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Lembranças para não esquecer: histórias da aventura de um FSM em Caracas
por Prof Adilson Cabral
Coordenador do Informativo Eletrônico SETE PONTOS
Nos corredores do Hotel Hilton, em Caracas, palco das principais conferências da edição do Fórum Social Mundial, pessoas se encontravam, planejavam suas agendas, encaminhavam decisões a serem tomadas nos encontros. Enfim, como a letra da clássica música, organizavam o movimento e orientavam o carnaval. As críticas, na mesma medida, também se tornavam repetitivas: como colocar à disposição um hotel daquele porte, contrastando com o mundo possível concebido nos encontros, reuniões e conferências do FSM?
Era essa a concepção que tinha em mente até ser abordado por uma senhora venezuelana acompanhada de uma criança, aparentemente sem vínculo com movimentos, organizações e toda aquela movimentação em torno do FSM, que queria apenas falar com o presidente. Ela me aborda, perguntando se o presidente iria estar lá, pois queria falar algo a ele. Disse a ela que sabia ter certeza da ida dele ao ginásio do Poliedro à tarde, mas que talvez pudesse haver uma surpresa. Mal sabia que viria a ser marcada uma reunião dele com 120 lideranças de movimentos sociais representativos no FSM para o horário, ao mesmo tempo em que, no Poliedro, uma orquestra e um corpo de dança típico da região encerravam o evento para um público que esperava algo mais animado e politizado, no qual suas palavras de ordem poderiam ter um melhor sentido.
Esperando surpresa, ela continuou e aproveitou para me perguntar sobre o que achava daquilo tudo ali, da situação da Venezuela. Tentando desenvolver o argumento que havia, sim, contrastes e muito a ser feito, ela me interrompeu com a mesma calma que fez as perguntas: as pessoas daqui nunca tiveram a oportunidade de entrar nesse teatro, ainda mais para ver algo que dizia respeito a elas, quanto mais no Hilton. É uma experiência muito rica, que somente pudemos vivê-la nesse momento. Há muita pobreza nas ruas, mas há disposição de mudar essa condição de várias décadas, coisa que não víamos antes.
Não sei bem se ela ia agradecer ao presidente ou pedir para que o FSM não acabasse levando isso embora, mas, com certeza, é outro modo de perceber o que estava acontecendo, que não deve deixar de ser considerado.
O papel do FSM
Também uma das críticas já comuns em relação ao FSM é a capacidade de se produzir e circular papel. Convocatórias, informativos e mesmo jornais bem elaborados são distribuídos aos montes ou aos poucos e não se consegue ficar imune a eles. A esse movimento costumo chamar de transferência de lixo para as bolsas que carrego em eventos como esse. E olhe que com o costume passei a ser mais seletivo: só pego o que realmente me interessa e diz respeito às minhas áreas de atuação, que não são poucas. Mesmo assim, não deixo de trazer mais de duas bolsas para casa a cada evento.
Acontece que num desses passeios pelos corredores do Hotel Hilton, estava lendo uma revista, para ver se a colocava ou não na minha bolsa já repleta de material, quando fui abordado pelo senhor que estava na banquinha: “o senhor veio fazer o quê?” Respondi que estava coordenando uma mesa sobre Economia Política de Comunicação. Então, me indagou: “quando será?”.
“Sábado pela manhã, na Universidade Central da Venezuela”, falei. “Bom...mas provavelmente eu não poderei ir. Então, você tem algo que possa ler a respeito da tua mesa?”, perguntou o homem. “Pois é...não tenho, mas prometo que te mando o artigo que escrevi para apresentar”, respondi. Ele me deu a revista e indicou seu email para que eu enviasse o artigo e essa foi a única coisa que pude oferecer em contrapartida à revista que peguei para lotar minha bolsa.
Para não esquecer
Chegar em Caracas era complicado depois que o elevado que garantia o acesso mais rápido havia caído. Na Universidade Central, um cartaz chamava para uma reunião do Comitê de apoio às vítimas do elevado, que já havia rapidamente se estabelecido. Além das vítimas do acidente em si, todos que chegavam eram vitimados pelo trânsito até seus alojamentos na capital: a viagem que demorava menos de 1 hora passou para uma média de 2h30 a 4 horas, que dependia das condições da estrada, do horário do trajeto e da temperatura ambiente.
O ônibus que acabei pegando – todos cedidos pela organização do FSM – saiu do aeroporto pouco depois de meia noite e chegou em algum lugar – que não pude compreender na hora – quase às 3h da manhã. Durante o trajeto, o ônibus parou algumas vezes e em outras fazia curvas bem sinuosas, que só pude compreender no trajeto de volta – mais de 3 horas de duração – no qual pude ver que a estrada às vezes tinha faixa para os carros nas duas direções, mas espaço para um só com uma certa folga. Com um belo visual e pessoas – moradias, comércio – pelo caminho, que deviam estar estranhando todo aquele movimento do Planeta FSM.
Embora já soubesse que a mídia corporativa havia noticiado – claro!, não trouxe o Chavito para casa, mas somente em foto. O boneco de Chaves é pouco maior que a nova versão do Ken e bem mais revolucionário. É parte integrante desse modo de lidar com aspectos midiáticos tão característico do governo bolivariano de Chavez. Evocando históricos revolucionários latino-americanos de ontem e hoje, adjetivando sua política de modo a associá-la com Simon Bolívar e se pautando em discursos eloqüentes que remetem aos de Fidel, não deixa de vislumbrar a esquerda emergente na América Latina como via de um só caminho, embora em diferentes momentos da trajetória.
E, sim, apesar do FSM estar acontecendo em plena semana de playoffs de seu Campeonato de Beisebol, entre os Leones de Maracay e os Tigres de Caracas, apesar da virada sensacional dos Leones, que ganharam a última no mesmo dia de encerramento do FSM, apesar de toda a festa na Plaza Venezuela que, simplesmente, interrompeu o trajeto para o hotel onde estava e lembrava uma comemoração de final de campeonato de futebol na Av. Paulista, eu consegui voltar de Caracas sem ainda entender nada desse estranho esporte chamado beisebol. Pelo menos, o FSM me pareceu bem mais claro!
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