| QUEM
DESEJA O MULTILATERALISMO?
As
cartas da Cúpula Mundial da Sociedade da informação
já estavam marcadas desde o começo. Mobilizada por
um setor da ONU que conta com a predominância dos conglomerados
de telefonia/telecomunicações e comunicação
em todo o mundo, respaldada por governos que facilitam a ação
desses setores e articulam a desregulamentação, a
expectativa com a Cúpula por parte da sociedade civil se
concentra apenas na capacidade de intervenção e convencimento
necessária para garantir conquistas já firmadas em
outros processos de articulação que proporcionaram
documentos tais como as Metas do Milênio.
Sempre
valeu a pena participar de processos acionados pela ONU através
de Conferências Mundiais com o propósito de firmar
o multilateralismo como prática entre governos, com a adesão
tanto do setor privado como da sociedade civil. A prática
atesta que, se os ganhos surgem em passos curtos, pelo menos eles
existem e permitem referenciar o quanto mudamos em relação
às nossas perspectivas de relação de uso com
o planeta e a necessidade de promover o bem estar social ao maior
número de pessoas, embora tais propósitos tenham consideráveis
entraves na movimentação cotidiana dos países
em prol de sua sustentação num mercado cada vez mais
competitivo.
Entretanto,
o binômio informação-comunicação
traz importantes especificidades somente agora percebidas pela sociedade
civil - e antes tarde do que nunca, ainda mais em tempos de acirramento
de lutas contra um terrorismo invisível, que justamente por
esta condição acaba estando presente em todas as partes.
O desenvolvimento tecnológico que proporcionou a expansão
da Internet em escala mundial possibilitou também a fragilidade
de setores acomodados na contabilização de seus lucros,
como a indústria fonográfica e videográfica.
O barateamento da tecnologia possibilitou a expansão desenfreada
das rádios (e por que não tvs?) comunitárias
que são ameaçadas em muitos países como criminosas
e deslegitimadas na sua capacidade de prestação de
serviços à comunidade que o próprio Estado
não disponibiliza.
O
que podemos desejar da CMSI então? Em primeiro lugar, algo
que já podemos considerar um ganho: a promoção
do tema comunicação no debate da sociedade civil,
diante de outros temas sempre presentes e considerados fundamentais
como a fome e a pobreza. Temos fome e pobreza de comunicar também
e, por isso, lutamos na cidade e no campo, nas escolas e nos hospitais,
em nossas relações pessoais e sociais por um mundo
mais justo, no qual a comunicação seja efetivamente
um direito acessível a todos.
Diante
das metas de implementação de serviços de radiodifusão
que já estão sendo propostos nos primeiros acordos
para Genebra (de acordo com o plano de ação, em 2005,
todos os serviços dos governos nacionais terão sua
página de Internet e um endereço eletrônico,
todas as universidades e hospitais estarão conectados; em
2006, as bibliotecas públicas; em 2010, todas as escolas
secundárias e centros de saúde e, em 2015, todas as
escolas primárias, em 2010 toda a população
mundial deverá ter acesso aos serviços nacionais de
radiodifusão, e, cinco anos mais tarde, aos de televisão),
fica a pergunta: com qual qualidade se dará essa implementação?
Onde está o papel dessa comunicação a ser estabelecida
por aparatos tecnológicos em alcance mundial? A certeza de
que precisamos escolher representantes comprometidos com tais propósitos
deve ser incorporada imediatamente tanto pela sociedade civil, quanto
pela pauta dos partidos democráticos em todo o mundo.
Mais
ainda, a competência que a sociedade civil precisa mostrar
é na própria capacidade em empreender ações
que afirmem e intensifiquem a perspectiva multilateral. Não
só na capacidade de se articular e propor declarações
e documentos, mas fazer para nós o que eles nunca fazem,
para lembrar o quanto precisamos implementar o que estamos propondo
aos governos numa instância pretensamente multilateral que
não se dispõe a incorporar nem mesmo ouvir o que a
sociedade civil se dispõe a fazer. Enquanto isso, necessitamos
esclarecer e mobilizar a sociedade em geral em relação
a um processo que está se construindo a passos cada vez mais
sólidos, para que inclusive possamos legitimar a participação
da sociedade civil em fóruns como este, sendo ou não
contemplados.
por
Prof. Adilson Cabral
Coordenador do Informativo SETE PONTOS
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