Afastando pelo contato
interface pouco amigável também promove exclusão digital

por Monique Strunkis
5° período - Jornalismo

Os profissionais e especialistas de determinadas áreas se comunicam por meio de uma linguagem própria, quase um código, que os fazem demonstrar intimidade com suas atividades. Na informática isso não poderia ser diferente, mas o problema é que não só os especialistas têm acesso a informática, mas uma gama muito ampla e heterogênea de pessoas precisam deste instrumento. Anúncios, artigos de revistas e a própria interface de alguns programas, sistemas operacionais e sites parecem codificados. Mais parecem uma sopa de letras para o usuário médio, o que acaba inibindo a participação do público em geral, que desiste de utilizar alguns programas de computador e a Internet. Isto se traduz num problema, principalmente porque se torna um fator de exclusão digital.
"Já perdi as contas de quantas vezes tentei aprender a navegar na Internet, mas a maioria dos sites são muito complicados. Eu acabo desistindo. Meu acesso se restringe a entrar no banco", confidenciou Nelson Cadó, 64 anos.

As interfaces, em seu sentido mais simples, são os softwares que dão forma à interação entre o usuário e o computador. Atuam como uma espécie de tradutor, mediando as duas partes. Como o computador nada mais faz do que manipular zeros e uns, é este o instrumento responsável por transformar o código numa linguagem que o usuário compreenda.
Para o criador de sites e programas, Eduardo Felipe, de 23 anos, o desenvolvimento de interfaces complicadas deveria ser evitado por programadores e webdesigners: "Numa época em que se fala muito de democratização da informática é incompreensível a utilização de interfaces não-amigáveis, ou seja, de difícil utilização. Para se chegar a todos os usuários, é preciso utilizar uma linguagem mais acessível!"
A interface é uma parte fundamental de um software, pois é o que fica visível para o usuário, por onde ele se comunica para realizar suas tarefas. Ela pode se tornar uma fonte de motivação e até, dependendo de suas características, uma grande ferramenta para o usuário, mas, se mal projetada, pode se transformar em um motivo para rejeição de um sistema.
"Se eu não fosse uma pessoa muito persistente já tinha desistido do meu blog! Toda vez que tento fazer uma mudança, sofro! Eu estava até pensando em criar uma homepage, mas já tirei essa idéia da cabeça. Mexer com HTML é muito complicado", disse a estudante Luana Souza, 21 anos.
As interfaces atuais têm como objetivo fornecer uma interação pessoa-computador o mais "amigável" possível. Dessa forma, ela deve ser fácil de ser usada pelo usuário. Na Internet, o cuidado no desenvolvimento de sites, recursos e serviços deve ser maior. A interface, neste caso, influencia na forma de como e quando o usuário vai navegar, determina como ele vai localizar e obter informações. O desenvolvimento de sites e recursos que requeiram uma estrutura muito sofisticada para serem visualizados como programas específicos e configurações avançadas pode inibir o acesso a informação.
"É preciso muito cautela ao desenvolver um site de conteúdo popular, por exemplo. Se o usuário encontrar muita dificuldade em acessar uma página, ele desiste! É importante notar também que uma parte da informação pode ficar perdida", diz Eduardo Felipe.
Ele explica que a média dos brasileiros que possuem computador em casa, têm PCs simples, com poucos recursos e conexão discada à Internet, que normalmente é lenta.
"Tenho certeza que não aproveito nem 50% do conteúdo disponível na Internet. A minha conexão é lenta e cara. Volta e meia a transmissão de dados é interrompida e, para completar, a maioria dos sites que acesso é muito pesado para aparecer na tela", conclui Luana Souza.

 
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