O que a ética "hacker" tem a ver com a inclusão digital da sociedade?

por Gabriella Ponte
6º período - Jornalismo

Quando o termo "hacker" é utilizado hoje em dia, logo se liga aos cibercriminosos que possuem alto conhecimento sobre os computadores e as redes de comunicações para praticarem delitos, causando danos a terceiros e/ou enriquecendo com essa prática. Mas, este termo está sendo usado incorretamente. Esta confusão poderia ser evitada se esses cibercriminosos não fossem denominados "hackers", mas sim "crackers". No entanto, se esses são os "crackers" quem são os "hackers", afinal?
Pekka Himanen, um estudante finlandês, doutorado aos 20 anos em Filosofia na Universidade de Helsínquia e que atualmente trabalha na Universidade de Berkeley, lançou um livro chamado “The Hacker Ethic and the Spirit of the Information Age” (A Ética Hacker e o Espírito da Era da Informação). Nele, explica que hacker é "uma pessoa que programa entusiasticamente e que acredita que compartilhar informação é um poderoso bem concreto e que seja um dever moral compartilhar a sua perícia escrevendo software livre e facilitando o acesso a informação e a recursos computacionais onde for possível", é alguém que "acha programar intrinsecamente interessante, empolgante e divertido". Em entrevista publicada no site Janela Web, ele diz que "quando usamos o termo de 'hacker', estamos a empregá-lo no sentido original, em que era referido no início dos anos 60 - ou seja, uma pessoa para quem programar é uma paixão. O termo nasceu com esse punhado de heróis do MIT que no princípio dos anos 60 se cognominaram de 'hackers'. Para os verdadeiros 'hackers' a designação é um título honorífico e nobre".
Ele lembra que importantes nomes do "hackerismo" como Vinton Cerf, Tim Berners-Lee, Steve Wozniak e Linus Torvalds foram os responsáveis por criar os fundamentos da Sociedade da Informação nos últimos 30 anos. É esse compromisso que os "hackers" têm com a informação, é essa paixão pela criatividade que se transformou na ética "hacker" e isso tem tudo a ver com a inclusão digital da sociedade. Himanen fala das maravilhosas contribuições que os "hackers" trouxeram à informatização: "Vint Cerf foi o 'pai' da Net e Berners-Lee da Web. Junte-lhe Wozniak, o criador do primeiro computador pessoal, o Apple I, ou os que criaram o Unix, como Bill Joy e mais tarde, Torvalds, o criador, em 1991, do Linux". Sem eles, com certeza, a Sociedade da Informação não seria possível.
De acordo com Himanen, a ética "hacker" é diferente da antiga ética de trabalho que ainda predomina na sociedade, que é o que Max Weber chamou de "Ética de Trabalho Protestante" em sua obra The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo / 1904-1905), durante a Era Industrial. Neste tipo de pensamento, o trabalho é a coisa mais importante para o homem, é o que há de mais essencial em sua vida. Daí, vem a ascensão do capitalismo. Já a ética "hacker" propaga a idéia de paixão e prazer pelo trabalho. O dinheiro, para ele, não é visto como algo essencial.
Sérgio Couto, no texto "O que pensar dos hackers?", expõe a sua idéia sobre o assunto: "um 'hacker' pode se satisfazer com menos riqueza material ao perceber que sua verdadeira paixão deu uma contribuição para os outros". Esses "outros" seriam aqueles que usariam o computador para se manterem informados, para exercer a cidadania, a fim de trabalhar.
Maurício F. Pinto em seu texto "Consciência na Era do Informacionalismo" mostra que a "ética do hackerismo não substitui ou anula a velha ética protestante, descrita por Weber como a disposição para a vida ascética, para a acumulação racional, para o lucro como fim último (dinheiro). Porém assistimos nesta Era do Informacionalismo uma nova disposição para a "vida livre de encargos"; uma vida livre, despojada, que almeja a experiência social, a liberdade de decidir sobre si mesmo, de ser autônomo. A velha ética do trabalho, que espera pelo domingo como o dia da redenção daquele que se esforça no seu sofrido labor semanal (...) é substituída pela ética hacker, que quer transformar todos os dias numa única e mesma experiência de libertação, de reencontro com seus próprios propósitos - o hacker quer viver num (...) meio para se alcançar a liberdade de se fazer o que quer (desafio, vida lúdica e diversão)".
Uma coisa é certa: essa ética "hacker" é interessante para os negócios. Himanen afirma: "a ética 'hacker' começa a ser apelativa para o mundo dos negócios. É uma vantagem competitiva, pois fomenta a criatividade, a inovação e perspectiva de longo prazo." Para ele, este tipo de pensamento deveria ser colocado em prática não só no trabalho, mas em todas as atividades do homem. É claro que a antiga ética de trabalho não deixará de existir, mas se as duas éticas coexistissem ajudando no desenvolvimento das tecnologias de informação, os homens começariam a se relacionar cooperando para a democratização do saber.

 
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