Saber Global: Centro e Periferia na Sociedade do Conhecimento
foi o tema do Seminário Internacional promovido pela Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social em parceria com o Ministério das Relações Exteriores e das Comunicações nos dias 24 e 25 de setembro, em Brasília.

Nos painéis e oficinas discutiu-se a globalização do saber na era da revolução informacional. A partir do documento inicial "Carta pela Democratização Universal do Saber: do Trabalho-Ferramenta ao Trabalho-Conhecimento", algumas idéias que poderão inspirar a discussão de políticas para a democratização do conhecimento foram apresentadas.

No seminário, estiveram presentes representantes de diversos ministérios e do parlamento para indicar que a questão do conhecimento é estratégica para o governo, para o desenvolvimento do país e para a democracia.

Por isso, requer investimentos e agendas dirigidas. Deste seminário internacional, entendido como fase preparatória, se requereu o passo inicial: a formulação de enunciados que explicitem os focos principais a serem abordados de agora em diante e que poderão influenciar futuras políticas governamentais.

Dentre os inúmeros méritos dessa iniciativa, destaco:
- o reconhecimento de que há uma inteligência operando no país e que é preciso agenciar espaços para que ela possa ser efetivamente coletiva;
- a tentativa de superar o cotidiano burocrático do fazer governamental para que ações do governo se adaptem a um mundo novo, que não é só o da política;
- os esforços para compreender como as mudanças tecnológicas atropelam as tradicionais instituições produtoras e difusoras de conhecimento que, impactadas, descobrem que seus velhos formatos geralmente não cabem nos modelos institucionais exigidos pela aceleração da produção do saber;
- a afirmação de que o conhecimento é a forma, por excelência, do capital contemporâneo, e que se traduz na produção tecnológica, científica, cultural e artística;
- a ênfase na idéia de que o conhecimento requer investimentos em educação que, por sua vez, já não pode seguir os velhos padrões e formatos que não são adequados às mudanças do mundo;
- o pressuposto de que o conhecimento é um bem imaterial que pode florescer sob condições macroeconômicas satisfatórias, porque os processos de internacionalização e globalização são irreversíveis, mas que exige também outras políticas que desenvolvam o imprescindível capital humano;
- a compreensão de que o valor do conhecimento aumenta à medida que integra pessoas que tenham competência não só para fruir mas também para produzir conhecimento.

Conhecimento e valor são temas indissociáveis
A aceleração do conhecimento produziu mudanças altamente significativas na forma de nos relacionarmos com o mundo de hoje. Não só nossos parâmetros de tempo e espaço se redefinem, mas assistimos a um processo de reorganização produtiva que aponta, inclusive, para um cenário de revolução similar e subseqüente à Revolução Industrial.

Reorganização produtiva que provoca deslocamentos freqüentes do capital e do mercado de trabalho, deles decorrendo impactos sobre o poder político e militar, sobre a cultura, o comportamento e o consumo, como explicou na mesa de abertura o secretário geral das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães.

Embora muito se saiba sobre os impactos que esta mudança acelerada no universo da C&T tem provocado, fica a pergunta, deixada no seminário pelo ministro das Comunicações Miro Teixeira: o avanço tecnológico está produzindo a inclusão e a igualdade?

Como 'o Brasil não sabe o que sabe' , como se constatou no Seminário, há que se buscar esses nossos tesouros enterrados, nossa inteligência. Daí a importância dos processos de Gestão de Conhecimento para que este saber disperso se revele, possa ser sistematizado e transformado em valor.

E o valor do conhecimento se traduz em patentes, em propriedade intelectual ou industrial. Mas com isto não se pode perder de vista que muito do conhecimento é e pode ser construído como um bem público que todos desfrutem.

Portanto, conhecimento disperso, enclausurado, não utilizável ou manejável não se traduz, necessariamente, em valor, como explicitado no documento Carta pela Democratização Universal do Saber: Do Trabalho-Ferramenta ao Trabalho-Conhecimento.

Um pouco do que foi apresentado
O conjunto dos painéis ofereceu uma idéia da variedade e complexidade de questões que estão postas para este governo debater com os vários setores especializados.

O objetivo final é estabelecer a agenda, verde ainda porque nova, como lembrou o representante da presidência da Câmara, para a condução de políticas públicas que devem colocar ou, na melhor das hipóteses, manter o Brasil no caminho da Sociedade do Conhecimento.

O mesmo deputado lembrou, no entanto, que política de concerto nacional não é política de governo, mas pode inspirar as políticas de alguns ministérios.

Alguns reflexos do Fórum Social Mundial estiveram presentes nas expressões No-Global x Know-Global. Ou seja, refletir sobre a tendência de organizar a economia e a sociedade, sem negar a globalização, mas, a partir disto, se estruturar políticas sociais que não sejam tão perversas como as da globalização. Neste sentido, a ação do Estado tem um aspecto crucial.

Mercado Livre do Saber e Nova Educação
Não se ignora que o conhecimento insere-se num mundo globalizado, de acelerado progresso da C&T. Embora esteja ligado à existência de uma estrutura física de produção, o conhecimento que agrega valor é, sobretudo, imaterial, traduzido principalmente nas marcas e patentes.

Desta sua apropriação intelectual temos um paradoxo: ao mesmo tempo em que a propriedade pode vedar o acesso de muitos ao conhecimento, tal apropriação permite que o valor se efetive para que possa, dentre outras coisas, gerar mais conhecimento.

No painel No-Global X Know-Global: Riqueza e Democracia na Era do Conhecimento, o professor italiano Umberto Sulpasso, presidente da International Multimidia University, discutiu a Economia do Saber uma forma de permitir a circulação ampliada do saber, idéia utópica porém não irrealizável.

Um saber que é mercado permanente, pois não acaba nunca, portanto, tem fonte e recursos inesgotáveis, ao contrário das fontes materiais. O saber não desaparece e quanto mais consumido mais se multiplica e, além disso, aprimora todos os processos produtivos.

Para criar este Mercado Livre do Saber, tal como sugere Sulpasso, a Universidade deve se conceber como uma das principais produtoras e difusoras do conhecimento.

Não é, portanto, por acaso que Sulpasso é presidente da Universidade Virtual Multimídia, que congrega 200 instituições dos países mediterrâneos, um projeto que visa estender o conhecimento universitário além das fronteiras territoriais.

Projetos como esses vêm ganhando forma na multiplicação nos processos de virtualização de várias Universidades pelo mundo todo, a exemplo do que faz o portal Universia Brasil, do Banco Santander, não por acaso um dos patrocinadores do evento.

Como no Brasil, grande parte do conhecimento se produz em Universidades públicas, estas deveriam tomar para si o compromisso de produzirem esta 'virtualização' do conhecimento, ou seja, engendrar formas de divulgação mais ampliada e pública do conhecimento.

Esforços que estão sendo conduzidos pelo programa Cidade do Conhecimento, e que foram apresentados no Seminário, enquadram-se nestas novas formas de interação possíveis entre a Universidade e a sociedade, através da criação, incubação e desenvolvimento de projetos por meio de redes digitais colaborativas.

Rumos a seguir
Os inúmeros expositores e debatedores trouxeram temas, enfoques e pontos de vista plurais que auxiliarão no estabelecimento de alguns consensos sobre os rumos a seguir.

Por isso, esse Seminário não se encerrou nos dois dias em que foi apresentado. A partir dele foi constituído o Comitê Gestor da Comunidade Virtual Saber Global, que continuará trabalhando virtualmente para melhor estabelecer e clarear o que emergiu como indicativos importantes de uma agenda das políticas a serem estabelecidas.

Os membros deste Comitê são:
Rogério Santanna - secretário executivo do E-Gov; Rodrigo Assunção - da secretaria de Logística e Tecnologia da Informação - MPOG; Zuhair Warwar - Cgecon; Marcos Dantas - Ministério das Comunicações; Daniel Balaban - Sedes/PR; Gilson Schwartz - Cidade do Conhecimento/USP.

Para dar mais um passo no amadurecimento das idéias e projetos possíveis, uma nova reunião será agendada no primeiro semestre de 2004.

por Profª Elizabeth Rondelli
Professora da UFRJ.Publicado na íntegra a partir do site I-Coletiva

 
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