| Os
três pilares da inclusão digital
Nos
últimos anos, tem sido apregoado aos quatro cantos do Brasil
a necessidade de se fazer a inclusão digital para aqueles
indivíduos que não têm acesso às tecnologias
de informação e comunicação ou simplesmente
TIC’s, como são mais comumente conhecidas. Três
pilares formam um tripé fundamental para que a inclusão
digital aconteça: TIC’s, renda e educação.
Não é difícil vaticinar que sem qualquer um
desses pilares, não importa qual combinação
seja feita, qualquer ação está fadada ao insucesso.
Atualmente,
segundo o Mapa de Exclusão Digital divulgado no início
de Abril/2003 pela Fundação Getúlio Vargas
(FGV-RJ) juntamente com outras entidades, aproximadamente 12% dos
brasileiros têm computador em suas residências e pouco
mais de 8% encontram-se conectados à Internet. Até
quando continuará a inépcia do governo brasileiro?
(se é que ‘ele’ tem qualquer real intenção
de promover a inclusão digital).
As
TIC’s têm causado mudanças significativas em
toda a sociedade. No âmbito empresarial, as modificações
decorrentes das TIC’s têm:
-
propiciado ambiente competitivo às mais variadas instituições,
inclusive as não tradicionais;
- promovido
o declínio de custos de processamento;
- motivado
a erosão geográfica e de produtos;
- influenciado
o planejamento e redesenhado organizações.
As
TIC’s possibilitam a melhoria de qualidade em diversos aspectos
dos negócios. Pode-se ainda destacar a promoção
de produtos, bem como uso de novos canais de venda e distribuição,
possibilitando novas oportunidades de negócios. É
inegável as alternativas oferecidas.
Agora,
se mudarmos nosso foco de empresas e instituições
para indivíduos, é visível que a maioria da
população brasileira, isto é, aproximadamente
90%, encontra-se excluída do desfruto das tecnologias da
era digital. Para termos uma idéia da quantidade de excluídos,
basta responder a perguntas simples como, por exemplo: Quantos brasileiros
possuem computador pessoal em suas residências? Quantos possuem
linha telefônica? Até bem pouco tempo atrás,
era ínfima a quantidade de pessoas que tinha telefones em
suas residências. Tudo isso em razão da necessidade
que antes se tinha de comprar a linha telefônica. Anteriormente,
o indivíduo tinha de comprar uma linha e, além disso,
recebia ações da empresa que comercializava as linhas
telefônicas. Com a reformulação do sistema brasileiro
de telecomunicações, esse modelo antigo deixa de existir
e, hoje em dia, o cidadão, simplesmente, solicita a instalação
de uma linha e paga pela assinatura mensal e uso que faz da mesma.
Atualmente,
embora o brasileiro possa dispor desse recurso e facilidade, caso
esse indivíduo faça um uso modesto da linha telefônica
para ter acesso à Internet, além de algumas ligações
telefônicas ao longo do mês, tal uso resultará
numa conta telefônica com valor mensal entre R$ 40,00 e R$
50,00. Isto tudo considerando que ele tenha acesso a Internet através
de algum provedor gratuito, dentre vários existentes. Adicionalmente,
se o indivíduo quiser ter acesso à Internet, ele precisa
dispor de um computador pessoal o qual tem um custo de, aproximadamente,
R$ 1.300,00. Se o indivíduo optar por financiar a compra
do computador em 24 pagamentos, ele irá pagar uma prestação
com valor médio de R$ 95,00, resultando num custo total de
R$ 2.280,00 (o qual compreende aproximadamente 10 salários
mínimos).
A
exclusão sócio-econômica desencadeia a exclusão
digital, ao mesmo tempo que a exclusão digital aprofunda
a exclusão sócio-econômica. A inclusão
digital deveria ser fruto de uma política pública
com destinação orçamentária a fim de
que ações promovam a inclusão e equiparação
de oportunidades a todos os cidadãos. Neste contexto, é
preciso levar em conta indivíduos com baixa escolaridade,
baixa renda, com limitações físicas e idosos.
Uma ação prioritária deveria ser voltada às
crianças e jovens, pois constituem a próxima geração.
Um
parceiro importante à inclusão digital é a
educação. A inclusão digital deve ser parte
do processo de ensino de forma a promover a educação
continuada. Note que educação é um processo
e a inclusão digital é elemento essencial deste processo.
Embora a ação governamental seja de suma importância,
ela deve ter a participação de toda sociedade face
a necessidade premente que se tem de acesso a educação
e redistribuição de renda permitindo assim acesso
as TIC’s.
Ações
de inclusão digital devem estimular parcerias entre governos
(nas esferas federal, estadual e municipal), empresas privadas,
organizações não governamentais (ONGs), escolas
e universidades. Governos e empresas privadas devem atuar prioritariamente
na melhoria de renda, suporte à educação bem
como tornar disponíveis equipamentos à população.
Algumas ações que podem ser promovidas pelos governos
e empresas privadas incluem:
-
Disponibilizar acesso a terminais de computadores e correio eletrônico
a toda a população;
- Oferecer
tarifas reduzidas para uso dos sistemas de telecomunicações;
- Criar
mecanismos de isenção fiscal, sem muita burocracia,
para o recebimento de doações de computadores e equipamentos
de infra-estrutura.
Essas
ações per se não são suficientes. É
ainda necessário o desenvolvimento de redes públicas
que possibilitem a oferta de meios de produção e difusão
de conhecimento. As escolas e universidades constituem também
componentes essenciais à inclusão digital uma vez
que diversos protagonistas (professores, alunos, especialistas membros
da comunidade) atuam em conjunto para o processo de construção
de conhecimento. Note que os três pilares do tripé
da inclusão digital devem existir em conjunto para que ela
ocorra de fato. De nada adianta acesso às tecnologias e renda
se não houver acesso à educação. Isto
porque o indivíduo deixa de ter um mero papel ‘passivo’
de consumidor de informações, bens e serviços,
e então passa também a atuar como um produtor (de
conhecimentos, bens e serviços).
É
também imperativo que a inclusão digital esteja integrada
aos conteúdos curriculares e isto requer um redesenho do
projeto pedagógico e grade curricular atuais de ensino fundamental
e médio. É pré-requisito considerá-lo
também na formação de profissionais dos cursos
de Pedagogia, Licenciaturas e similares.
Os
indivíduos, que por condições de insuficiência
de renda, não têm como dispor de computador e linha
telefônica em casa, poderiam ter a exclusão atenuada,
caso tenham acesso através de empresas, escolas ou centro
de cidadãos. Esses recursos destinariam-se prioritariamente
àqueles que não têm acesso em suas residências.
Vale ressaltar que este tipo de solução tem natureza
paliativa. Adicionalmente, poderíamos ainda considerar o
uso do software livre em computadores o qual seria sem qualquer
custo. Entretanto, deve-se considerar a facilidade de operação,
suporte e manutenção existentes. Ademais, há
ainda demanda reprimida de usuários de sistemas de telecomunicações,
especificamente, o sistema de telefonia fixa que pode e precisa
ser expandido a fim de prover a população com esse
serviço básico, além de permitir que ela tenha
acesso à Internet.
O
Brasil tem condições de superar esse atraso e as vicissitudes
existentes. Todavia, para que isso de fato ocorra, é preciso
começar a fazê-lo hoje, ou melhor, ontem. Do contrário,
as gerações vindouras continuarão com elevado
índice de excluídos da era digital. A inclusão
digital tem um tripé que compreende acesso a educação,
renda e TIC’s. A ausência de qualquer um desses pilares
significa deixar quase 90% da população brasileira
permanecendo na condição de mera aspirante à
inclusão digital. Dentro deste contexto, considera-se que
a inclusão digital é necessária a fim de possibilitar
à toda a população, por exemplo, o usufruto
dos mais variados serviços prestados via Internet. Hoje em
dia, ter acesso à Internet significa acesso a um vasto banco
de informações e serviços. Este imenso repositório
de conteúdo e serviços merece e deve ser utilizado
por toda população brasileira. É preciso que
o governo, como principal protagonista, assuma o papel de coordenador
e atue em conjunto com sociedade civil organizada a fim de assegurar
o tripé da inclusão digital.
Antonio Mendes da Silva Filho
Professor do Departamento de Informática
da UEM - Universidade Estadual do Maringá
Publicado originalmente na Revista Espaço
Acadêmico
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