| As
polêmicas "verdades" de Matrix:
filosofia e física quântica temperam o debate sobre
o filme
por
Gabriella Ponte
5º período - Jornalismo
"Matrix",
uma trilogia criada e dirigida pelos irmãos Andy e Larry
Wachowski, começou a ser produzido em 1999. A primeira parte,
"Matrix", é considerado um dos filmes mais inteligentes
e originais já produzidos, deixando o espectador, ao sair
do cinema, com mais dúvidas do que respostas (e isto é
um elogio). A segunda parte, que já foi lançada, "Matrix
Reloaded", e a última parte, "Matrix Revolutions",
torna a história ainda mais complexa e fascinante, envolvendo
conceitos de física quântica, fazendo com que muitos
livros sejam lançados sobre o tema.
O elemento mais abordado é justamente a realidade virtual.
"Um mundo virtual produzido nas mentes das pessoas cujos cérebros
estão plugados, por um fio, a um supercomputador (hardware)
no qual um programa (software) simula uma realidade. Toda a população
vive com seus corpos biológicos imobilizados em um mundo
inóspito dominado por máquinas inteligentes, mas o
que todos percebem é a realidade virtual do programa, com
o qual interagem como em um supervideogame cujos sinais são
injetados diretamente no cérebro de cada um. Alguns poucos
rebeldes escapam desta situação e lutam contra ela",
diz Luiz Pinguelli Rosa, presidente da Eletrobrás, físico
e professor da Coppe, em um artigo no site da Eletrobrás,
explicando a essência do filme. E Neo, o personagem de Keanu
Reeves, é O Escolhido, um humano que, depois de liberto de
seu casulo, seria capaz de manipular a Matrix.
Muitos, ao saírem do cinema, acham essa história a
mais absurda do mundo, como Zilda Ferreira, de 40 anos, dona de
casa: "Gosto de filmes de ficção científica
e espero ver pelo menos uma história que possa ser plausível,
mas essa é mentirosa demais. Viver num mundo onde tudo foi
criado pelo computador? Nada ali é real".
Mas, de acordo com Luiz Pinguelli, "A novidade de 'Matrix Reloaded'
é colocar em foco, além da inteligência artificial,
a questão do livre arbítrio individual versus o determinismo
científico, um velho problema da filosofia da física".
Ou seja, nem tudo é tão absurdo em "Matrix".
De acordo com algumas propostas de cientistas, o Universo, inclusive
os humanos, é em essência o resultado de um programa
de computador. Nos anos 60, o alemão Konrad Zuse, que construiu
os primeiros computadores eletromecânicos programáveis
do mundo, sugeriu que o universo estaria tendo lugar nas entranhas
lógicas de um computador. Isto baseado em um conceito chamado
"autômato celular". Imagine um tabuleiro de xadrez
onde cada casa do tabuleiro é uma célula. Cada uma
destas pode ser preta ou branca. A cor pode mudar seguida por regras
simples implantadas dentro de cada uma delas. Estas regras são
realizadas em todas as células ao mesmo tempo, toda vez que
um relógio bate. O tabuleiro é agora um autômato
celular.
Isso foi demonstrado através de um programa de computador
criado nos anos 70: o "Game of Life", de John Conway.
Um autômato celular simples, como este jogo, pode funcionar
como um computador universal. Ou seja, representando informações
como células brancas ou pretas e dispondo diversas outras
células de forma determinada, o "Game of life"
pode, em tese, simular qualquer computador imaginável.
Voltando à questão inicial: o universo é um
computador? O universo tem essência digital. No campo do infinitamente
pequeno, dentro das leis da física quântica, o infinitamente
pequeno pode não existir. O tempo e o espaço não
seriam contínuos: existiria uma quantidade mínima
de tempo e espaço difícil de ser medida, e provavelmente,
de acontecer no universo. Um universo em que tempo e espaço
ocorrem aos pulsos é exatamente o dos autômatos celulares.
"Nossa tese é de que algum modelo de autômato
celular pode, em efeito, ser programado para funcionar como a Física
(do Universo)", diz Edward Fredkin, da Universidade de Boston,
que já foi diretor do laboratório de ciência
de computação do Instituto de Tecnologia de Massachusetts
(M.I.T.) e tem sido um dos mais notáveis promotores do universo
como um computador. Seus conceitos de ‘Mecânica Digital’
explicaria mesmo os mais incompreensíveis aspectos da mecânica
quântica.
O mais novo defensor destes conceitos é Stephen Wolfram,
criador de um dos mais usados softwares de computação.
Wolfram, no ano passado, lançou o livro "A New Kind
of Science" (Um Novo Tipo de Ciência), complementado
por programas de computador de demonstração. O livro
acabou tornando-se um best-seller, mas não agradou muito
aos cientistas. Wolfram é acusado de não saber todos
os conceitos e teorias ligados ao assunto e de não apresentar
idéias novas, não tendo base necessária para
criar "um novo tipo de ciência".
Fredkin está escrevendo seu próprio livro e, assim
como Wolfram, tem uma visão pessoal sobre os conceitos do
autômato celular. No entanto, escrever um livro que descreva
o universo é, como ele mesmo considera, um projeto grande
demais para uma pessoa só. O que ele espera é inspirar
estudantes e colegas do ramo a experimentarem a física digital.
"A New Kind of Science" e Matrix foram os responsáveis
por divulgar a idéia de que o universo é um computador.
Isso causou um impacto na sociedade, pois seus criadores mostraram
uma teoria hipotética séria e possível. Na
divulgação do filme, o que mais se pergunta é
"O que é Matrix?" (inclusive, o site oficial do
filme é whatisthematrix.com). Responder a isso acabou se
tornando tão intrigante quanto responder o que muitos cientistas
ainda perguntam até hoje: o que é o universo?
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