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Rádio comunitária no Brasil: entre a cruz e a forca
por Profª Eula D. Taveira Cabral
Editora do Informativo Eletrônico SETE PONTOS Defender os direitos dos cidadãos, promover a participação de todos, ouvir a comunidade são a razão da existência das rádios comunitárias no Brasil. Porém, com a repressão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e da polícia federal, os lobbies dos grandes empresários da mídia e o apoio dos políticos, o cenário brasileiro se tornou palco da quebra dos direitos humanos com prisões, humilhações e apreensões de equipamentos baseados em leis da época da ditadura militar e das telecomunicações. Além disso, para piorar a situação, estão sendo implantados modelos digitais de radiodifusão, sem consulta e conhecimento da sociedade civil, em busca do calar, definitivamente, a boca dos brasileiros que lutam pela radiodifusão comunitária.
Reação da sociedade civil – do nacional ao nacional
Reagir aos ataques da Anatel, da polícia federal, dos políticos e da perseguição constante da grande mídia pode-se até considerar algo difícil, porém, mesmo com um peso grande, desigual e injusto, as organizações e associações de rádios comunitárias não se cansam de mostrar à sociedade brasileira que cumprem as leis, protegem a comunidade e que estão sendo punidas sem razões justificáveis.
Em janeiro de 2005, a Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço), a Federação das Associações das Rádios Comunitárias do Rio de Janeiro (Farc), o Conselho Regional de Radiodifusão Comunitária (Conrad), a TV Comunitária do Distrito Federal, a Associação Mundial das Rádios Comunitárias (Amarc), a Associação Brasileira dos Canais Comunitários (Abccom), o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul, o Instituto de Estudos e Projetos em Comunicação e Cultura (Indecs), o Central de Mídia Independente (CMI) Distrito Federal, a Associação Americana de Juristas, o Acesso à Cidadania em Direitos Humanos e o Movimento ATACC, de Porto Alegre, lançaram a segunda edição do dossiê sobre a violência contra as rádios livres e comunitárias praticada pelo Governo Luís Inácio Lula da Silva, o “Querem calar a voz do povo II - a violência contra as rádios comunitárias no Brasil”.
No dossiê faz-se uma análise do Brasil a partir das mídias comunitária e comercial, legislação brasileira, direitos humanos, a posição do governo Lula e a violência e repressão cometidas pela Anatel e pela polícia federal. Além disso, evidenciam as denúncias e manifestos das rádios comunitárias até o ano de 2004. Dados, fatos, números e constatações que envergonham qualquer ser humano. Porém, mesmo sendo humilhados, presos e “roubados”, as organizações e associações de rádios comunitárias deixam claro, no documento, que vão lutar pelo direito e democratização da comunicação. “Quanto maior a repressão, maior nossa força e disposição em lutar pela democracia na comunicação” (dossiê “Querem calar a voz do povo II - a violência contra as rádios comunitárias no Brasil”, 2005, p.3 e 4).
Reação da sociedade civil – do local ao nacional
Diante de um retrato catastrófico, as rádios comunitárias brasileiras foram obrigadas a buscar apoio de fundações que passaram a auxiliá-las com advogados e juristas para evitar que percam seus direitos. Também estão sendo apoiadas por profissionais de outras áreas que, além de somar na luta, auxiliam os ouvintes. Exemplo disso é a participação de psicólogos nas programações.
Agora, percebe-se que falar, ouvir, reagir e saber lutar ganham mais força diante dos desafios impostos. A Federação das Associações das Rádios Comunitárias do Rio de Janeiro (Farc), por exemplo, realizou nos dias 24 e 25 de março de 2006 seu terceiro congresso estadual, estudando e analisando o cenário atual e como se posicionar diante da possibilidade do governo e dos empresários usarem a tecnologia digital para por um fim na radiodifusão comunitária. A mesa “Rádio e TV digital: onde estão as rádios e TVs comunitárias no dial?”, realizada no primeiro dia do evento da Farc, teve a participação de Noeli de Oliveira, do Conselho Regional de Psicologia (CRP), e de Adilson Cabral, da Universidade Federal Fluminense e do informativo eletrônico “Sete Pontos”.
Noeli de Oliveira deixou claro que as injustiças feitas à radiodifusão comunitária passaram a fazer parte da pauta de outras entidades nos âmbitos regional e nacional. No caso do CRP, criou um grupo de Direitos Humanos, tendo como ênfase a democratização da comunicação, realizando oficinas e organizando mesas para analisar a temática com os profissionais da área de Psicologia. Além disso, passaram a contribuir com as emissoras comunitárias, promovendo novos olhares e questionamentos dos ouvintes. “As propostas dos psicólogos são ouvir, perguntar, promover novas formas de comunicação e o protagonismo social, o saber comunitário”, enfatizou Oliveira.
Adilson Cabral mostrou o quadro da digitalização da comunicação no Brasil e a estratégia atual do governo e dos empresários da grande mídia: “substituir a repressão policial às rádios comunitárias pela repressão tecnológica”. Enfatizou a importância das emissoras se organizarem, tendo argumentos tecnológicos para incidir no foco político e propor um sistema de rádio digital. Também devem pautar a digitalização, exigir testes de DRM e chamar pesquisadores para pensar politicamente a situação.
Os radiodifusores comunitários, presentes no evento da Farc, ficaram surpreendidos diante de mais um desafio, ou seja, o processo da digitalização das comunicações, analisados por Cabral. Pois, muitos não tinham noção que os padrões americano (IBOC) e europeu (DRM) já estão sendo testados. No caso do IBOC, 13 rádios comerciais estão fazendo as experiências. O DRM, mesmo sem a autorização da Anatel, vem sendo testado pela Faculdade de Tecnologia da UNB em parceria com a Radiobrás. Testes que proporcionarão às emissoras que têm concessão quatro a seis canais e mais: isenção de impostos para adquirirem os equipamentos, graças ao Ministério das Comunicações.
Diante do novo cenário, os radiodifusores comunitários levantaram questionamentos sobre o futuro que vinha sendo traçado por seus “inimigos” e se dispuseram a reagir, buscando conhecer mais o assunto e levar à Brasília suas reivindicações.
A cruz ou a forca? Hora de decidir
Com o processo de digitalização da comunicação e apreensão policial dos equipamentos, e não tendo apoio do governo federal, os cidadãos envolvidos nas rádios comunitárias brasileiras não podem cruzar os braços e nem tapar os olhos para a realidade.
Mesmo não tendo sido chamadas nem consideradas para participarem dos testes dos modelos para as rádios digitais, a radiodifusão comunitária deve reivindicar sua participação e autorização de testes junto à Anatel, além do DRM como alternativa possível. Além disso, se organizar, buscar conhecimentos sobre a tecnologia digital, solicitar apoio do governo para adquirir equipamentos digitais, garantindo a transmissão digital, independente do modelo a ser implantado, se capacitar tecnicamente e exigir que a legislação leve em consideração a importância das rádios comunitárias.
A sociedade, também, deve auxiliar os radiodifusores comunitários, garantindo que os cidadãos tenham respeitados seus direitos em qualquer lugar do país e que a comunicação seja um direito de todos. Pois, rádio comunitária não derruba avião e se assim o fosse não haveriam armas para combater invasão de inimigos nos espaços aéreos, durante uma guerra. A verdade é que políticos usam o rádio como moeda de troca e a grande mídia como um veículo estratégico para “manipular” o povo e ganhar dinheiro. |