| Desafios
em Curso
CMSI –
Intersessional, Paris, 15-18 de julho
Iniciada
na manhã de ontem, a reunião Intersessional da CMSI
parece estar cumprindo com a decisão de fazer avançar
os documentos de negociação: os rascunhos da Declaração
de Princípios e do Plano de Ação. No entanto,
as negociações têm sacrificado parte dos consensos
já obtidos com relação a temas nem sempre fáceis.
É o caso por exemplo da linguagem de gênero. Foram
suprimidos dois parágrafos centrais da Declaração
de Príncipios que explicitavam a necessidade de garantir
ações dirigidas à igualdade de gênero
e empoderamento das mulheres. Da mesma maneira que parágrafos
que citam direitos humanos, direito à comunicação
e liberdade de expressão também foram reduzidos. Todas
essas supressões e reduções de texto foram
propostas pela União Européia, bem como a supressão
de todos os parágrafos que fazem referência às
Metas do Milênio.
Todas essas supressões e reduções de texto
foram propostas pela União Européia, bem como a supressão
de todos os parágrafos que fazem referência às
Metas do Milênio
Convocada pelo Presidente do processo preparatório, Sr. Adama
Samassekou (Mali) durante a segunda semana da PrepCom2, em fevereiro,
a Intersessional foi a solução para tornar factível
as negociações em torno dos documentos. Os trabalhos
da Intersessional estão sendo presididos pela Sra. Lindall
Shope Mafole, da África do Sul, que também presidiu
um grupo de trabalho sobre Temas e Conteúdos em fevereiro.
Estão
presentes mais de 600 participantes, representantes dos países
membros e observadores, ou seja, sociedade civil e setor privado.
Do Brasil tem-se notícia de que apenas a RITS está
presente. Da mesma maneira somente três organizações
- que integram o Caucus América Latina e Caribe - puderam
atender a Intersessional. Há sempre o problema do financiamento
do custo da viagem, pois nem sempre as organizações
podem arcar com gastos de tal monta. De outro lado é grande
a presença das ONGs do norte, sobretudo das européias.
A
Intersessional é sediada pela UNESCO - agência da ONU
envolvida no processo da CMSI - além da própria UIT-União
Internacional de Telecomunicações, que é a
anfitriã da Cúpula, que se realizará em duas
fases: a primeira em dezembro de 2003, em Genebra, Suíça;
e a segunda na Tunísia em 2005. Essa decisão também
foi importante para poder relativizar o peso da área de telecomunicações
nas negociações, embora isso não tenha sido
dito oficialmente. Ontem na abertura da reunião de Paris
o Diretor Geral da UNESCO defendeu a adoção do conceito
“Sociedades do Conhecimento” em lugar de “Sociedade
da Informação”, que é dá forma
e nome a Cúpula. As Sociedades do Conhecimento seriam mais
inclusivas do que propriamente aquelas baseadas na idéia
de informação tão somente. Seu argumento baseia-se
em quatro princípios:
-
O direito humano básico à liberdade de expressão,
que deve ser aplicado tanto aos meios de comunicação
tradicionais quanto à Internet.
-
Diversidade cultural, incluindo a promoção do multilingüismo
na Internet.
-
Acesso universal à educação, tanto a educação
para a utilização das Novas Tecnologias de Informação
e Comunicação (TICs), quanto o seu uso no acesso à
educação.
-
Acesso universal à informação como um importante
elemento para a boa governança e o desenvolvimento.
Este
posicionamento reflete a principal diferença entre o que
poderíamos chamar dos dois pontos de vista predominantes
na Cúpula: um cujo eixo é a tecnologia propriamente
dita; outro em que o ponto central é a pessoa humana. Parece
algo banal e simples dito desta maneira, no entanto, suas manifestações
são bastante significativas em termos dos sentidos completamente
opostos que desencadeiam quando das negociações sobre
o texto dos documentos em negociação.
Um
exemplo concreto foi a discussão sobre as partes e seções
dos documentos durante a PrepCom2. O nome e as prioridades dadas,
ou seja, quais são os temas que abrem os documentos e como
estão organizados indicam uma clara influência da visão
tecnológica sobre a visão humanista, digamos. Apesar
do rascunho da Declaração de Princípios na
seção 1 afirmar que a Sociedade de Informação
deve ser centrada na pessoa humana, em que cidadãs e cidadãos,
bem como as comunidades são o seu cerne, o rascunho do Plano
de Ação inicia com as questões de infra-estrutura
dispostas de maneira a tratar primeiramente daquelas que dizem respeito
a telecomunicações: do parágrafo A1 até
A11, portanto 10 parágrafos, são relativos a banda
larga, conectividade, tarifas de interconexão, equipamentos,
convergência, gerenciamento de espectro.
Na
realidade todo o Plano de Ação como foi proposto e
está sendo negociado é impregnado de tecnicalidades
da área de telecomunicações, conectividade
e internet. Tanto tocam questões técnicas da estrutura
física quanto questões relativas aos marcos regulatórios
que, por sua vez, também se relacionam com questões
de comércio. Aliás este último podemos dizer
trata-se da agenda invisível da CMSI. Em nenhum momento foram
citados os acordos na área de comércio sobretudo no
âmbito da Organização Mundial do Comércio-OMC.
O que necessariamente não quer dizer que não estejam
sob consideração. O fato de que entre os temas enumerados
no Plano de Ação constem aqueles que também
são objetos de negociação e controvérsia
no âmbito da OMC – tais como propriedade intelectual,
comércio eletrônico, baixo custo da conectividade,
tarifas, softwares, equipamentos, transferência de tecnologia
– já dizem da natureza dos embates que podem ainda
ocorrer na CMSI.
Outro
ponto extremamente problemático é o da privacidade/segurança.
O 11 de setembro acabou por resultar em restrições
às liberdades civis dentro dos Estados Unidos e justificando
a política externa da Casa Branca em termos de controle sobre
as comunicações ao redor do mundo. Isso significa
que tudo o que diz respeito a privacidade, segurança - o
chamado cibercrime - receberá especial atenção
do Governo Bush. Estes temas, de certa forma, se intersecionam com
a área do direito à comunicação e ao
conhecimento livre de obstáculos e protegidos por leis nacionais.
Diante
deste quadro não é difícil imaginar que os
temas da visão mais “humanista” da CMSI ficaram
relegados a segundo plano. Entre eles podemos citar a desigualdade
de gênero, o empoderamento das mulheres e meninas, a desigualdade
social como diferencial no acesso a informação, conhecimento
e tecnologia, a distribuição da riqueza, a ajuda ao
desenvolvimento, o multilingüismo e o respeito a diversidade
cultural entre outros.
Várias
ONGs presentes a reunião em Paris estão enviando informes
sobre as negociações em curso. Dos informes desses
dois dias a situação das negociações
é seguinte:
-
Os representantes dos governos estão discutindo ponto por
ponto cada proposta enviada para modificação dos documentos.
Segundo a agenda da CMSI até o dia 31 de maio governos e
observadores podiam enviar contribuições para os documentos.
No entanto, apenas as contribuições dos governos seriam
incorporadas para negociação, as contribuições
dos observadores seriam agrupadas num documento em anexo.
-
Manteve-se o espaço de diálogo da sociedade civil
com a plenária dos governos. O grupo de trabalho sobre conteúdos
e temas apresentou o resumo do documento de contribuições
sobre os temas e debates da Cúpula sob o ponto de vista da
sociedade civil. Este grupo é formado por representantes
dos vários Caucus, e que reuniu num único documento
todas as contribuições de realizadas num processo
amplo de consulta às ONGs e movimentos envolvidos no seguimento
da Cúpula.
-
A representante do Caucus América Latina e Caribe teve boa
receptividade, por parte dos governos da região, sobre o
resumo do documento de prioridades, consensuado pelas organizações
que integram o Caucus, lido em plenária por ela. Particularmente
os governos da Argentina, Nicarágua e México requeriram
o documento completo para apreciação.
-
As empresas também se pronunciaram na plenária e reafirmaram
a necessidade de que a CMSI as considerem como atores principais
da Sociedade de Informação. Para tanto citaram como
exemplos de sua importância o estímulo ao desenvolvimento
tecnológico, a competitividade, o livre mercado.
Sobre
os pontos discutidos:
-
Houve muita resistência e crítica sobre o tema do direito
à comunicação tanto entre os governos como
também nos espaços de debate da sociedade civil
-
Os países trabalham rápido para chegar a um documento
enxuto que será negociado na PrepCom3. Para isso estão
cortando muitos parágrafos. Isso implica, por um lado, em
perda na qualidade do debate e, de outro, numa estratégia
para impedir que controvérsias venham a ser discutidas agora
e não em setembro.
-
Dos cortes efetuados o que mais sofreu retrocesso em termos da garantia
do respeito a consensos já estabelecidos no âmbito
das conferências da ONU foi o que trata da desigualdade de
gênero e as ações para sua superação.
Espera-se
que os cortes que estão sendo realizados não sejam
estragos de tal monta que inviabilizem as metas sociais já
estabelecidas pela ONU na Cúpula do Milênio e que devem
ser observadas de forma estrita pela CMSI.
ENTENDA O PROCESSO ONU / CMSI
As
conferências da ONU são precedidas sempre de
reuniões preparatórias chamadas PrepCom- Comitê
Preparatório por sua sigla em inglês. Elas podem
ser várias dependendo do tipo de processo e do tempo
disponível para sua preparação. A primeria
fase da CMSI terá três PrepComs. A terceira e
última será realizada em setembro, Genebra,
Suíça, na sede da UIT.
As
reuniões intersessionais são mecanismos previstos
nos processos da ONU quando as reuniões do Comitê
Preparatório (PrepCom) não consegue cumprir
com sua agenda de trabalho. Este foi o caso da PrepCom2 que
não otendo os resultados previstos teve que decidir
pela convocação de uma reunião entre
sessões, quer dizer, entre a PrepCom2 e a PrepCom3,
para fazer avançar os documentos de negociação.
Os
documentos em negociação serão aqueles
que ao final devem ser ratificados pelos chefes de Estado.
Por isso as várias reuniões preparatórias
quando os governos se encontram em reuniões abertas,
às vezes também são fechadas, isto é
em que a Sociedade Civil pode estar dentro dos grandes auditórios
acompanhando as discussiones. Nas PrepComs os representantes
dos países membros da ONU vão refinando os documentos
que em geral são inicialmente compostos pelas declarações
das reuniões regionais. As reuniões regionais
ocorrem depois de uma primeira PrepCom quando são discutidos
os procedimentos políticos e burocráticos do
processo de uma conferência. |
por
Magaly Pazello
Rede DAWN
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