| Os
índios brasileiros e a inclusão digital
Falar
sobre povos indígenas, num primeiro momento, diz respeito
à idéia de preservação desses grupos
que durante séculos foram dizimados e roubados. Mas, com
a invasão à cultura dos índios e a ligação
dos mesmos a uma vida agitada, movida pela cobrança de mais
conhecimentos e preparo para enfrentar o mercado, hoje é
difícil localizá-lo como um grupo que ainda mantém
seus costumes e tradições. É claro que ainda
existem uns poucos isolados na mata que não foram atingidos
totalmente pela “cultura dos brancos” e que têm
como meta ser o que são. Assim, para os que se podem chamar
de “legítimos” e os “misturados”
brasileiros estão sendo levadas as novas tecnologias, principalmente
no que tange a um computador ligado à Internet. Mas, até
que ponto isso é realmente uma forma de inclusão digital?
Será que é necessário levar mais um ser invasor
a estes povos e modificar as suas vidas?
Normalmente, numa comunidade que tem seus costumes e tradição,
sobreviventes de uma organização de seus mestres,
chefes e pajés, a cultura é passada, em muitos casos,
oralmente, e por modos e comportamentos ensinados e usados por todos.
É o caso de grupos que ainda mantêm seus rituais em
momentos tristes e alegres da tribo. E que se sentem violentados
com costumes impostos como o dever de saber ler, escrever e viver
dos “brancos”. Algo que já foi bastante discutido,
porém que ainda se mantém vivo nas tribos.
Imagine o índio “puro” em sua essência
que ainda não teve um contato prolongado com os “brancos”,
mas vive isolado nas matas, e, de repente, por iniciativa de uma
ONG e de estudiosos interessados em “preservar” e divulgar
essa cultura para outros (que não têm o mesmo objetivo
de seus habitantes – uma vez que a linguagem do “branco”
não faz parte da cultura indígena) invade a tribo
com uma máquina moderna capaz de mostrar o mundo lá
fora e poder divulgar a vida daquele grupo. Será que isso
ajudaria “realmente” na preservação da
cultura desse povo ou seria mais um ingrediente para modificá-la?
Na matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo, em 26
de outubro de 2000, por Léo Castro, registra-se que 500 índios
da Reserva Xapecó, em Ipuaçu (SC), ganharam do governo
do Estado a escola “Cacique Vanhkrê” num formato
de oca com um ginásio de esportes, que parece um tatu, e
um centro cultural, em forma de tartaruga. Além disso, resolveram
informatizar a escola, garantindo o acesso à Internet. Dar
a impressão de estar numa tribo. Mas, ao mesmo tempo, com
o espírito que é preciso vencer e ser como um “branco”
a confusão passa a invadir a inteligência dos mesmos,
pois a cultura do povo capitalista destoa de um grupo que aprende
que não é preciso ter dinheiro para viver. Para aqueles
que não foram tão agredidos culturalmente, a terra,
a floresta e a comunidade são essenciais para a vida indígena.
Analisando as matérias e textos jornalísticos disponibilizados
nas últimas semanas, percebe-se que há uma mobilização
em “incluir digitalmente” o índio brasileiro.
Com o projeto “Rede Povos da Floresta” do Comitê
para Democratização da Informática (CDI) e
da StarOne, uma das maiores empresas de soluções via
satélite no Brasil, foram conectadas na rede mundial de computadores
as aldeias Ashaninka e Yawanawa, localizadas no Acre, e a Sapucay,
no Rio de Janeiro. A conexão é via satélite,
sendo que os computadores são movidos pela energia solar.
Além disso, os índios recebem um treinamento, se tornando
responsáveis pelos equipamentos, pela tecnologia e pelo acesso
à internet. A inclusão digital dos povos tem o apoio
de ONGs indigenistas, como a Comissão Pró-Índio
do Acre (http://www.cpiacre.org.br).
A meta é fazer com que eles tenham contato com outros grupos
e divulguem sua cultura.
Incluir digitalmente o índio brasileiro é algo que
ainda causa muita polêmica, porém não se pode
ignorar o fato que muitos apenas nasceram numa tribo e vivem misturados
com um povo que, muitas vezes, não conhece e ignora sua cultura.
Os nascidos e jogados num lugar diferente acabam incorporando o
modo de ser e de viver do outro – mesmo que lhe seja estranho,
e assim transforma-se num índio pós-moderno que ainda
tem suas raízes, mas quer viver como os que lhe conquistaram
e dizimaram seus familiares. Se, alguns já não podem
mais manter a cultura de seus antepassados, uma vez que têm
uma identidade mista, então que estes, pelo menos, sejam
inseridos como cidadãos que têm direitos e deveres
como um outro qualquer da sociedade brasileira. A terra, independente
de colonização, é um direito que tenta resgatar
um pouco da dignidade roubada, porém a Internet somente deve
ser dada se estes realmente quiserem, pois no mundo virtual a realidade
mistura todos e acaba mexendo na identidade de seus navegantes.
por
Profª Eula D. Taveira Cabral
Editora do Informativo SETE PONTOS
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