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Telecentros: onde cultura rima com tecnologia
por Gabriella Ponte
7º período – Jornalismo
Os telecentros são locais de acesso público e gratuito a computadores conectados à internet de banda larga e com funcionários capacitados a ensinar informática a qualquer pessoa que queira utilizar os equipamentos. Eles são abertos à comunidade, que aprende desde o básico até o uso de softwares mais complexos, com atividades abertas à população como cursos e oficinas. O número de telecentros tem crescido a cada dia, ajudando na inclusão digital e social de comunidades de extrema pobreza, caracterizadas por altos índices de violência e exclusão social.
O trabalho de combate à desigualdade tecnológica tem sido motivado tanto por entidades da sociedade civil quanto pelo governo em várias cidades do país. Em São Paulo, por exemplo, a construção de telecentros tem sido intensa desde 2001. Muitos deles foram construídos em parceria com o Governo Eletrônico da Prefeitura Municipal de São Paulo. A Coordenadoria do Governo Eletrônico criou o projeto Plano de Inclusão Digital, conhecido também por e-cidadania, que consiste em implantar telecentros nas áreas mais carentes da cidade.
O primeiro telecentro foi construído em junho de 2001, na cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo. Atualmente, são 119 ao todo, atendendo cerca de 420 mil pessoas. De acordo com a assessora de imprensa Monica David,
em nome da Coordenadora do Governo
Eletrônico, Beatriz Tibiriçá, no início do projeto, em 2002, foi pensada uma “meta de mil telecentros. Depois foi repensada, e em função do orçamento foi planejada a instalação de 107 telecentros. A meta foi cumprida no final de 2003 e hoje são 119 pela cidade. Os locais foram escolhidos de acordo com o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), iniciando as instalações em lugares onde esses números fossem mais baixos”.
Telecentros com cultura
A Rede de Informação para o Terceiro Setor (RITS), junto com seus parceiros, também está implementando telecentros até na Amazônia, em parceria com o Projeto Saúde e Alegria, além das comunidades cobertas pelo programa Fome Zero. Há também participação no projeto promovido pelo Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar (MESA).
Na matéria “Inclusão digital deve ser instrumento de cidadania”, divulgada dia 29 de março no site da Vivo, a diretora de Informação e Comunicação da RITS, Graciela Selaimen, afirmou que a parceria da sociedade civil com o governo deveria se transformar em um modelo de política pública em nível nacional. Falou ainda de como as tecnologias de informação e comunicação (TICs) podem ajudar no exercício da cidadania.
As pessoas, através dos telecentros, podem participar de processos consultivos, acompanhar processos legislativos e participar de campanhas e ações decisórias pela internet: “O exercício da democracia e da cidadania é impossível sem informação e, nesse sentido, as TICs fazem uma diferença fundamental. Há espaços na Internet voltados para isso, e nosso trabalho diário nos dá provas de que isso é mais que verdadeiro”, enfatizou Selaimen.
Para entender melhor a parceria do Governo Eletrônico e da RITS, a assessora de imprensa da coordenadoria geral do Governo Eletrônico, Monica David, explica o papel de cada um: “A Rits colabora com toda parte de formatação do projeto, através treinamento de funcionários, capacitação e desenvolvimento de Software Livre (SL). Essa parceria surgiu, pois nós (Governo Eletrônico) tínhamos o projeto Inclusão Digital, e a RITS tinha todo o conhecimento para desenvolver o projeto. Essa união/parceria nos possibilitou servir de exemplo para outros projetos de Inclusão Digital”.
O foco do programa de inclusão digital não é profissionalização e sim cidadania. David mostra que os telecentros têm ajudado as pessoas não só a se aproximarem das TICs como também têm construído uma vida melhor para elas: “Quando se instala um telecentro, a comunidade acaba procurando por cursos de introdução a informática, mas depois a busca por outros cursos começa a ser muito mais freqüente. Por isso, cada telecentro acaba criando suas próprias oficinas. Hoje, temos desde oficinas de artesanato até concurso de dança. Essas oficinas partem da própria comunidade. Hoje, os telecentros são vistos pela população, não apenas como uma ‘escola de informática', mas se tornou um ponto de encontro, lazer e cultura”.
Conectando a Amazônia
O outro parceiro é o Projeto Saúde e Alegria, que nasceu há 15 anos a partir da idéia do médico Eugênio Scannavino que percebeu que deveria cuidar da saúde da população, além da educação, informação, nutrição e da organização comunitária. Este projeto, junto com a iniciativa da RITS, conseguiu construir dois telecentros comunitários: um deles atinge as comunidades de Maguari, São Domingos e Jamaraquá na Floresta Nacional dos Tapajós (Flona) e o outro atinge a comunidade de Suruacá, no Pará, às margens do Rio Tapajós. A proposta é que, além de ter atividades com computadores, os telecentros também devem oferecer rádio e jornal comunitários, danças, exposições, debates e outras manifestações culturais para gerar renda e incentivar o exercício da cidadania.
Foi divulgada no site da RITS, dia 26 de abril, uma entrevista com Kiki Mori, a coordenadora do projeto. Ela diz que, além da RITS, eles têm parceria com a rede Somos@Telecentros e, juntos, estão construindo a idéia de criar uma Rede de Inclusão Digital da Amazônia: “Eles têm uma realidade própria que ainda não está expressa na Internet de uma maneira muito vigorosa. (...) A gente está tentando montar essa rede de conteúdos produzidos pelos ribeirinhos e para eles, em conjunto com outras instituições. Vamos começar a fazer essa rede de contatos, a ver onde mais estão acontecendo experiências de inclusão digital. Hoje, não está acontecendo com a população, mas tem organizações e movimentos sociais que já produzem conteúdo e que a gente pode traduzir numa linguagem mais acessível”.
Todos os telecentros possuem o sistema operacional GNU/Linux, numa configuração chamada Sacix, baseada na distribuição Debian. David explica que isto fez com que o custo do projeto ficasse reduzido, “assim, tivemos a oportunidade de fazer com que um número maior de pessoas (em vários lugares da cidade) tivesse acesso aos Telecentros”. A assessora conta que o uso do SL foi um dos grandes problemas: “ Tivemos que provar que é possível ter um projeto como nosso funcionando com SL. Era um desafio e hoje temos um resultado positivo, a população aceitou e apreendeu a usar o SL, assim como as TICs. Acreditamos que o futuro seja livre”.
Ela ainda mostra como a combinação da participação das comunidades, as parcerias com empresas e organizações civis e a utilização do SL conseguem incentivar a prática da cidadania: “A utilização do SL possibilitou para nós, do poder público, fazer com que o projeto de Inclusão Digital tornasse cada vez mais real, conseguindo levar informação e tecnologia para muitas pessoas. (...) Com a possibilidade de ter acesso a TICs, a serviços prestados pelo poder público, os usuários passam a exercer sua cidadania, buscando e aprimorando seus conhecimentos, participando mais ativamente do seu direito como cidadão e colaborando para que sua comunidade desenvolva-se”.
Dados de eficiência
No site dos telecentros em São Paulo, eles disponibilizam, em números, os bons resultados deste projeto. Do total de computadores em cada telecentro, 75% deles são usados para os cursos oferecidos; os 25% restantes são de uso livre. O uso livre tem uma freqüência média de cinco mil pessoas por semana. Aqueles que já fizeram o curso ou já têm noções de informática, os telecentros oferecem oficinas de criação de sites, comunicação comunitária, arte digital, processamento de imagens, entre outros.
Com apenas três anos de vida, o projeto Plano de Inclusão Digital já conseguiu conquistar sua principal meta: incluir digitalmente moradores de comunidades carentes que atualmente já até sabem lidar com o SL. David explicou que “de mais de 430 mil usuários, cerca de 90 mil já fizeram cursos de informática”. Estes números traduzem a esperança de que a inclusão digital e social não são impossíveis e que elas podem também ajudar na formação cidadã da população. |