desse quadro, a maior empresa de informática, com o Unlimited Potential, pretende investir US$ 1 bilhão no período de cinco anos em todos os países para investir na luta contra a exclusão digital nas comunidades carentes, visando fortalecer sua imagem e investir em outros nichos de mercado.
Algumas ONGs e fundações serão beneficiadas com este projeto, como o Comitê para Democratização da Informática (CDI), o Instituto Ayrton Senna, o Projeto Aprendiz e a Fundação Bradesco.
Desde 1999, a Microsoft já investiu R$ 30 milhões em projetos sociais no país. A empresa doou softwares e equipamentos, ajudou na transformação de tecnologia e na capacitação profissional. “Conhecimentos de tecnologia são muito importantes para se conquistar um emprego atualmente. Mesmo assim, milhares de pessoas em todo o mundo ainda não sabem como usar um computador. Por meio do Unlimited Potential, estamos formando parcerias com entidades locais para oferecer treinamento e, assim, poder contribuir para a redução da exclusão digital”, explicou o presidente da Microsoft Brasil, Emílio Umeoka.
A Fundação Bradesco recebeu a doação de US$ 150 mil em dinheiro e licenças de software da subsidiária brasileira da Microsoft. De acordo com o gerente da área de Tecnologia de Informação (TI) e Tecnologia Educacional da Fundação Bradesco, Nivaldo Tadeu Marcusso, “a parceria com a Microsoft é continuidade do projeto da Caravana de Inclusão Social, dedicada a oferecer cursos e certificação de informática para a população carente em todo o Brasil. O projeto atual suportado pela Unlimited Potential da Microsoft, compreende a implantação de 15 Centros de Inclusão Digital (CIDs), dedicados a oferecer o acesso à tecnologia da informação e a inclusão social através do protagonismo juvenil e voluntariado, inclusive dos alunos da Fundação Bradesco”.
A Microsoft está firmando um acordo chamado “Aliança pela Educação” com Ministérios da Educação de vários países da América Latina. O fato de a empresa norte-americana estar querendo ajudar na inclusão digital com softwares privados está causando discussão entre a sociedade civil. A Microsoft está tentando expandir seu mercado dentro dos governos, já que alguns, como o do Brasil, estão adotando os softwares livres. Com relação ao uso de software livre, Marcusso afirma que “a Fundação Bradesco é neutra na adoção de plataformas, adotando aquela mais adequada ao projeto e aderência às parcerias que nós estamos desenvolvendo atualmente, no caso da Microsoft. Não destacamos nenhuma plataforma. Os projetos dos Centros de Inclusão social a serem instalados em todo o país, no caso 20 em 2004, terão o apoio além da Microsoft, da Cisco, da Lego, Discovery School, MIT Media Lab e NIIT da Índia”.
A Microsoft América Latina doou US$ 580,5 mil em dinheiro e US$ 400 mil em licenças de software ao CDI do Brasil, Chile, Argentina e México. Esta foi outra instituição a se mostrar neutra na adoção dos sistemas operacionais. No site do CDI Brasil, por exemplo, eles explicam que têm parceria tanto com a Microsoft quanto com o Linux. Seu objetivo, no entanto, não é enfocar a opção do sistema que irá adotar e sim colocar em prática projetos que ajudem a acabar com a exclusão digital.
A força do software livre, por ser gratuito, é tanta que grandes empresas como IBM, HP, Oracle e Google usam o Linux, além de rodar nos computadores da Bolsa de Valores de Nova York e nos do sistema de defesa virtual da Casa Branca. A Microsoft está começando a perceber a ameaça que o Linux está sendo para a empresa. Ela, que já tentou acordos com vários governos e não obteve bons resultados, agora tenta se aproximar da sociedade civil com o Unlimited Potential.

América Latina se mobiliza
Para ilustrar a discussão da sociedade civil sobre o assunto, no artigo “Donativos interesados: El riesgo de hipotecar la educación pública”, o doutor em ciência da informação Diego Levis e a jornalista Beatriz Busaniche questionam: “É aconselhável para o futuro da educação da Argentina utilizar softwares privados quando existem alternativas menos graves econômica e culturalmente? As conseqüências da iniciativa da Microsoft não só implicam em questões econômicas e da soberania cultural, mas também representam, que é muito mais significativo, uma verdadeira hipoteca sobre o futuro da educação argentina, que deveria responder pelo futuro de nosso país. O plano educativo da Microsoft propõe um modelo do uso do software baseado em marcas e não em conceitos. Isto faz com que os estudantes e docentes aceitem uma só forma de fazer as coisas e não conheçam as múltiplas opções que existem para o mesmo”.
O jornal Valor Online de 16 de junho de 2003 publicou as declarações do presidente da Microsoft Brasil, Emílio Umeoka, sobre o Linux: "é preciso conscientizar as pessoas de que software livre não é sinônimo de software grátis" e que, no final das contas, "o custo-benefício pode não ser tão interessante". Ele alega que a empresa de softwares tem adotado maior transparência e flexibilização no modelo de licenciamento de softwares e, "no caso do governo, há várias modalidades possíveis de negociação".
O governo defende as empresas nacionais. Emílio diz que é preciso definir claramente "o que é empresa nacional. (...) Hoje, a principal empresa de Linux do país tem em seu capital sócios estrangeiros", se referindo aos sócios da Conectiva, que são o ABN Amro e o fundo Latintech. Ele finaliza dizendo que "o importante é que haja competição e que haja clareza nas discussões".
Foi publicado no jornal Folha Online, de seis de janeiro de 2004, uma matéria sobre a nova campanha publicitária da Microsoft, intitulada "Get the facts" (Conheça os fatos). Esta é mais uma tentativa de convencer os consumidores de que o Windows tem uma relação custo/benefício melhor que a do Linux. A campanha se baseia em dizer que os custos de pessoal e treinamento do Windows são menores que os do Linux. A idéia é comparar os custos de cada sistema.
Assim, percebe-se que a disputa de mercado entre a Microsoft e o Linux ainda vai render por muito tempo. No entanto, é preciso conhecer os discursos de cada empresa e os verdadeiros fatos para que a sociedade civil tenha condições de escolher qual sistema operacional adotar em seus projetos.

 
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