| Ser
usuário não é crime
Esse
debate não tem a ver com polêmicas não menos
importantes, existentes em outros setores da sociedade. Nossa preocupação
é perceber a necessidade em entender e definir o que representa
ser usuário da Internet, tanto por parte de institutos de
pesquisa que levantam o número de pessoas que a acessam,
como do ponto de vista das reivindicações da sociedade
civil em relação à ampla implementação
da tecnologia digital para a sociedade.
As pesquisas que se propõem a contar o número de internautas
no Brasil partem de metodologias diferenciadas, permitindo uma série
de usos e causando uma série de confusões para quem
delas se utiliza. A mais recente pesquisa que se tem notícia
foi divulgada pela Fundação Getúlio Vargas
em abril deste ano e aponta mais de 26 milhões de "incluídos
digitais". A Nielsen NetRatings, no entanto, chega a quase
14 milhões de internautas no Brasil, acrescentando mais lenha
no debate sobre estatísticas que possam revelar a real dimensão
da utilização da Internet no Brasil. Outros institutos,
tais como o Ibope eRatings, também oscilam entre 8 e 15%
da população o número de usuários, levando
em conta fatores tais como a utilzação de provedores
de acesso, a propriedade de computadores ou mesmo o acesso através
de outros lugares que não o doméstico (casa, trabalho
etc).
O posicionamento e o desenvolvimento de muitas pesquisas e a declaração
de muitos estudiosos ou profissionais que são afetados de
modo direto ou indireto pelos índices da Internet no Brasil
contribuem para a confusão dos dados e conclusões
de impacto social e político. Afinal, é possível
dizer que a Internet não pegou no Brasil a partir dos índices
de internautas?
A
maior dificuldade para estabelecer esses números, que, por
conseqüência, chegam a resultados tão díspares
quanto preocupantes, é a definição do que seria
ser usuário na Internet: se definimos esse público
como simplesmente a população que acessa a Internet,
chegamos a um resultado muito mais extenso, mas se partimos da idéia
de que ser usuário está ligado à idéia
de ter computador com acesso à Internet em casa, então
o número final de usuários é bem mais restrito
e modesto.
Podemos entender, portanto, que existem diferentes concepções
de usuários que interferem no desenvolvimento de metodologias
de mensuração. A doméstica, relacionada à
utilização da Internet que envolve a propriedade de
computadores e acesso à Internet; a geral, que mensura o
aproveitamento da Internet por parte dos usuários a despeito
da propriedade dos equipamentos e serviços que permitem o
acesso e, por fim, a tecnológica, que diz respeito ao real
aproveitamento dos recursos e serviços que a Web e a Internet
em geral possibilitam.
Esta última nos leva a números mais restritos de usuários,
mas, por outro lado, revela dados de efetiva inclusão digital
pela qualidade de utilização de um determinado público.
Assim sabemos o tempo que os usuários disponibilizam na Rede,
quantos sites existem, quantos inscritos em listas de discussão
e quantas listas de discussão existem, quantos canais de
chat, quantas pessoas os freqüentam e quanto tempo ficam, além
da taxa de crescimento desses índices ao longo do tempo.
Dados que demonstram também um conceito bastante simples,
que é entender a idéia de usuário como aquele
que efetivamente usa a Internet.
Do
ponto de vista da sociedade civil, se assume a idéia de que
o conceito de usuário deva ser substituído pelo de
cidadão na Internet, visto que as pessoas não devem
ser entendidas como meras consumidoras de tecnologia, mas sim agentes
sociais e políticos no desenvolvimento da própria
estrutura da Rede. No entanto, para quem vem de contatos com sistemas
de comunicação, tais como o jornal impresso, o rádio
e a TV, que contavam respectivamente com leitores, ouvintes e telespectadores
num simulacro de incentivo à interatividade, o aproveitamento
pleno da Internet revelará uma sociedade também produtora
de informação, comunicação e conteúdo,
geradora de várias iniciativas que felizmente já começamos
a desfrutar.
Para entendermos, portanto, quem faz parte desse espaço virtual
formado de bits, é necessária a adoção
de indicadores de utilização que reflitam com mais
clareza a dimensão do uso da Internet por parte dos cidadãos,
isto é, compreender a tecnologia do ponto de vista social,
para que possamos oferecer, do ponto de vista da estatística,
subsídios para um melhor entendimento do impacto da inclusão
/ exclusão digital / social no país e sabermos com
quem, quando e como poderemos contar para concretizar a nossa sociedade
do conhecimento.
Prof.
Adilson Cabral
Curso de Comunicação Social
da Universidade Estácio de Sá
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