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Comunicação no FSM Caracas: campanhas nas pontes entre redes
por Prof Adilson Cabral
Coordenador do Informativo Eletrônico SETE PONTOS
A sexta edição do Fórum Social Mundial, realizada de 24 a 29 de janeiro de 2006 em Caracas, Venezuela, foi marcada por uma peculiaridade que a tornou distinta da seqüência de fóruns anteriores: se a quinta edição teve o desafio de buscar caminhos para o agenciamento de rede de redes, o evento deste ano, com articulações tecidas e bem encaminhadas, culminou na aprovação do intitulado Chamamento da Assembléia de Movimentos Sociais, contendo quatro campanhas centrais a serem trabalhadas ao longo do ano de 2006, além de uma série de eixos de luta, resultantes da mobilização das tantas redes que construíram a diversidade de frentes desta última edição.
Contra um mundo que não nos pertence
As mobilizações internacionais contra a ocupação do Iraque, contra a conclusão da Rodada de Doha na OMC, contra a Cúpula do G-8 e contra a Cúpula do Banco Mundial e do FMI foram anunciadas como campanhas prioritárias pelo conjunto dos movimentos presentes no Fórum Social Mundial de Caracas. Embora ainda não sejam capazes de delinear características, traços e forças do outro mundo possível que orienta as mobilizações em curso, têm a capacidade de agregar diferentes frentes de ação, promovendo intercâmbios e, ao mesmo tempo, dando sentido a uma luta que, em última análise, é comum.
Iniciativas imperialistas renovadas por Estados que formam blocos de atuação a partir da incidência de corporações transnacionais são um grande entrave à construção de um outro mundo possível. Agem pela pressão a países mais vulneráveis do ponto de vista econômico, flexibilizando legislações pela imposição ou pela intervenção através de lobbies, contando com o apoio de parceiros locais públicos ou privados.
Trata-se de um cenário que transversaliza e coloca num mesmo patamar as campanhas elencadas como determinantes pelas organizações em torno do FSM. Reestabelece também um debate acerca das iniciativas imperialistas neste início de século, bem como leva a uma resposta a altura por parte dos movimentos sociais e organizações da sociedade civil que lutam numa perspectiva anti-imperialista.
Outras lutas foram firmadas no contexto do FSM, fazendo parte de uma plataforma de ações para além do evento: alerta contra negociações pela ALCA e tratados de livre comércio em geral; a defesa dos direitos dos povos indígenas, da soberania alimentar e da reforma agrária integral; apoios à Marcha Mundial de Mulheres, contra a privatização da saúde, do ensino e da energia; pelo encontro dos povos em defesa da vida e dos bens naturais; apoio à Campanha contra a mudança climática; pela desmilitarização das Américas; contra as bases militares norte-americanas; pela liberdade de 5 presos cubanos nos Estados Unidos; apoio às jornadas de solidariedade com o Haiti; pela autodeterminação das últimas colônias no continente americano e o boicote à Coca-Cola assassina.
Esses diferentes pontos de vista de uma mesma luta fortalecem a disposição de um novo modelo de Fórum, capaz de proporcionar a todos os participantes, articulados em lutas específicas, a compreensão de uma mesma luta comum, a ser compartilhada por todos, que se faz na interconexão, não somente no somatório das lutas específicas.
O futuro e seus desafios
Tal como na última edição, o FSM também terá desafios a superar. De certa forma foram colocados pelo primeiro discurso de Hugo Chavez aos participantes do evento no ginásio do Poliedro. Ciente da polêmica que estava para lançar, o presidente da Venezuela, como anfitrião do evento, clamou por um Fórum mais determinado na afirmação contra o imperialismo, firme em seus projetos como um ator mais amalgamado, capaz de articular a esquerda em torno de um programa de ações mais bem definido e coletivamente acordado. Segundo ele: o FSM tem importância grande demais para a ofensiva dos movimentos sociais, políticos, de governos e parlamentos, e seria nefasto permitir que se folclorize, que se converta em um evento folclórico e turístico de todos os anos.
Sua fala não repercutiu exatamente mal, já que, embora inserido na elaboração desta edição do FSM, Chavez nunca havia participado organicamente do evento. Falava como quem não faz parte do processo, embora sua visão do que pode vir a ser o FSM encontre ressonância em parte considerável do Comitê Organizador, que inclusive apoiou a ida do evento, na parte que cabia às Américas, para a cidade de Caracas, na Venezuela.
Sendo assim, trata-se de um debate que terá outras oportunidades para vir à tona, pois embora o FSM não aja como partido, já consegue vislumbrar seu outro mundo possível. Nesse contexto, a Comunicação, também assumida coletivamente uma das áreas de ação coletiva, não só terá uma importante contribuição, como passará a ser identificada para além de uma atividade a ser exercida democraticamente, mas assimilada como outras, vitimadas pelas práticas imperialistas, diante das quais cabe entendê-la como um direito e não uma mercadoria, assumindo a luta pela democratização da comunicação como um componente chave das lutas contra o neoliberalismo e o imperialismo e pela construção de uma nova sociedade. Isto implica articular e desenvolver meios próprios e solidários que construam cidadania, promover políticas que garantam a diversidade e o pluralismo dos meios de comunicação e preservem a informação e o conhecimento como bens públicos reivindicando o acesso e resistindo a sua privatização, tal como firmado no chamamento final dos movimentos sociais.
Calendário global de lutas
18 de março Jornada Internacional contra a Ocupação do Iraque
Maio Assembléia Geral da OMC Genebra, Suíça
Julho encontro do G-8 São Petersburgo, Rússia
Setembro reuniões anuais do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional nas sedes das instituições.
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