Sobre homens e máquinas

Os debates em torno da preparação da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação estão cada vez mais produtivos e maduros, encaminhando-se para a definição dos documentos a serem assinados pelos governantes de todo o mundo em dezembro. Enquanto isso, uma série de organizações sociais em todo o mundo, mas especialmente no Brasil e na América Latina, está passando ao largo desse debate.

Muito menos a academia o vem acompanhando. Tal como acontece com os vários cenários das políticas e sistemas de comunicação nos países latinoamericanos, poucos são os professores e pesquisadores que se propõem a entender de que forma se processam as definições para a implementaão e manutenção da mídia, embora recorram a conceitos tais como a manipulação da informação ou a capacidade de imposição da formação de opinião pública por parte da mídia, que se funda exatamente nesse sistema, com essa sustentação política que não se dispõem a debater.

Os temas sociais relacionados à democratização da comunicação só serão incluídos no debate se perfeitamente incorporados na agenda prioritária de reflexões por parte da academia e da sociedade civil e para isso precisamos de uma mudança de concepção que implique na adoção de estudos de política / regulação da comunicação em grupos de pesquisa de associações acadêmicas, em programas, linhas de pesquisa e áreas de concentração de cursos de pós-graduação, em revistas científicas e também em ementas de disciplinas em Cursos de Comunicação e afins. A ausência desse debate mais aplicado sobre o processo regulatório somente contribui para o afastamento da sociedade em relação ao que se decide em termos de políticas públicas de comunicação.

Não muito diferente é o processo que está ocorrendo em torno da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação. Os encaminhamentos para a definição de documentos, embora maduros, estão se fundamentando na elaboração de políticas de ampla implementação da tecnologia, ausentando do debate seu uso social e os princípios que proporcionariam sua implementação, do ponto de vista da plena participação da sociedade na implementação de políticas públicas para o setor.

Dessa forma, o que se busca ressaltar é a imediata necessidade de incorporar esse debates como central e transversal para o desenvolvimento de todas as outras bandeiras de luta sociais: desde meio ambiente à situação dos sem-terra, desde geração de renda à situação das mulheres, os temas que formam a atuação das ONGs e boa parte do terceiro setor são, por assim dizer, permeadas pela questão da comunicação e da informação, que envolve o debate sobre a regulação dos meios e a definição de processos.

A sociedade civil precisa estar atenta pois a condução dos debates - na medida do esvaziamento de participação - é bem mais relacionada com a inclusão da tecnologia na sociedade do que propriamente a apropriação do discurso tecnológico por parte da sociedade e o desenvolvimento de suas capacidades de implementação que proporcionem o surgimento de novas e múltiplas experiências que potencializem suas atividades e articulações cotidianas.

Prof. Adilson Cabral
Curso de Comunicação Social
da Universidade Estácio de Sá

 
NESTA EDIÇÃO

Sobre homens e máquinas, por Adilson Cabral
Os debates em torno da preparação da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação estão cada vez mais produtivos e maduros, encaminhando-se para a definição dos documentos a serem assinados pelos governantes de todo o mundo em dezembro. Enquanto isso, uma série de organizações sociais em todo o mundo, mas especialmente no Brasil e na América Latina, está passando ao largo desse debate.

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