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TV digital e futebol brasileiro
: destino selado de forma equivocada?

por Profª. Eula D. Taveira Cabral
Editora do Informativo Eletrônico SETE PONTO

Dia 29 de junho de 2006, Presidente Lula decreta que o sistema de TV digital a ser implantado no Brasil será o japonês. Dia 01 de julho de 2006, Brasil perde as quartas de final para a França. Duas decisões são tomadas por dois homens que ignoraram os pedidos dos 180 milhões de brasileiros. Lula ignora a sociedade civil e dá atenção aos empresários da mídia. Parreira ignora os milhares de corações torcedores e se volta para os interesses dos empresários do futebol. Coincidência ou não, entre os interesses dos cidadãos brasileiros e do poderio empresarial, mais uma vez o povo é deixado de lado.

Decreto assinala rumo do país
Mesmo não jogando bem, brasileiro mantém sua fé e tenta acreditar. Seja no campo esportivo ou no político, a esperança ainda é a última que morre. No caso da TV digital, a sociedade civil vem se mobilizando desde o início da década de 90, uma vez que já em 1994 a Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) e a Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão e Telecomunicações (SET) passaram a realizar estudos da implantação no Brasil. Década em que o país sai da Era Itamar Franco (02/10/1992 – 01/01/1995) e vive sob o governo FHC (01/01/1995 – 01/01/2003). Época em que a seleção brasileira de futebol consegue ganhar a Copa do Mundo de 1994.
Com a vitória do governo de Lula para a presidência da República, acreditava-se que o povo teria vez e voz, que o monopólio dos empresários da mídia chegariam ao fim, que a democratização da comunicação seria algo possível. Lula ganha, mas nada muda. Em 2003 o governo institui oficialmente o Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD), chama as universidades, investe R$65 milhões, sendo R$15 para o CPQD e R$50 milhões para os consórcios das universidades. Testes são feitos, equipamentos e tecnologias adequadas para o país – um sistema forte, adequado, com capacidade de ser implantado no país e até em seus vizinhos da América Latina. Porém, mesmo sendo o ideal, os interesses empresariais prevalecem a razão.
Em 2005, depois ficar sob o jugo do Congresso e do Senado, governo federal muda os ministérios e coloca nas Comunicações o ex-funcionário da Globo e político do PMDB, Hélio Costa. O homem que não estava preocupado em atender os pedidos do povo, apenas divulgar suas misérias em reportagens televisivas. O homem ligado a um grande grupo de comunicação e já com suas emissoras encaminhadas, segue o passo-a-passo dado pelos empresários da mídia: levar o governo federal a aprovar o sistema japonês, uma vez que este manteria e aumentaria o poder dos grupos de mídia.
Ao mesmo tempo, a seleção de futebol brasileira, formada por estrelas mundiais e individuais, sob o comando de um líder mais preocupado com os interesses empresarias, atendendo os desejos dos patrocinadores, de forma desleixada, deixa o jogo continuar sem técnica, sem tática nem estratégia. Ganhando ou não, a decepção é só do povo. Os jogadores saem ilesos e o treinador não fica na mão. A ordem é: “bola frente. Daqui há quatro anos tentamos mais uma vez”. Ou, então, para manter a audiência da Rede Globo, enfatiza-se que o Brasil continua na Copa, mas, agora, não com uma seleção, mas com um treinador brasileiro que prepara uma seleção européia: Luiz Felipe Scolari (técnico da seleção portuguesa).
Mesmo esperando uma derrota no futebol, pois, tinha-se certeza que, no rumo em que a seleção brasileira estava sendo levada, não chegaria à final, o governo federal ignora a proposta do sistema europeu, não leva em consideração as solicitações da sociedade civil e os resultados “totalmente positivos e concretos para o país” das pesquisas do SBTVD. Sob o comando do ministério das Comunicações, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o Decreto 5.820/2006 que implanta a TV digital no Brasil, tendo como base o sistema japonês (ISDB-T).
Documento que se apresenta com falhas, não deixando claro, por exemplo, se a sociedade civil poderá participar do Fórum do SBTVD-T; se será possível incluir a sociedade digitalmente; como será a concessão de canais; transição do sistema analógico para o digital de emissoras irregulares; dentre outras.

E agora, José?
“A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora, você?” (Carlos Drummond de Andrade). Tal como o poeta questionou é hora de se evitar o comodismo, acordar para o mundo e reagir.
O Presidente Lula decretou o sistema de TV digital que será implantado no Brasil, mesmo não atendendo a sociedade civil. O técnico da seleção brasileira de futebol, Carlos Alberto Parreira, não ouviu as reivindicações do povo. E o Brasil perdeu duas vezes: no campo midiático e no esportivo. Porém, perdeu-se uma batalha, mas, não a guerra.
É hora de conhecer mais as Leis, tecnologias, possibilidades... de se planejar, fazer estratégias, buscar o caminho certo e somar com todos os que querem o melhor para o país. Tem muito que se fazer. Mas, é certo: o brasileiro só ganhará a guerra se estiver unido com seus pares, reivindicando e batalhando para ganhar.

Mais informações
Decreto 5.820/2006
- http://legislacao.planalto.gov.br/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/DEC%205.8202006?OpenDocument&AutoFramed

 

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