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complexa implantação da TV digital no Brasil
Poucas tecnologias foram tão aguardadas nos ambientes mundiais
de consumo como a TV Digital. Em uma primeira instância, seria
a tão prometida convergência entre duas das mais fantásticas
invenções do homem: a televisão e o computador.
Um super terminal de lazer e serviços on line e interativo.
Sob esta ótica, o novo produto representaria uma milionária
reserva de mercado e de lucro. Mas não foi o que ocorreu.
A implantação mundial da TV Digital pode ser considerada
um case contemporâneo de fracasso comercial.
Presenciei o lançamento da TV Digital em 1996 na MIP TV em
Cannes, até hoje a maior feira mundial de produção
e programação de televisão. Na época
fomos informados da revolução tecnológica que
o novo produto representaria. Um protótipo nos foi apresentado
em um luxuoso stand de uma TV japonesa em parceria com a Sony. A
informática e a Internet estavam engatinhando no Brasil e
no mundo. De lá para cá quase nada mudou em relação
à TV Digital. Nos países onde se desenvolveram formatos
e padrões próprios, o usuário não transformou
a empolgação tecnológica em vendas. Pelo contrário,
muito se investiu nos últimos anos e, até agora, pouco
se colheu. E o poderoso e fechado clube da indústria digital
odeia não lucrar.
Este conflito na viabilização de um produto com enorme
potencial mercadológico começa agora a ser analisado
e compreendido. Os problemas surgiram junto com as primeiras idéias
de solução, ao se imaginar que bastaria escolher entre
um dos três padrões existentes: americano (ATSC), europeu
(DVB) ou japonês (ISDB). No Brasil, os estudos para implantação
da TV Digital foram conduzidos pela Anatel e CPqD, ligados ao Governo
federal. E pela SET/Abert, entidade representativa das empresas
de comunicação. No final do governo Fernando Henrique
Cardoso, o Ministério das Comunicações já
sentenciava que não havia consenso em relação
ao assunto: “a penetração da TV Digital está
menor que a esperada nos EUA e na Europa. Porque nós, brasileiros,
devemos acelerar esta decisão?”, afirmou em outubro
de 2002 o ministro Juarez Quadros. Politicamente, a decisão
sobre formatos e legislação foi repassada para o novo
governo.
De fato, as plataformas existentes de TV Digital representam os
interesses de grupos privados internacionais apoiados por forte
lobby dos seus governantes. São padrões técnicos
desenvolvidos para atender mercados próprios que não
estão obtendo sucesso nos países de origem. Nos Estados
Unidos, existem mais transmissores digitais que receptores. Na Inglaterra,
a emissora de TV Digital ITV fechou as portas em maio deste ano.
E no Japão, a transmissão digital pelo ar ainda não
começou e a por satélite é um fracasso comercial.
A aplicação dos sistemas existentes, o mercado potencial
de equipamentos, a consequente prestação de serviços,
a geração de uma nova infra-estrutura industrial,
os compromissos de isonomia e reciprocidade tecnológica e
a expectativa dos usuários brasileiros em relação
à TV Digital são os pontos-chave da discussão
sobre que sistema deve ser adotado em nosso País.
Uma primeira pergunta deve ser feita: quem vai pagar a conta da
implantação da TV Digital no Brasil? Inicialmente
as emissoras de televisão, que terão que investir
U$ 1,7 bilhão em dez anos destinados à substituição
de transmissores e antenas, equipamentos de gravação
e edição bem como recursos técnicos e de produção
oriundos da oferta de novos serviços. Esta é a opinião
dos grupos empresariais de comunicação e da indústria
de equipamentos e de aparelhos receptores. Mas não é
o que pensam representantes de entidades e associações
ligadas à sociedade civil. E muito menos o Governo Federal,
que já se posicionou pela adoção de um padrão
nacional de TV Digital, que evite dependência tecnológica
com o pagamento de royalties e licenças e que permita o desenvolvimento
da indústria tecnológica nacional através da
pesquisa e desenvolvimento voltados para a fabricação
de equipamentos e prestação de serviços técnicos.
O documento que oficializa a posição governamental,
chamado Política Para Adoção de Tecnologia
de TV Digital no Brasil, foi entregue pelo Ministério das
Comunicações ao Presidente Lula no início de
abril.
O Governo entende que a conta da implantação da TV
Digital no Brasil será paga pelos usuários. São
mais de 60 milhões de aparelhos de televisão que deverão
ser substituídos ou adaptados com unidades conversoras (Set
Top Box), para compatibilizar a recepção digital com
aparelhos analógicos. Um mercado potencial de U$ 10 bilhões.
Neste sentido, a política governamental determina objetivos
para a TV Digital brasileira. Ela deve ser aberta, livre e gratuita
para o usuário final na modalidade exclusiva de radiodifusão.
Deve oferecer interatividade ao menor custo de produção
de equipamentos, programas e serviços. E deve permitir a
pluralidade nos conteúdos das programações.
O documento entregue à Casa Civil sugere ainda a promoção
da inclusão digital, o desenvolvimento de tecnologias brasileiras,
a otimização do uso do espectro, a contribuição
para a convergência tecnológica e o desenvolvimento
de um sistema que atenda às necessidades sociais e econômicas
dos outros países da América Latina.
Ao assumir publicamente este posicionamento, o Brasil toma a dianteira
em um processo arrojado de gestão pública sobre a
área tecnológica. Principalmente ao combinar esta
posição à decisão já tomada de
apoiar a implementação de recursos de plataformas
e softwares livres para a estrutura administrativa governamental.
Hoje, dividimos com a China, Índia, Rússia e outros
países, a vanguarda na pesquisa de formatos e padrões
digitais próprios bem como a adoção de programas
não proprietários na administração pública.
A implantação de um padrão brasileiro de TV
Digital vai incentivar a criação da infra-estrutura
necessária de softwares e hardwares, acelerando de forma
diferenciada o desenvolvimento da indústria de tecnologia
no Brasil.
As autoridades responsáveis pela definição
de políticas públicas federais na área tecnológica
devem aproveitar este momento para promover um amplo debate sobre
a diversificação de conteúdos na TV Digital.
Em uma população de analfabetos tecnológicos
como a nossa, menor importância terá a sofistificação
na qualidade de imagem e som ou na interatividade de serviços
que a possibilidade de multiplicar o alcance de canais e opções
de programação. A quase totalidade dos telespectadores
nunca teve como usufruir as vantagens da TV por assinatura.
Para os brasileiros das classes C, D e E acessar centenas de canais
através dos seus próprios aparelhos de televisão
analógicos adaptados aos conversores set top box interessa
muito mais que a possibilidade de abrir e-mails ou fazer compras
pela TV. O telespectador não tem o mesmo perfil do usuário
do PC. E a TV Digital terá que refletir sobre como envolver
as pessoas com seus novos serviços e como não ofuscar
o bem sucedido mercado do entretenimento.
Fundamental para a indústria, para o setor público
e para a sociedade é a compreensão que em nosso País
o computador vive um estágio mercadológico muito diferente
da televisão. Estima-se que existam hoje no País cerca
de 16 milhões de computadores. Não se sabe quantos
estariam nas residências. No entanto, contamos com mais de
60 milhões de aparelhos de TV instalados dentro das casas
e em todo tipo de lugar. O debate para viabilizar a TV Digital no
Brasil terá, portanto, muito mais elementos ligados à
satisfação das demandas da mídia televisiva
que os da conectividade e interatividade.
Governo e sociedade deveriam aproveitar esta oportunidade de transformação
tecnológica para finalmente criar um mercado de televisão
plural e democrático, que incentive as produções
audiovisuais em todas as regiões e afirme nosso País
como pólo soberano de criação cultural e intelectual.
A implantação da TV Digital deve permitir o surgimento
de uma nova televisão. E não, apenas, de um novo eletrodoméstico.
Roberto
Andrade
Jornalista e aluno do curso de Pós-graduação
Lato Sensu
em Jornalismo Digital da Universidade Estácio de Sá
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