| Documento
do Caucus da América Latina e do Caribe
Prioridades que podem contribuir para a formação de
sociedades mais justas
O Caucus da América Latina
e do Caribe é um grupo de organizações da sociedade
civil que tem como objetivo fortalecer a capacidade das sociedades
latino-americana e caribenha e assegurar que as perspectivas, visões
e necessidades da região em relação à
sociedade da informação sejam levadas em consideração
de modo articulado e integral no processo da Cúpula Mundial
da Sociedade da Informação (CMSI).
Formado por pessoas que falam basicamente o espanhol e o português,
o Caucus solicitou no mês de julho à CMSI a tradução
dos documentos oficiais para o espanhol. Além disso, enviou
um documento com oito prioridades que podem contribuir para a formação
de sociedades mais justas: desenvolvimento sustentável; direitos
humanos; governabilidade global da Internet; acesso e infraestrutura;
meios comunitários; gênero; educação,
diversidade lingüística e cultural; bens comuns globais.
Sobre o “desenvolvimento sustentável” chamam
a atenção para o fato que os programas de promoção
do acesso e uso das Tecnologias de Informação e Comunicação
(TIC) devem levar em consideração as diferentes realidades
políticas, econômicas, sociais e culturais. Além
disso, assegurar a participação dos diversos setores
sociais nas dinâmicas das iniciativas ou programas nacionais
da sociedade da informação. Assegurar a participação
implica considerar os diversos setores e disciplinas na formulação,
desenvolvimento, continuidade, monitoramento e evolução
de iniciativas, programas e políticas a longo prazo. Sendo
que a aplicação, uso e apropriação das
TIC podem ser traduzidos num grande potencial para o avanço
social, ou podem reforçar as iniqüidades sociais.
Conforme o documento, para serem implementadas as novas tecnologias
da informação, em função dos processos
de desenvolvimento humano sustentável, deve-se levar em conta:
a apropriação pela comunidade, a geração
de conteúdos locais, usos e aplicação de tecnologias
apropriadas, convergência de tecnologias novas e tradicionais,
e pertinência de línguas e culturas. E, de acordo com
o Caucus, é fundamental incorporar a prática do comércio
justo e solidário apoiado nas TIC em seus países membros
na perspectiva de fortalecer processos locais de sustentabilidade
e desenvolvimento.
Em relação aos “direitos humanos”, a sociedade
da informação deve estar centrada no ser humano e
não nas tecnologias. Além dos direitos à educação,
culturais, da liberdade de expressão, entre outros, a comunicação
deve ser encarada não só como um direito, mas como
uma necessidade e processo básico para a consecução
do desenvolvimento sustentável social, econômico, político
e cultural.
Quanto à “governabilidade global da Internet”,
mostram que o rol dos governos dos países participantes do
Caucus deve ser promoção e condução
do processo de transição e estabelecimento da sociedade
da informação, tendo contribuições multidisciplinares
e multissetoriais. Além disso, as comunidades locais e a
sociedade civil devem participar no desenvolvimento e gestão
da administração dos nomes de domínio, tanto
no nível do ICANN – Corporação da Internet
para Designação de Nomes e Números - como de
seus respectivos ccTLD’s – código de domínio
principal dos países -, buscando os mecanismos de participação
mais idôneos. Políticas apropriadas devem ser desenvolvidas
para promover a democratização da administração
da infraestrutura de DNS – sistema de nome de domínios.
Assim, a gestão da Internet precisa partir do conceito básico
da rede como um bem comum, que não pode nem deve ser monopolizada
por nenhum país nem entidade pública ou privada para
seus próprios fins.
O “acesso e a infraestrutura” são considerados
importantes, porém apontam que sua integração
com a capacitação dos cidadãos e geração
de conteúdos locais, assim como o aproveitamento dos recursos
e da informação obtida, dentro de um marco de redes
sociais e políticas públicas e/ou privadas claras
baseadas em necessidades específicas, são fundamentais
para o desenvolvimento de sociedades de informação
igualitárias e inclusivas. Sustentam que este tema atravessa
a compreensão do acesso às TIC como ferramentas, conteúdos
que beneficiem a cidadania social e culturalmente, destrezas que
permitam tomar vantagem do uso social estratégico das TIC
e a capacidade de custear serviços digitais e de conexões
acessíveis para a maioria excluída.
Assim, como descritas, iniciativas como um Fundo de Solidariedade
Digital devem ser promovidas pelos governos para assegurar a implementação
dos planos de desenvolvimento de infraestrutura. Da mesma maneira,
gerar acordos para a criação de uma Convenção
Internacional para a adoção de políticas de
preços e tarifas justas para projetos de inclusão
digital e um Fundo Internacional de Largura de Banda da Internet
para os projetos.
Em relação aos “meios comunitários”,
chamam a atenção para o fato que, no caso latino-americano,
os meios devem ter um caráter de serviço, participação
cidadã e diversidade cultural. Políticas públicas
também devem ser desenvolvidas, permitindo a legalização
dos meios comunitários e promovendo estratégias que
garantam conteúdos socialmente úteis dentro dos meios
tradicionais e o manejo democrático do espectro da radiodifusão.
O “gênero” também é apontado como
prioridade, uma vez que, como sustenta o documento, é importante
contemplar os aspectos diferenciais de impacto das Tecnologias de
Informação e Comunicação (TIC) entre
os gêneros. A busca de equilíbrio de oportunidades
para todos deve ser um compromisso inerente a todas as políticas
e iniciativas da sociedade da informação.
Quanto à “educação, diversidade lingüística
e cultural”, as TIC e os processos de comunicação
são considerados centrais para a preservação,
transmissão, valorização e o enriquecimento
de formas lingüísticas e culturais dos povos. Promover
contribuições multidisciplinares, multiculturais e
multissetoriais equilibradas, conforme o documento, deve ser um
objetivo primordial na construção da sociedade da
informação. A concentração da propriedade
dos meios, tanto no setor privado quanto no público, desfavorece
o desenvolvimento das diferentes expressões lingüísticas
e culturais que coexistem no planeta.
Assim, a educação torna-se fundamental para a apropriação
e a interpretação dos conteúdos de comunicação
e informação em função de processos
de desenvolvimento humano participativo e sustentável. A
cultura, mesmo considerando sua diversidade, suas múltiplas
manifestações criam campos de oportunidades. Existe,
então, como apontam, uma diferença radical entre falar
de educação formal e cultura. A educação
na sociedade da informação deve ser construída
sobre paradigmas distintos. As iniciativas no campo educacional
em TIC devem estar sustentadas em metodologias dinâmicas que
contemplem as diversas particularidades sociais e culturais e as
necessidades específicas reais da cidadania. Assim mesmo,
o fortalecimento destas capacidades deverá ser dirigido à
produção própria de conteúdos que abram
espaços à interculturalidade, respeitando os direitos
culturais dos outros e os próprios.
A última prioridade apontada no documento é a de “bens
comuns globais”, onde se mostra que é fundamental o
desenvolvimento de mecanismos de proteção legal dos
conhecimentos que são de domínio público. Do
mesmo modo, são necessários mecanismos que permitam
conjugar os direitos de criadores com o interesse público
e os conhecimentos e saberes comunitários. A promoção
e defesa do conhecimento humano como um bem público comum
é indispensável para estimular a inovação
e criatividade intelectual, para combater a desigualdade e exploração
de comunidades e grupos menos favorecidos.
por
Profª Eula D. Taveira Cabral
Editora do Informativo SETE PONTOS
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