| Quatro
passos para a inclusão digital
Inclusão
digital virou expressão de moda. Sobre ela falam aqueles
que desenvolvem projetos diversos nesta direção. Mas
é um desses termos que vai sendo incorporado aos nossos conceitos
para explicar a sociedade da informação sem que saibamos
exatamente o que expressa.
Inclusão
digital é, dentre outras coisas, alfabetização
digital. Ou seja, é a aprendizagem necessária ao indivíduo
para circular e interagir no mundo das mídias digitais como
consumidor e como produtor de seus conteúdos e processos.
Para isto, computadores conectados em rede e softwares são
instrumentos técnicos imprescindíveis. Mas são
apenas isso, suportes técnicos às atividades a serem
realizadas a partir deles no universo da educação,
no mundo do trabalho, nos novos cenários de circulação
das informações e nos processos comunicativos.
Dizer
que inclusão digital é somente oferecer computadores
seria análogo a afirmar que as salas de aula, cadeiras e
quadro negro garantiriam a escolarização e o aprendizado
dos alunos. Sem a inteligência profissional dos professores
e sem a sabedoria de uma instituição escolar que estabelecessem
diretrizes de conhecimento e trabalho nestes espaços, as
salas seriam inúteis. Portanto, a oferta de computadores
conectados em rede é o primeiro passo, mas não é
o suficiente para se realizar a pretensa inclusão digital.
O
segundo passo para se aproximar do conceito é que as pessoas
que serão digitalmente incluídas precisam ter o que
fazer com os seus computadores conectados ou com suas mídias
digitais. Se não tiverem, serão como aqueles que aprendem
a ler e escrever o alfabeto mas não encontram oportunidades
para usá-lo com freqüência. Ou como quem aprende
uma língua estrangeira e acaba esquecendo-a por não
praticá-la. Mesmo que as pessoas saibam o alfabeto, se não
tiverem acesso a determinadas condições sociais e
culturais podem tornar este aprendizado letra morta. Portanto, inclusão
digital significa criar oportunidades para que os aprendizados feitos
a partir dos suportes técnicos digitais possam ser empregados
no cotidiano da vida e do trabalho.
O
terceiro passo para se pensar a inclusão digital, corolário
do anterior, é que precisa haver todo um entorno institucional
para que esta se realize. Empresas precisam fabricar a tecnologia
(hardware, software e a estrutura física das redes) que são
desenvolvidas a partir de algum conhecimento e de pesquisa que,
por sua vez, são desenvolvidas em instituições
universitárias e de pesquisa. Para isso é preciso
muito investimento financeiro, pois essa tecnologia não é
gratuita, mesmo que pública. E tal desenho institucional
não se faz de modo aleatório. Por isso, a necessidade
de políticas governamentais que orientem e orquestrem o trabalho
dessas empresas de produção tecnológica, apontem
e organizem seus mercados. Para se propor tais políticas,
há novamente necessidade de pesquisa, muita pesquisa, que
possa subsidiar, planejar e colocá-las em execução
para o desenvolvimento deste setor. Aqui entram novamente as instituições
universitárias e de pesquisa. Portanto, não só
as instituições mas as atividades necessárias
para a inclusão digital se ampliam e tornam mais complexo
o caminho para se chegar a esta inclusão.
O
outro lugar institucional certamente será dado pela escola
e outras agências educacionais, como as do terceiro setor
e das empresas, que optam por se engajar em projetos de inclusão
digital. Mais uma vez a necessidade de planejamento e políticas,
isto é, inteligência, que orientem o que fazer, quem
atender e como atender à população que será
digitalmente incluída.
Um
quarto passo para se chegar à definição do
conceito é de que estamos começando a entender que
inclusão digital pressupõe outras formas de produção
e circulação da informação e do saber
diferentes destas mais tradicionais que nos acostumamos a freqüentar.
Portanto, há também um elemento importante de inovação
no uso das tecnologias.
As
mídias digitais permitem que se estabeleçam relações
descentralizadas e verticalizadas entre os produtores e consumidores
de conhecimento. Isto porque tais mídias possibilitam maior
interação entre tais agentes. Assim, no interior delas,
podemos ser ora produtores, ora consumidores dos conteúdos
e dos processos possíveis de circularem na rede. Portanto,
se tais mídias digitais não explorarem esse potencial
interativo e as possibilidades de relações mais horizontais,
serão apropriadas como as velhas mídias em que a grande
massa de receptores recebe de modo pouco participativo o que lhes
é ofertado por um número mínimo de produtores,
como é o caso, por exemplo, do modelo da televisão
que temos hoje.
Sem
esta compreensão, pode-se construir toda uma custosa parafernália
tecnológica que será acessada tal como fazemos hoje
com o rádio e a televisão. Por isso, os produtos,
conteúdos, relações e atividades a partir da
rede são radicalmente diversos do que temos nessas “velhas”
mídias não digitais em que a relação
comunicacional é bastante verticalizada. O caráter
descentralizado da rede pressupõe um público disperso
e que pode gradativamente inventar formas de aprender, de se relacionar
e de trabalhar. Por isso, pessoas e instituições precisam
ser preparadas para adotar esta inovação. Agora fazemos
essas indagações olhando apenas para a Internet sem
visualizarmos com clareza o impacto substantivo da tv digital que
se anuncia para breve.
As
mídias digitais já impactam, por exemplo, os processos
educativos formais, o trabalho nas tradicionais salas de aula. De
um lado, porque permitem o acesso fácil a conteúdos
digitais diversificados, disponíveis cada vez mais em bibliotecas
virtuais e em banco de dados. Por outro lado, porque facilitam processos
de interação e de auto-aprendizagem. Por isso, inauguramos
expressões como “aprendizado colaborativo”, “aprendizado
em rede”, “construção do conhecimento
em rede”, “rede de conhecimento” e outros congêneres.
Termos que surgem para dar conta deste modo emergente de conhecer,
de aprender e produzir, cujas possibilidades ainda estão
modestamente experimentados.
Acreditamos
até que para se incorporar as mídias digitais nos
processos de aprendizagem basta resgatar os procedimentos da educação
a distância e inventar o e-learning. Porém, dado o
caráter pouco sistemático dessas mídias, dada
a possibilidade de acesso e de interação, o uso dessas
mídias para a aprendizagem vai além dos processos
formais dos métodos da sala de aula tradicional mesmo que
transpostas para ambientes virtuais. É possível que
processos formais e informais de acesso ao conhecimento e de aprendizagem
se confundam cada vez mais à medida que as mídias
digitais se tornem tão natural quanto a eletricidade de nossas
casas. E a inclusão digital significará a ampliação
de uma inteligência coletiva em que produtores e consumidores
de conhecimento interajam cada vez mais através delas e,
com isso, a aprendizagem e o trabalho se transferem majoritariamente
para o interior deste universo digital cujo dinamismo começamos
a vislumbrar.
Embora
esses passos não esgotem a definição do problema,
pode ser que comecem a abrir um caminho de entendimento.
Elizabeth
Rondelli
professora da UFRJ e Editora
da Revista I-Coletiva
na
qual este texto foi originalmente publicado em 24/06/2003
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