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Brasil entra na era do desenvolvimento tecnológico
Projeto Giga beneficia sociedade brasileira
Paula Villela
jornalista
A primeira infra-estrutura de transmissão de dados de alta velocidade em longa distância promete ser uma grande ferramenta no desenvolvimento de pesquisas no Brasil. Lançada oficialmente no dia 07 de maio, após 1 ano e 4 meses de estudos, a Rede Experimental do Projeto Giga consiste na implantação de uma rede de grande velocidade para transmissão de dados, voz e imagem. O projeto é resultado de parceria da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) com a Fundação Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD).
Em termos comparativos, a Rede Experimental do Giga tipicamente dá acesso até 400 vezes mais rápido que a banda larga utilizada no momento, a ADSL (256 k). De acordo com o diretor do projeto Giga pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), Michael Stanton, a WDM (Wavelength Division Multiplexing) “é a tecnologia principal de ‘transmissão' utilizada no projeto, e permite juntar na mesma fibra dois ou mais sinais de luz carregando sinais de dados digitais”. Dessa forma, é como se juntassem na mesma fibra vários canais em feixes de luz de diferentes comprimentos de onda - cada um representando uma cor. Assim é possível separar dentro de uma fibra óptica diversos tráfegos como o de pesquisa, segurança pública, os de órgãos de governo e a Internet comercial.
Com 750 km de comprimento, a Rede Giga passa pelas cidades de Campinas, São Paulo, São José dos Campos, Cachoeira Paulista, Rio de Janeiro, Niterói e Petrópolis, podendo ser acessada apenas por pesquisadores das áreas de Redes e Telecomunicações de oito universidades e nove centros de pesquisas dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo (clique para ver o mapa). Para isso, dois tipos de modalidade de WDM são utilizados: nas redes metropolitanas de Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro, a CWDM (coarse WDM), que serve apenas para distâncias curtas – o equivalente a dezenas de quilômetros - e é mais barata; e a DWDM (Dense WDM), capaz de amplificar repetidamente os feixes de luz de 80 a 100 Km e alcançar longas distâncias. “Todos os equipamentos de CWDM como o de DWDM são fabricados no país, pela empresa Padtec de Campinas”, afirma Stanton.
Rede Experimental Giga aumenta a oferta de novas tecnologias
As instituições responsáveis pela viabilização do projeto são a RNP e o CPqD. que compartilham a direção executiva do projeto e a operação da rede, dividindo a coordenação de quatro áreas temáticas: redes ópticas; serviços experimentais de telecomunicações; protocolos e serviços de redes; e serviços e aplicações científicas. As duas primeiras estão a cargo do CPqD e, as duas últimas, da RNP. Nas duas primeiras estão os três subprojetos coordenados pelo CPqD e nas duas últimas estão os 32 subprojetos coordenados pela RNP. Eles têm financiamento previsto no orçamento total do Giga.
Na primeira fase, o orçamento previsto foi de R$ 54,8 milhões, pagos pelo Fundo de Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (FUNTELL), com o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos. Valor reduzido diante dos 750 Km de fibra óptica ociosas cedidos por cinco operadoras de telecomunicações (Embratel, Intelig, Telemar, Telefônica e Pegasus).
Segundo Stanton, 1/3 do investimento do FUNTTEL foi gasto na montagem da rede e 2/3 no sustento de atividades científicas. “Este dinheiro acaba em três anos. Entretanto, os equipamentos ficam, e, esperamos, poderão ser utilizados para manter um serviço de rede de grande capacidade”. Para isso, se faz necessário que o projeto saia do laboratório. Esse é um dos principais objetivos a ser alcançado com o Projeto Giga, além de contribuir para o desenvolvimento de tecnologias de redes e serviços de telecomunicações (voltadas para IP/WDM), utilização de redes de testes e validações de protótipos e serviços, e aumentar a oferta de novas tecnologias e serviços de telecomunicações para a sociedade brasileira. “Desta forma, o projeto estará capacitando empresas brasileiras em tecnologia competitiva e gerando valor econômico”, afirmou Eduardo Viana, do Centro de Informações da RNP.
Tanto Stanton quanto Viana fizeram questão de comparar o processo à introdução da Internet no Brasil. No início da Internet (por volta de 1989), o sistema, que foi introduzido em terras brasileiras pela RNP, era disponível apenas para a comunidade científica. Porém, na virada de 1994 para 1995, essa tecnologia de rede tornou-se disponível para o uso comercial (com.br).
A previsão é de que a extensão para a área comercial tenha início a partir de 2005, depois da fase experimental, onde serão desenvolvidas novas tecnologias. Fazendo parte do Projeto Giga, coordenado pela RNP, em maio deste ano, 39 propostas de subprojetos já haviam sido submetidas, tendo 33 delas aprovadas. A maioria destes subprojetos é das áreas de P&D em tecnologia de informação e comunicação (TICs). “Entretanto, também existem projetos de aplicação, onde o critério usado admite o uso da rede em casos onde sua capacidade viabilizará uma aplicação, de outra forma inviável. Entre os subprojetos de aplicação assim apoiados estão incluídos os das áreas de saúde, de computação de alto desempenho, da física de altas energias e da bioinformática”, afirmou Stanton.
A inauguração da Rede Experimental foi apenas um exemplo dos frutos que ela poderá gerar. A festa, ocorrida em Campinas, na sede do CPqD, foi transmitida em videoconferência para o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) do Rio de Janeiro e para o Instituto do Coração de São Paulo (InCor). Stanton imagina que a videotelefonia poderá se tornar corriqueira, mas essa é apenas umas das considerações mais óbvias. A esperança é que, a partir de uma rede tão veloz, será possível viabilizar projetos como: cirurgias à distância e discussão em tempo real de um diagnóstico entre médicos de diferentes Estados, na área de Medicina; ensino à distância, na Pedagogia; aceleração e maior confiabilidade de dados sobre a previsão do tempo, na Agroindústria; entre outros.
Rede pode ser ampliada para todos os Estados
Em países como Canadá, Japão, Coréia e França, projetos como o Giga já estão tão avançados que seus benefícios já foram estendidos para a comunidade acadêmica em geral. Para Stanton, “os países na vanguarda desta revolução de comunicações já estão alguns anos na nossa frente em explorar estes meios e por isto é essencial adquirirmos experiência própria nestas tecnologias para não distanciar muito dos padrões vigentes no resto do mundo”. Países como Polônia, Eslováquia, República Tcheca e Hungria já começaram a adotar essas tecnologias há dois anos. Na América Latina, somente o Brasil e o Chile possuem atividades nessa direção, ainda limitadas a redes experimentais.
Porém, projetos de expansão geográfica desta Rede Experimental já estão sendo colocados em prática aqui no Brasil. Os ministros de Ciência e Tecnologia e das Comunicações já se declararam favoráveis à extensão da rede para a Região Nordeste. Stanton contou que, no dia nove de junho, a Telemar assinou um Memorando de Entendimentos com a RNP e o CPqD, oferecendo a cessão de fibra óptica entre o Rio de Janeiro e Fortaleza, favorecendo, então, cidades como Salvador, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal e Fortaleza. Isso é possível devido à ociosidade de 85 a 90% das redes ópticas brasileiras. “Estamos esperançosos de conseguir outros apoios semelhantes, inclusive para outras regiões do país”, espera Michael Stanton.
Para o Brasil, o Projeto Giga significa um grande salto rumo ao desenvolvimento, seja na área de pesquisas - viabilizando e capacitando os pesquisadores brasileiros no desenvolvimento de projetos, solução de problemas, troca de informações e criação de produtos nacionais-, seja na área econômica, através da melhoria e criação de produtos brasileiros, e venda de novos serviços. Além disso, mesmo sem poder, por enquanto, ter acesso à Rede Experimental que vem sendo implementada, a população sai ganhando quando pode ser beneficiada pelas descobertas feitas a partir dessa ferramenta, como quando um médico troca informações com outro em tempo real, as possibilidades de aulas virtuais, a diminuição do analfabetismo digital e os meios de comunicação passarem a dispor de tecnologias mais amplas e melhor acessibilidade. |