|
Um olhar sobre os grupos de mídia
intelectuais analisam sua influência no Fórum Social Mundial
por Eula Dantas Taveira Cabral
Editora do Informativo Eletrônico SETE PONTOS
A mídia sempre foi analisada por investigadores da área em instituições de pesquisa, porém, para discuti-la e divulgar suas estratégias às pessoas, o Fórum Nacional de Democratização da Comunicação (FNDC) promoveu nos dias 28 e 29 de janeiro de 2005 um encontro com os participantes do V Fórum Social Mundial (FSM). Evento esse que levou inúmeros participantes a buscarem entender por que o domínio da comunicação fica na mão de corporações e o que deve ser feito para mudar o cenário.
O evento foi dividido em três partes: a conferência “Conglomerados de mídia: de senhores da guerra a donos da cultura?”; o painel “Digitalização das comunicações: a contribuição da sociedade”; e a mesa de diálogo “Educação para a mídia: em busca de conceitos democráticos”. Porém, a mais concorrida foi a conferência. Sob a direção dos pesquisadores franco-belga Armand Mattelart e o colombiano Omar Rincon discutiu-se as estratégias dos grupos de comunicação no espaço global.
Para o pesquisador e escritor Armand Mattelart, os conglomerados se posicionam como um discurso de construção de nações, atores políticos da globalização. Grupos de comunicação que concentram várias empresas da área comunicacional, diversificando suas atividades e lançando seus tentáculos nos países que promovem a desregulamentação e abrem espaços para o domínio de poucos.
Essa entrada em lugares diferentes, ganhando espaço e a credibilidade dos políticos locais, além da invasão cultural, foram pontos destacados pelo pesquisador que verificou que desde os anos 70 a desregulamentação provocou a entrada de grupos de comunicação de países desenvolvidos nos que estão em desenvolvimento. Além disso, detectou que há desequilíbrio na disseminação dos produtos e informações nos locais onde chegam.
Repensar a nova ordem
A invasão e transmissão de informações dos conglomerados nos locais que não reagem a esse poderio fizeram com que fosse criada, no século passado, a Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação (NOMIC) tentando equilibrar os fluxos de comunicação, ou seja: que as notícias locais fossem valorizadas, muito mais que as estrangeiras, evitando erros quando divulgadas pelas agências de notícias internacionais em outros países. Porém, ainda hoje esse desequilíbrio mantém-se. Os jornais estrangeiros continuam distorcendo a imagem do Brasil mundialmente e algumas empresas de comunicação brasileiras dão mais valor às informações de outros países.
A falta de entendimento dos cidadãos em relação à realidade imposta pelos conglomerados resultou, nos anos 90, na globalização comunicacional e no enfrentamento cultural, como observou Mattelart. Dessa forma, com a possibilidade de chegar em vários lugares ao mesmo tempo, os grandes grupos de comunicação passaram a ditar o que devia ser visto, ouvido e lido pelas pessoas. Exemplo disso é o caso da Time Warner que com a aliança feita com a América Online levou a Internet a vários países com conteúdos “exclusivos”. Ou voltando-se para a realidade brasileira, como a empresa Universo Online do grupo Folha/Uol/Portugal Telecom que dita o que deve ser lido por seus internautas e leitores de jornal.
O risco da entrada e “manipulação” dos conglomerados de comunicação e a invasão cultural também foram analisados pelo pesquisador colombiano Omar Rincon que observou que a sociedade vem se tornando vítima da cultura midiática. Isso significa que a mídia, além de dominar os locais, passa a ser a principal produtora de símbolos e aspectos culturais. A cultura na mídia se reduz ao entretenimento.
A realidade é passada por uma janela como um espetáculo a ser apreciado. A guerra é mostrada como algo necessário e, ao mesmo tempo, natural. As pessoas que morrem são representadas como atores que atuam em filmes. O 11 de setembro de 2001 é comparado aos filmes de Hollywood, como o “Nova York sitiada”. As pessoas mortas no Iraque como um mal necessário para se chegar à paz. O homem, os lugares, a vida são mostrados como peças no jogo de xadrez onde é preciso habilidade para não perder no final. A cultura dos povos é ignorada, devendo ser modelada ao do dominador.
Para compreender os tentáculos da mídia
Como se verificou nas discussões do V FSM, os conglomerados passaram a ditar as ordens, a controlar os povos, em busca de poder e lucro. Mas, ao mesmo tempo, se levanta um grupo de indignados que não aceita continuar sendo manipulado, aceitando a imposição de oligopólios de mídia que entram no cenário internacional como o quarto poder que tenta superar os outros poderes que acabam ficando abaixo de seu domínio.
Reconhecer, assim, a realidade que vem sendo desenhada no cenário atual e reagir devem ser metas, gerando ação, de todos os povos. Pois, apesar de se saber que o século XXI abre todas as possibilidades para o domínio dos conglomerados de comunicação, não se deve admitir que o ser humano seja sufocado por empresários e políticos gananciosos e interessados em “dominar o mundo” e ganhar dinheiro à custa de vidas. É hora de todos ficarem em pé e construírem um mundo melhor.
|